Papa "perturbado" com casos de pedofilia na Igreja

por Sara Sanz Pinto, Publicado em 13 de Março de 2010   
Vítimas descrevem um ambiente de "punições sádicas e luxúria sexual" até à humilhação
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O Papa confessou ter ficado "perturbado" com os abusos sexuais contra menores cometidos por padres na Alemanha. A reacção de Bento XVI foi avançada ontem pelo presidente da Conferência Episcopal Alemã, Robert Zollitsch, depois de o ter informado dos casos e das medidas que estão a ser tomadas para evitar novos escândalos. Zollitsch foi chamado ao Vaticano depois de, nas últimas semanas, terem vindo à tona vários casos de abusos sexuais cometidos em colégios alemães nos anos 70, 80 e 90, envolvendo cerca de 350 crianças.

"A questão do ensino dos padres, bem como aquilo que aconteceu na chamada 'revolução sexual'", são assuntos que precisam de ser abordados, sugeriu o arcebispo de Viena. "Isto também inclui a questão do celibato para os padres", sublinhou o cardeal Christoph Schoenborn num artigo que escreveu para uma revista católica. "É preciso um grande compromisso de honestidade, quer da parte da Igreja, quer da parte da sociedade", acrescentou ainda.

Porém, para Bento XVI, e numa altura em que os escândalos de pedofilia no seio da Igreja Católica já se espalharam à Irlanda, Holanda, Áustria e Alemanha, o celibato não merece discussão. "É sinal de completa devoção, de total compromisso com Deus e com os assuntos de Deus, uma expressão daquele que se entrega a Deus e ao próximo", esclareceu ontem o Papa no Congresso Teológico que decorre desde quinta-feira no Vaticano.

Durante o encontro de meia hora entre Bento XVI e Zollitsch foram abordados pormenores das acusações dos abusos sexuais por padres alemães. Entre os mais de 170 casos está história de um rapaz do coro em tempos orientado pelo irmão do Papa, Georg Ratzinger. Os abusos terão ocorrido durante os anos 50 e 60. O irmão do Papa, que ocupou o cargo de 1964 até 1994 e disse não ter conhecimento de nada durante esse período, admitiu porém ter recorrido à "punição corporal" nos primeiros tempos. Para Franz Wittenbrink, membro do coro entre 1958 e 1967, é "inimaginável" que Georg Ratzinger, enquanto director, não tenha tido conhecimento dos casos de abusos sexuais. Em declarações à revista "Time", Wittenbrink descreve um ambiente de "punições sádicas e luxúria sexual" que ia até à "humilhação".

"Até aos 40 anos, pensei que era o único. Sentia-me num sítio escuro, forçado à solidão", confessou à BBC Norbert Denef, vítima de abusos dos cinco aos dez anos por um padre e outros três por um organista da Igreja. "Por cada dez pessoas que admitem ter sido vítimas de abuso, podem ter a certeza de que existem mais 10 mil em silêncio", garantiu, sublinhando que o escândalo ainda vai crescer.


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