EDITORIAL

A orgia dos professores, a corrupção do sistema e o bacanal do país

por André Macedo, Publicado em 20 de Maio de 2009   
A professora que falou de orgias a uma sala do 7º ano perdeu a cabeça. Nenhum professor pode dar-se ao luxo de explodir à frente dos alunos, como os médicos não podem rebentar à frente dos doentes
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O professor é o principal responsável pelo êxito ou fracasso dos alunos na escola. O seu desempenho é mais decisivo do que o método de ensino ou o material didáctico que possa existir na sala de aula - defende a consultora McKinsey.

No mesmo trabalho são apontados os bons e os maus exemplos. Na Finlândia e em Singapura, os professores são escolhidos entre os melhores na universidade e nem todos chegam à meta. São levantadas barreiras à entrada dos cursos de formação: notas finais, testes para verificar conhecimentos, avaliações que testam a resistência e a motivação para continuar a aprender ao longo da vida profissional.

O sistema está construído para seleccionar os que parecem mais capazes de enfrentar o choque com a realidade. Não é um procedimento infalível, mas é um passo no sentido certo: o de assegurar que os alunos recebem a melhor preparação possível enquanto estão na escola. Recrutar professores com a menor margem de erro possível é uma opção essencial. Um mau ou inexistente mecanismo de selecção pode resultar em 40 anos de ensino deficiente (diz a McKinsey). São gerações e gerações desperdiçadas. Um barril de pólvora. Nenhum país resiste à chacina.

Vem tudo isto a propósito do último caso que agita as escolas portuguesas: a professora que enfrenta um processo disciplinar porque decidiu falar de orgias sexuais durante uma aula do 7º ano. O disparate é evidente, como também é óbvia a impossibilidade de evitar casos deste género.

Dito isto, é fundamental deixar claro que os professores devem ser como os médicos. Um médico doente não pode operar; um professor deprimido não pode ensinar.

Bons processos de recrutamento profissional, formação adequada ao longo da carreira e a autonomia certa às escolas para que acompanhem de perto as suas equipas são o instrumento principal nesta estratégia para reduzir a margem de risco e aumentar as taxas de sucesso. Daqui resultará a valorização dos professores e o justo reconhecimento da carreira - o contrário do que acontece hoje.

Está também provado que equilibrar a oferta de professores à procura do mercado é outro passo neste processo de revalorização. Ser professor deve ser um privilégio para alguns, não uma infeliz alternativa para quem quiser. As crianças não têm culpa do bacanal que se vive nas escolas. Essa é a verdadeira orgia, e a culpa não é só dos professores, é de todos os governos.



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