Congresso PSD
Aguiar-Branco. "Se não ganhar, não ficarei na liderança do grupo parlamentar"
por Maria João Avillez, Publicado em 13 de Março de 2010
Levou apenas uma semana a decidir e a anunciar a candidatura à liderança do partido. Quer acabar com as tribos para que haja "diversidade de pensamento". Admirador de Cavaco Silva, acredita que o país tem de apostar na inovação. Quer reformar a área da justiça
É do tempo do PPD, formou-se na política com Francisco Sá Carneiro, conhece os cantos à casa, mas não se dava muito por ele. Um dia foi escolhido por Santana Lopes para titular a Justiça, mais tarde eleito líder da sua bancada parlamentar no hemiciclo de S. Bento. Fez bem ambas as coisas, passou a falar-se de José Pedro Aguiar-Branco, 52 anos, advogado. Divide o baronato do PSD com o seu subitamente irmão-inimigo Paulo Rangel, afirma que "será o primeiro-
-ministro de que o país precisa nesta fase", vê-se como "alguém capaz de concertar" e de "erguer pontes e consensos". Tem cinco filhos, uma casa linda no Porto e desde sempre quer absolutamente uma coisa: liderar o PSD.
Foi chato ser sempre aquele que se esperava que desistisse? Entalado entre "o Rangel que vinha da vitória nas europeias" e "o Passos que tem muitos delegados"?
Mas eu nunca ouvi isso! Pelo contrário, sempre ouvi palavras de estímulo para me candidatar. Nas funções que tenho exercido - sempre de Estado, quer como ministro da Justiça, quer agora, como líder parlamentar - as pessoas confiam em mim. E dizem-me, aliá,s que no modo como as exerci reside um grande capital de confiança que poderei dar aos portugueses.
Quando tomou a decisão definitiva de se candidatar? Como o conheço, diria que foi há 30 anos...
Mas houve "um" momento, sim. O momento em que lançamos os dados sobre a mesa e tornamos irreversível a nossa decisão. E ele ocorreu no fim-de-semana anterior ao anúncio.
Quem é que sabia quando ainda ninguém sabia?
Acho que só eu. E a minha mulher, que partilha comigo todos os meus processos de decisão.
Avisou o Presidente da República ou fez chegar a sua disponibilidade a Belém?
Avisei a presidente do partido, Manuela Ferreira Leite - acho que era necessário fazê-lo - na segunda-feira. A segunda pessoa com que falei foi Rui Rio. Não falei ao Presidente.
E entretanto já falou?
Não.
Sei que o aprecia. Viu a sua entrevista televisiva?
Foi uma entrevista serena e tranquila de quem deve ser um referencial de estabilidade nos tempos difíceis que Portugal enfrenta. Saliento, no entanto, que deu uma especial importância ao papel fiscalizador e escrutinador da Assembleia da República aos actos do Governo. E aos resultados que dessa competência resultarem.
Voltando a si e à sua candidatura: não parece incorporar muito no seu discurso a má saúde do país...
Não incorporo? Sou - e fui - solidário, de forma extremamente evidente, com a denúncia, ocorrida nos últimos dois anos, sobre o estado em que o país estava devido a Sócrates. Empenhei-me nessa denúncia, focalizando os três problemas maiores de hoje: dívida, endividamento público e défice. Nunca tive problemas em dar a cara. Disse muitas vezes que os próximos anos vão ser duríssimos para Portugal, o que obrigará a que o próximo primeiro-ministro seja uma pessoa com capacidade de concertação social. Vamos ter de viver momentos em que vai contar a experiência na resolução de conflitos e a prática de encontrar denominadores comuns em situações de grande oposição. A situação exigirá que quem estiver ao leme do país seja firme nas decisões, consequente nas posições que toma, mas que possua também uma grande experiência em concertação social.
E você acha que tem?
Acho que tenho.
Que traz consigo de diferente, que ideias distinguem a sua candidatura?
Somos três candidatos do mesmo partido. É normal que tenhamos alinhamentos doutrinários semelhantes - senão estávamos todos enganados. Não estou a candidatar-me contra Sócrates ou Portas. Logo, é natural que não haja tantas diferenças... Mas para o país é fundamental atacar três sectores: a reforma da justiça, séria, consistente, programática, para lá de uma legislatura. Toda a gente reclama isso, mas repare que nenhum dos meus companheiros lhe dá tanto importância como eu, sendo uma questão fulcral. No modelo de desenvolvimento económico temos de apostar nas empresas, na sua competitividade e capacidade exportadora, às quais junto um elemento estratégico sobre o qual não oiço falar com tanta ênfase, a inovação.
Mudar de agulha, é isso?
