Fórmula 1

A F1 é um circo. Toda a gente fala mas só um é o artista

por Filipe Duarte Santos, Publicado em 13 de Março de 2010   
Começa amanhã no Barém a mais esperada época dos últimos tempos. Schumacher, o maior piloto de sempre, junta-se à festa
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Michael Schumacher, o Deus na Terra

“Tenho alguns cabelos brancos, comecei a pintá-los em 2005. Também fui ao oftalmologista, mas ainda não preciso de óculos.”

Muito bem, Michael Schumacher está velho, há quem duvide das suas capacidades, mas pelo menos o sentido de humor está apurado. Ross Brawn convenceu-o a regressar a uma equipa totalmente alemã - a Mercedes e os seus flechas prateados estão de volta depois de 1955 -, mas depois foi dizer ao seu outro piloto, Nico Rosberg, que para ser campeão precisava de começar por bater Schumacher. Afinal Brawn aposta em quem? A seguir, o número 3 do carro de Rosberg foi desviado para o de Schumacher. Problema? "Quando ganhar no Barém, ninguém se vai preocupar com o número do meu carro", disse o filho de Keke. Seja como for, a manobra de marketing do século teve efeito e este foi o defeso mais interessante dos últimos anos. Por alguma razão Niki Lauda diz que o regresso de Michael Schumacher vai salvar a F1. Flávio Briatore prefere desconfiar: "Não se anda mais depressa só por pintar o cabelo."

 

Fernando Alonso, o Egoísta

"Quando se corre na Ferrari pode terminar-se a carreira. A vida está completa."

Pois. Schumacher achava o mesmo, até ganhou cinco de sete títulos na Ferrari, e agora está onde? Fernando Alonso foi para a Ferrari (com o dinheiro do Santander) e já se vê a fazer de Schumacher, isto é, a reerguer a “scuderia” depois de uma época medíocre. “Agora podem apostar dinheiro em mim.” O problema é que tem um colega de equipa tão ou mais ambicioso do que ele. E isso, geralmente, dá divisão de pontos que não interessa a ninguém. Por enquanto, Felipe Massa acha que está tudo bem: “Falei mais com o Fernando Alonso em três dias do que com o Kimi Raikkonen em três anos.”

 

Lewis Hamilton, o Pussycat Driver

"Fui eu que liguei ao Martin Whitmarsh para perguntar: 'E que tal o Jenson Button?'"

Claro. Não fazia grande sentido, mas depois toda a gente percebeu: Hamilton continua a ser líder da McLaren, quanto mais não seja porque Button, apesar de agora ser campeão do mundo, é aquele rapaz tranquilo que não chateia ninguém. Os especialistas apostam que vai ser engolido pelo “pussycat driver” (voltou para os braços de Nicole Scherzinger), mas Button ainda está com coragem. “Assinei pela McLaren porque quero ser campeão”, disse, embora sem grande impacto. Veja a opinião da lenda Stirling Moss: “Juntamente com Alonso e Vettel, Hamilton é nesta altura o piloto mais rápido da F1. Vai ser interessante ver o que acontece, mas acho que o Button se meteu na boca do lobo.” Seja como for, depois de 1999 voltam a estar dois campeões do mundo em pista: dois na McLaren, mais Schumacher e Alonso.

 

Rubens Barrichello, o Eterno Segundo

"Estou tão motivado que tenho medo de mim próprio."

Só mesmo Barrichello para ter medo de Barrichello. Quem mais? Na época passada teve a sua última grande oportunidade para ser campeão do mundo e falhou. E não foi para Schumacher, como sempre. Desta vez  ficou atrás de Button e de Sebastien Vettel. Ganhou duas corridas, desconfiou de traição da própria equipa (beneficiavam Button?), mas pelo meio lá reforçou o respeito – aos 37 anos é o piloto mais experiente da F1 (284 corridas) e a Williams foi buscá-lo para ajudar a desenvolver o carro. Ainda não é desta que vai aceitar o conselho do amigo Felipe Massa para abandonar o circo. E pensar que no ano passado esteve para ficar apeado e começou a época como um rookie, com um contrato de apenas quatro corridas.

 

Robert Kubica, o Abençoado

“Sou amigo do Fernando Alonso, mas sabe como é, se quiser ter um amigo na F1 mais vale comprar um cão.”

Kubica, o polaco que ficou pendurado com o abandono da BMW, até pensou dedicar-se à sua outra paixão, os ralis. Apareceu a Renault, também a desinvestir, mas com um lugar para o piloto que dizem ter sido salvo por milagre de João Paulo II depois de um grave acidente no Canadá, em 2007. Nos últimos anos o rapaz de Cracóvia era visto como um potencial campeão;  agora reza para que a Renault volte aos bons velhos tempos e lhe ofereça um carro competitivo. Seja como for, Kubica é uma espécie de piloto de topo numa equipa de meio da tabela. Aideia é que o pelotão está mais forte e quem está de fora vibra à espera das corridas. “Se Deus quisesse que andássemos, por que razão nos teria dado pés que encaixam nos pedais dos automóveis?” Stirling Moss continua mais apaixonado do que nunca.

 

Vitaly Petrov, o Rookie

“É melhor estar perdido no meio de uma cidade do que no meio da Sibéria.”

... até porque os que vão para a Sibéria acabam esquecidos. O russos estreiam finalmente um piloto na F1 e a oportunidade transformou-se em causa nacional. Vladimir Putin já disse que o governo deve entrar com uns rublos. Admirado? José Maria Lopez, o argentino que supostamente ia para a USF1, tinha um grande empurrão da presidente Cristina Kirchner, que lhe deu dois milhões de dólares.
Dinheiro à parte, as estreias são sempre complicadas. “Já não sou um soldado atirado para as praias da Normandia”, disse Jaime Alguersuari, o mais jovem piloto do circo, que na época passada fez oito corridas pela Toro Rosso. Os restantes soldados que enfrentam o Dia D são Nico Hukkenberg (chamam-lhe “o novo Schumacher”), Lucas di Grassi e Bruno Senna. “Espero que toda a gente me conheça por Bruno, não pelo apelido do meu tio”, diz o último.

 

Tony Fernandes, o Aviador

“Temos de ficar à frente do Richard Branson, senão retiro-me e mato-me.”

A Fórmula 1 é brincadeira de milionários. “Ponham um qualquer executivo de meia-idade na F1 e ele transforma-se numa criança”, disse Gerard López, um financeiro do Luxemburgo que este Inverno tentou comprar a Renault. Não conseguiu, mas a classe já está bem representada. A Force India é do empresário indiano Vijay Mallya, a Virgin estreia-se este ano como mais uma aventura de Richard Branson e a mítica Lotus regressa com os dinheiros de Tony Fernandes, um rival de Branson na aviação (Air Asia). A Hispânia F1 Team chega ao circo graças aos dinheiros de José Ramón Carabante, um financeiro de Múrcia. E a Stefan GP, do sérvio Zoran Stefanovic, que comprou a defunta Toyota, esperou até à última hora para entrar e até tinha Jacques Villeneuve para piloto. Crise? Qual crise?



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