Especialista diz que agressões a professor podem ser "gota de água", mas nunca causa do suicídio

Publicado em 12 de Março de 2010   
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Atos de intimidação ou agressão continuados de alunos a um professor podem ser a "gota de água" que leva ao suicídio, mas não são, por si, a sua causa, diz uma especialista do Núcleo de Estudos do Suicídio.

Um professor de Música da Escola Básica 2.3 de Fitares, em Rio de Mouro, Sintra, ter-se-á suicidado alegadamente por ser alvo da indisciplina dos seus alunos, noticiam hoje os jornais Público e i.

Segundo os jornais, o professor, com 51 anos e licenciado em Sociologia, vivia com os pais em Oeiras e foi colocado nesta escola no início deste ano letivo. A 09 de fevereiro, o professor parou o carro na Ponte 25 de abril, em Lisboa, e atirou-se ao Tejo.

Contactada pela Agência Lusa, Ema Lima Neves, do Núcleo de Estudos do Suicídio (NES), ressalvou não conhecer o caso, mas sublinhou que "é sempre muito arbitrário estabelecer uma casualidade tão direta a maus tratos e um comportamento suicida".

"Aquilo que sabemos das investigações é que de fato o comportamento suicidário e o suicídio consumado, como foi este caso, é sempre multideterminado, multicausal e muito complexo. Acarreta sempre um ato de muito sofrimento, mas não há nunca uma causalidade direta", explicou.

Ema Lima Neves defende que "é muito importante" que se faça a autópsia psicológica para se poder perceber "os fatores precipitantes".

"Os fatores precipitantes são coisas muito diferentes das causas e podem ser uma situação destas, de conflitualidade laboral, ou uma situação económica precária. Um fator stressante qualquer de vida pode funcionar como fator precipitante, ou seja, como uma gota água que leva a pessoa a tomar uma decisão ou a ter um impulso suicida, mas não é uma causa", sublinhou.

A especialista acrescentou que aos fatores precipitantes se junta depois a situação psicológica e psiquiátrica de cada um e a sua variabilidade e vulnerabilidade.

A especialista explicou que a autópsia psicológica será importante "para não se atribuir erradamente culpas" e perceber "as várias condicionantes e fatores precipitantes" que levaram ao suicídio.

"Nunca, nem numa criança, nem num adulto, nunca nenhum destes fatores por si só condiciona o suicídio", garantiu, lembrando que muitas crianças são alvo de 'bullying', mas nem todas tentam suicidar-se.

Confrontada com a mensagem que o professor terá deixado no seu computador pessoal, onde justificava a sua decisão com o desrespeito dos alunos e não ter outro meio de rendimento, Ema Lima Neves explicou que é frequente as pessoas que tentam o suicídio estabelecerem elas próprias uma relação direta entre a causa e a consequência.

"Que a pessoa faça essa atribuição não é de estranhar, nem é invulgar, mas não é verdade", sublinhou, acrescentando que todo o trabalho psicoterapêutico e psiquiátrico serve também para desmontar esse pensamento.

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico



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