Entrevista

"Depois de ser pai, fiquei com vontade de ser parteiro"

por Diana Garrido, Publicado em 13 de Março de 2010   
Adora os filhos, mas quando eles nasceram sentiu-se abandonado. Há um ano que o escritor José Eduardo Agualusa não volta a casa, em Angola. É um regime totalitário, acusa
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Acorda sempre antes das oito da manhã, não bebe, não fuma e não conduz. Talvez por isso tenha um ar tão saudável. O escritor angolano José Eduardo Agualusa, 49 anos, abriu-nos a porta de casa, na Lapa, e convidou-nos a entrar na sala tropical forrada a livros onde é possível esquecer que se está em Lisboa. A falar baixinho, sotaque angolano, foi respondendo com esforço, como quem arranca um dente, às perguntas sobre o livro de crónicas que acaba de lançar, "Um Pai em Nascimento". É um homem reservado. Refere-se aos dois filhos, um rapaz de 13 anos e uma rapariga de cinco, como "os meninos". O maior desafio da paternidade, diz, é pentear a cabeleira indomável da filha, a sua rainha.



Com 13 anos de experiência como pai, é capaz de dar conselhos?

Nunca pretendi dar respostas, apenas colocar questões. Por um lado, talvez ajude alguns pais a perceber que não estão sozinhos nas suas dúvidas e, por outro, poderá ajudar algumas mães a compreender as dúvidas dos homens. Neste processo dá-se atenção à mãe e à criança, e o pai é um pouco esquecido.

Isso aconteceu consigo?

Com o primeiro, sim, muito. Embora qualquer homem devesse esperar isso, acho que a gente nunca está à espera. Toda a atenção vai para a mulher e para a criança. A própria mulher, como é óbvio, até por questões biológicas, se esquece do homem, que passa a não existir. Somos uma espécie de fantasma provedor que vai fazer as compras e tal... mas ninguém se preocupa com o que se está a passar na nossa cabeça. Para a generalidade dos homens é uma sensação estranha.

Ficou assustado quando soube que ia ser pai pela primeira vez?

Fiquei preocupado, acho que sim. Mas lembro-me de que o nascimento em si foi uma euforia muito grande. Acho que vivi tudo com muito entusiasmo. Eu gosto muito de partos. Fiquei com vontade de ser parteiro. A sério! Cortei o cordão, gostei mesmo. Eu poderia ser parteiro.

Mas que é que o fascina?

É um espectáculo. É das melhores coisas que vi na vida. O nascimento em si é extraordinário, é a criança a saltar - porque salta. Isto é uma imagem que está nos poemas mas é exactamente assim, eles saltam.

Essa nova condição de pai interferiu com a sua escrita?

Sim, no sentido em que se aprende muito com os filhos. O Manuel de Barros, poeta brasileiro, dizia que tinha roubado muito aos filhos. Ele, como o Mia [Couto], trabalha muito com a palavra, inventa palavras, e as crianças fazem isso o tempo todo. A partir do momento em que dominam a lógica da língua, recriam com muita facilidade e isso é muito interessante para um escritor. A capacidade criativa delas é absolutamente fascinante.

E não houve um lado negativo?

Claro que quando são pequenos é muito difícil. Com a menina não. Se ela está a fazer muita confusão, sento-a ao colo enquanto trabalho. Ela fica tranquilíssima. Não sei explicar muito bem porquê, mas é verdade. Acalma-se se eu a sentar ao colo e for escrevendo e lendo alto. Tem uma boa relação com os livros, ainda não lê mas finge que lê, porque já sabe as histórias. Ele não era assim.

Os seus filhos vivem em Luanda. A distância permite-lhe não ter de se preocupar com coisas sérias e ser um "pai fixe"?

É um pouco a ideia que eles têm, sobretudo porque estão comigo nas férias e podem fazer coisas diferentes. Mas é muito duro, muito difícil. Todos os dias penso se não deveria estar em Luanda com eles. Perco muita coisa. Sobretudo com a menina, que está a crescer - sinto que estou a perdê-la, a perder coisas dela.

Não é muito bem-vindo em Luanda. Há quanto tempo não vai lá?

A situação em Angola, infelizmente, do ponto de vista político degradou-se nos últimos meses. Não vou lá desde Maio porque não me sinto bem em ambientes não democráticos.

Isso causa-lhe tristeza ou gosta do protagonismo?

Deixa-me triste, como a qualquer pessoa que se tenha envolvido na luta pela democratização do país. Porque realmente não era uma coisa que se esperasse. Todos nós acreditávamos que o país estava a avançar. Devagarinho, mas a avançar no sentido de uma maior democratização, e agora ficou claro que não. Está a recuar, está a fechar--se. É um regime totalitário que se vai manter assim. E é tolerado no exterior, como se viu agora nas declarações do primeiro--ministro português. Enquanto der dinheiro, enquanto os negócios se mantiverem, não convém tocar.

Preocupa-o os seus filhos crescerem nesse ambiente?

Não é uma coisa que me deixe muito feliz, gostava que crescessem em Angola mas num ambiente democrático. Os regimes totalitários corrompem as pessoas e o medo destrói-as.

Quando eles estão consigo, não se atrapalha a cuidar deles?

Nada. O rapaz não dá trabalho nenhum. Ela tem um génio mais difícil e só faz o que quer. O interessante nas crianças é que quando nascem parecem vir já com a personalidade determinada. A menina já vinha com aquela garra, alegria e determinação. É uma rainha.

Por isso se chama Vera Regina (verdadeira rainha). Como chegaram a esse nome?

Sempre quis dar nomes que fizessem sentido, com significado. Antigamente todos os nomes tinham um sentido. Havia diversas possibilidades, mas esta pareceu-me a mais sensata, porque ela será sempre a minha rainha.

Tem carta e não conduz. Porquê? Com dois filhos dá jeito...

Tenho uma má relação com os carros. Uma vez o carro parou numa subida inclinada, as pessoas começaram a buzinar - porque o pior de conduzir são as outras pessoas - e eu não tenho paciência nenhuma. Puxei o travão de mão, deixei o carro lá e desde aí nunca mais conduzi. Há mais de 20 anos, já.

E não há nada que o aborreça na paternidade?

Não é que não goste, mas o mais difícil com a menina é penteá- -la. Tem uma cabeleira difícil. Ainda por cima é muito exigente, não deixa que eu saia com ela de qualquer maneira. Posso levar horas a penteá-la. Para ela é uma maravilha. Aquele cabelo exige muito trabalho, um cremezinho. Quando estou absolutamente desesperado levo-a ao cabeleireiro. Ela adora.

E birras?

Ele quando era pequeno viu a cassete do casamento e ao dar- -se conta de que não estava lá começou a gritar, indignado: "Casaram-se e não convidaram o próprio filho!" Eu expliquei- -lhe que ele ainda não existia. Foi pior: "Como é que não existia? Eu existo desde sempre." Tinha quatro anos na altura. As crianças dizem coisas extraordinárias.

E de certeza que lhe fazem perguntas estranhas...

Uma vez ela disse: "Tenho estado a pensar que as pessoas passam a vida a pedir coisas a Deus, mas quando as pessoas morrem vão para o céu e Deus está no céu. Então está morto. E se está morto porque é que lhe pedem coisas?" É muito céptica. As crianças vêem o óbvio, que nós já deixámos de ver.


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