Família

Reze para que a sua sogra não se chame Esperança...

por Joana Viana, Publicado em 13 de Março de 2010   
... pois é a última a morrer. Esqueça esta e outras piadas sobre sogras e saiba como dar a volta às mais incompreendidas das mulheres
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Maria casou jovem e nunca foi bem aceite pela mãe do marido. Depois de um ano de casamento, a batalha campal era insuportável. No dia de aniversário dele, Maria e a sogra quiseram fazer o bolo para a festa. António não gostava de fazer anos e, aborrecido, saiu de casa. Horas mais tarde descobriu que, depois de uma discussão com a mãe dele, Maria, de 27 anos, tinha tomado comprimidos para se suicidar - e que a sogra, no quarto ao lado, não fizera nada para a ajudar.

Apesar dos nomes fictícios, a história é real. Aconteceu há 60 anos e deu uma lição a António, que nunca mais deixou mãe e mulher sozinhas em casa. Hoje, problemas entre sogras e noras não chegam a este ponto (em caso de desespero, um divórcio faz milagres), mas as relações entre umas e outras continuam a ser conturbadas. "Trata-se de um fenómeno das culturas latinas, no que toca às mães com filhos homens", explica o psicólogo Vasco Soares. "Ainda estamos a colher os frutos das gerações anteriores aos anos 80, em que os pais eram pouco participativos na educação dos filhos e deixavam as filhas com esta necessidade de compensação, que é satisfeita quando têm filhos homens."

Os filhos tornam-se alvo de uma dedicação obcecada quase exclusiva e as mulheres deles passam a ser vistas como inimigas. Explica o especialista que é "por isso que, quando conhecem a nora, as sogras hipervalorizam as partes negativas, como por exemplo o facto de serem más cozinheiras ou não saberem tratar da casa."

Uma mulher entre homens "Quando os meus filhos estavam a crescer, queria que fossem todos gay para nunca me deixarem", diz Diane Keaton à mesa de jantar no filme "A Jóia de Família". O enredo da comédia romântica é o dia-a--dia de muitas noras: chegada a hora de conhecer a mãe do companheiro, nada do que façam parece agradar-lhe.

Natália (nome fictício), 23 anos, conhece os males de ter uma sogra como a personagem de Keaton. O pior episódio até hoje, recorda ao i, foi a discussão gerada quando a mãe do namorado lhe disse: "Há coisas que os homens não sabem fazer, filha, e tu tens de te habituar. Eu e o meu marido, por exemplo: eu ajeito--me mais a tratar das coisas da casa, ele ajeita-se mais a ver filmes." Natália classifica-a, diplomaticamente, como "um dos elementos mais coloridos da relação" com o namorado. "Ela é tão delicada que quando me viu de saia me disse que tenho umas pernas gordíssimas." Meses mais tarde viria a puxá-la à parte depois de um jantar de família para lhe dizer que acha que o seu filho está "muito mal entregue". A sogra de Natália é um caso clássico de "mulher possessiva" rodeada de homens, que se dedica em exclusivo a eles para compensar a ausência do pai, explica Vasco Soares.

Mas os problemas não são exclusivas de sogras com noras. A ex-sogra de Horácio Azevedo, é prova disso: numa trama mais complexa, levou alguns anos a dar-se bem com o genro. "Quando casei com a minha ex-mulher, ela tinha um filho com três anos que passava muito tempo em casa da avó. Quando chegava a casa, não nos respeitava. Argumentava que a avó tinha outras opiniões e que ela é que sabia." Depois de vários meses a pedir à mulher que tomasse uma atitude, Horácio tomou as rédeas e foi falar com a sogra. "Desde aí passou a ter um comportamento mais distante que durou vários anos", explica. Hoje, com 47 anos e divorciado há 14, o delegado de informação médica acrescenta, bem-disposto: "Desde que me separei ela mudou e acho que me admira. Damo-nos bem."

Os bons e os maus da fita A jornalista francesa Christiane Collange é uma excepção ao padrão das sogras. No seu livro "Nós, as Sogras", esta sogra de quatro noras tenta provar que faz parte de uma classe de mulheres incompreendidas alvo de humor "racista". "Fazemos parte de uma raça cuja imagem será sempre vista de forma negativa ou ridícula. Maníacas, autoritárias, indiscretas, intrometidas, superprotectoras... A palavra 'sogra', por si só, provoca zombaria."

É uma imagem ingrata, reforça Vasco Soares, porque foi passada de geração em geração. E quem sai bem na figura são os sogros: não se incluem no cliché porque "durante as guerras, as mães assumiram também o papel de autoridade". E, realça o psicólogo, "se já existem as sogras, os sogros podem afastar-se e ser os porreiraços".



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