Mudança de agulha na lógica do investimento público, centrado nas grandes obras públicas e nas obras infra-estruturais, passando à aposta na inovação. Por último, acredito na economia social, geradora de emprego e desenvolvimento. Daqui a dez anos será um sector que estrategicamente terá ainda mais importância nas sociedades: haverá mais esperança de vida e novas oportunidades. Se houver criatividade e inovação - no urbanismo, nas situações de design urbano, nas construções, em todas as situações que giram à volta de uma sociedade com mais esperança de vida. Defendo, pois, um sector social que não seja só de de-senvolvimento e de criação de emprego. Em resumo: justiça, economia e criação de emprego são sectores fundamentais para mim, prioritários.
O PSD está irreconhecível. Você quer unir. Tribos? Sensibilidades? Famílias ideológicas? Militantes?
Quero que deixe de haver tribos para que possa haver diversidade de pensamento. É salutar que haja diferentes formas de pensar, mas isso não deve pôr em causa a convivência, o respeito, a discussão de ideias, que não tem de cair no maniqueísmo. Infelizmente, nos últimos anos, caímos precisamente nesse maniqueísmo de atitude e na subvalorização da diversidade das ideias, que é saudável e deve existir num partido político. Por isso é que quando Passos Coelho me convidou para ir ao lançamento do livro dele, eu fui. E embora toda a gente já perspectivasse que eu pudesse ser candidato, fui para mostrar a diferença. Pode--se ser contra tribos mas admitindo estar num espaço onde é possível discutir ideias diferentes.
O que é que tem combinado com Passos Coelho se ele ganhar?
Nada. Nem com ele, nem com Rangel.
Onde estão as suas tropas?
Pelo país todo. A minha posição é de crescimento sustentado.
Repete muito essa frase...
Mas é verdadeira. Se perguntar onde estão mesmo, acho que estão nessa massa de votantes, para lá das estruturas dos dirigentes. Essa realidade é muito forte comigo. Houve uma revista que até já disse que se fosse pelo Facebook, eu ganhava.
Tem jovens consigo?
Tenho, em várias zonas do país, nesse aspecto tenho até um bom equilíbrio quer de género, quer etário.
Está há muito tempo no PSD. Começou com Sá Carneiro. Ter seguido ideologicamente a matriz do líder fundador chega-lhe como guia de conduta?
Absolutamente e sinto-a cada vez mais reforçada no momento que vivemos. Neste século XXI e nestas circunstâncias, há um reforço até da matriz ideológica inicial de Sá Carneiro. É fundamental conciliar a vontade e a certeza de que depende de nós melhorar as coisas com a dimensão social.
O que espera do congresso?
Espero que seja aquele momento de suplemento de alma que o PSD consegue arranjar nos seus congressos. Ficaria feliz se no fim, independentemente das candidaturas, sentíssemos que tínhamos vivido todos um momento assim.
Começaria assim o restabelecimento da avariada ligação do partido ao país?
Sim. Aliás, é uma preocupação minha repor esse canal directo que existia e foi interrompido, devolver o PSD à sociedade, voltar à discussão de causas concretas. Esse canal tem de ser recuperado e os congressos são momentos bons, proporcionam esses impulsos anímicos. Espero que neste também seja assim e que se encontrem a seguir sinais mais directos de participação de militantes - e não-militantes - na actividade do partido.
Para além dessas boas intenções, há que saber o que deve ser hoje no país o PSD: tem que papel, representa o quê?
O PSD deve ser o partido que reabilitará os valores da transparência, do rigor e da responsabilidade, fundamentais para restaurar a confiança que mobilize os portugueses para os tempos difíceis que vamos viver. Deve ser um pólo atractivo de participação cívica dos que acreditam que depende sobretudo deles, da sua livre iniciativa e não do Estado, o desenvolvimento do nosso país. E, como já referi acima, deve ser sinónimo de inovação com dimensão social, em linha com a sua matriz originária.
Se ganhasse, como faria para concorrer à liderança nacional? Preferia uma coligação? Mais virada ao centro- -esquerda ou privilegiando a direita? Ou contemplaria a direita e o centro- -esquerda?
Acho que o PSD se deve apresentar sozinho a eleições e só avaliar a questão da governabilidade após o acto eleitoral. O PSD é historicamente um partido que agrega o centro-esquerda e o centro-direita e a força da sua afirmação eleitoral é tanto maior quanto não alienar o centro esquerda.
E se não ganhar? Fica? Parte? Sai da liderança parlamentar, criando um bico-de-obra...?
Não ficarei - em circunstância alguma! - na liderança do grupo parlamentar e já avisei disso os meus companheiros, aliás. Um bico-de-obra? Então têm bom remédio - é eleger-me a mim!
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