Visto de fora
Um espelho irlandês
por Paul Krugman, Publicado em 12 de Março de 2010
O se pode aprender com a crise, estudando casos diferentes, como o dos Estados Unidos e o da Irlanda, é que temos de nos concentrar tanto nos regulamentadores como nas regulamentações
Toda a gente tem uma teoria acerca da crise financeira. As teorias vão do absurdo ao plausível: da ideia de que os democratas liberais forçaram, de algum modo, os bancos a emprestarem dinheiro aos pobres que não o mereciam (apesar de os republicanos controlarem o Congresso) à convicção de que foram os instrumentos financeiros exóticos que promoveram a confusão e a fraude. Mas o que sabemos de facto do assunto?
Ora bem, a simples escala da crise - a maneira como afectou uma grande parte do mundo, embora não a sua totalidade - dá-nos umas pistas, quanto mais não seja para investigarmos. Podemos considerar países que evitaram o pior, como o Canadá, e perguntar-nos o que terão feito de acertado - por exemplo, limitar a alavancagem, proteger os consumidores, e sobretudo evitar a prisão a uma ideologia que nega a necessidade de regulamentação. Podemos também considerar países cujas instituições financeiras e políticas pareciam muito diferentes das dos Estados Unidos e que, todavia, se desmoronaram com o mesmo fragor, e tentar discernir causas comuns.
Falemos da República da Irlanda. Como observa um novo ensaio da autoria dos economistas irlandeses Gregory Connor, Thomas Flavin e Brian O'Kelly, "quase todos os factores causais da crise dos EUA estão ausentes no caso irlandês" e vice-versa. Contudo, os contornos da crise irlandesa foram muito semelhantes: uma enorme bolha imobiliária - os preços subiram em Dublin mais que em Los Angeles ou Miami - seguida de um grave falta de liquidez da banca, que só foi contida com resgates dispendiosos.
A República da Irlanda não tinha nenhum dos vilões de estimação dos Estados Unidos: Community Reinvestment Act, um Fannie Mae nem um Freddie Mac. O mais surpreendente é talvez a falta de peso dos esquemas financeiros exóticos: a falência irlandesa não resultou de maneira nenhuma de um enredo de titularizações de activos financeiros (collateralized obligations) ou de credit default swaps; foi um caso puro e simples de excessos, em que os bancos concederam empréstimos avultados a pagadores duvidosos e em que os contribuintes acabaram por pagar a factura.
Então o que tiveram em comum? Os autores do novo estudo apontam quatro factores causais "profundos".
Em primeiro lugar, uma exuberância irracional: em ambos os países, compradores e emprestadores convenceram-se de que os preços do imobiliário, embora já a níveis recorde, continuariam a subir.
Em segundo lugar, enormes entradas de dinheiro barato. No caso dos EUA, muito do dinheiro barato veio da China; no da Irlanda, veio sobretudo do resto da zona euro, onde a Alemanha se tornou um gigantesco exportador de capital.
Em terceiro lugar, os principais actores tinham um incentivo para correr grandes riscos porque se perfilavam duas hipóteses: ou ganhavam eles ou perdiam outros. Na República da Irlanda, esta falha foi sobretudo pessoal: "Os dirigentes dos bancos que assim se comportaram passaram à reforma com as suas fortunas pessoais intactas." Também houve muitos casos desses nos EUA: como observam Lucian Bebchuk, de Harvard, e outros, os executivos de topo de empresas estado-unidenses que faliram receberam milhares de milhões de pagamentos "indexados ao desem- penho" antes de as empresas ficarem de rastos.
No entanto, a semelhança mais gritante entre a República da Irlanda e os Estados Unidos foi a "imprudência regulamentar": os responsáveis pela segurança dos bancos não cumpriram o seu dever. Na República da Irlanda, os reguladores desviaram o olhar, em parte porque o país estava a tentar atrair empresas estrangeiras e em parte por conivência: os banqueiros e os promotores imobiliários tinham estreitas ligações com o partido no poder. Também aqui nos EUA isso se passou, mas a questão mais importante foi sempre ideológica. Com efeito, os autores do estudo irlandês enganaram-se neste ponto, ao frisarem a maneira como os políticos nos EUA louvavam o ideal da casa própria; é verdade que faziam discursos nesse sentido, mas isso não se traduziu em incentivos a quem emprestava dinheiro.
O que verdadeiramente importava era o fundamentalismo do livre mercado. Foi isso que levou Ronald Reagan a declarar que a desregulamentação resolveria os problemas das instituições de poupança e Alan Greenspan a insistir que a proliferação de derivativos tinha até reforçado o sistema financeiro. Foi em larga medida graças a esta ideologia que os regulamentadores ignoraram o avolumar dos riscos.
Então que podemos nós aprender com a crise financeira da República da Irlanda, ao estilo da dos EUA, apesar da grande diferença entre as instituições? Sobretudo que temos de nos concentrar tanto nos regulamentadores como nas regulamentações. Devemos, sem dúvida, limitar tanto a alavancagem como o recurso à titularização - duas coisas acertadas feitas pelo Canadá. No entanto, essas medidas por si sós não terão efeito se não forem aplicadas por pessoas cientes de que o seu dever é dizer não aos banqueiros poderosos.
É por isso que precisamos de criar um organismo independente que proteja os consumidores financeiros, como fez o Canadá, em vez de deixar essa tarefa a organismos que têm outras prioridades. Além disso, precisamos de uma mudança radical de atitudes, de reconhecer que deixar os banqueiros fazerem o que querem é uma receita para o desastre. Se isso não acontecer, não teremos aprendido nada e ficaremos condenados a repetir os erros recentes.
Economista Nobel 2008
Exclusivo i/The New York Times
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