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Moda Lisboa. O estilo dos homens que desenham para as mulheres
por Nelma Viana, Publicado em 11 de Março de 2010
O i viu os últimos preparativos da dupla Alves/Gonçalves, hoje na passerelle com a mesma ansiedade de há 16 anos
Manuel Alves foi nomeado anfitrião desta visita. Feitas as apresentações, José Manuel Gonçalves saiu, apressado. "Tínhamos os sapatos encomendados há três meses para o desfile de amanhã e, veja lá, recebemos hoje um mail a dizer que era impossível entregar a encomenda. O Zé Manel foi ver se resolvia isso", disse Manuel Alves, enquanto subia as escadas para o atelier.
Lá em cima, entre cabides e peças de roupa, as máquinas de costura servem de banda sonora e o pack de nove maços de cigarros em cima da mesa denuncia a agitação dos dias.
A sala é iluminada por uma pequena clarabóia, mas é a lareira de pedra cinzenta - estrategicamente situada num dos cantos - que dá o mote inspirador. Retoma-se o assunto de boas-vindas sobre "os atrasos incompreensíveis da indústria criativa portuguesa" e eis que surge Teresinha. A cadela, "menina dos olhos" de Manuel, acompanha o percurso da dupla há mais de 14 anos. Interrompemos a conversa. "A Teresinha está doente, vou deitá-la aqui ao pé de mim para ver se fica mais bem disposta", explicou, preocupado. Acomodada numa almofada em cima da mesa, Teresinha lá ficou, indiferente à nossa presença.
É então que entra a última manequim do dia para as provas de roupa. "É assim que eu gosto, tudo a servir direitinho", diz Manuel, satisfeito com a construção das peças. "Aqui não há agrafos nem fita-cola nas roupas, é nosso lema primar pelo rigor na construção", continua, lembrando que "nem sempre as coisas saem como queremos, mas orgulhamo-nos da nossa organização e posso garantir que quando é para entrar na passerelle, temos tudo pronto".
Os tecidos empilhados ao lado da mesa de trabalho deixam antever uma colecção dinâmica, cujas silhuetas obedecem às linhas do corpo feminino. "É a conjugação de materiais sofisticados com elementos mais techno", adiantou, em primeira mão, Manuel. O código de cores segue um esquema sombrio, com destaque para os azuis metálicos, associados ao preto, bege e dourado. Na passerelle, confirma ainda o estilista, "vão predominar os vestidos, as saias e os casacos. Tudo muito feminino e muito bem cortado".
O processo criativo da dupla é resultado de "muita discussão". Diz Manuel que, apesar dos pontos de vista diferentes, "as peças acabam por ter um bocadinho de cada um". A força de trabalho é composta por uma fiel equipa de 11 pessoas, responsável pelo produto desde a sua projecção até à última costura.
A inspiração, garante, "é fruto da nossa curiosidade". Olhar em redor e tentar interpretar o mundo, "absorvendo, acima de tudo, a vida de todos os dias".
moda portuguesa Os anos de experiência nestas andanças não contêm o nervoso miudinho na hora de subir à passerelle: "Marcamos presença na Moda Lisboa desde 1994, mas há sempre uma certa ansiedade, afinal é a sempre a primeira vez que se mostra um determinado produto ao público", confessa Manuel.
As críticas, quando não são construtivas, passam-lhe ao lado. Acredita que em Portugal não há ninguém realmente qualificado para as fazer. Mas "lá fora é outra coisa, há verdadeiro interesse pela moda, logo é um assunto tão comentado e julgado como qualquer outro". A salvação da indústria nacional, diz, está na internacionalização. "A moda portuguesa não evolui desde há 10 anos para cá. A nossa indústria revela sintomas de decadência", diz em tom de protesto.
Por isso, a partir de amanhã voltam a arregaçar as mangas: há que preparar nova colecção para a semana de Prêt-a Porter de Paris, marcada para Julho. Mas o tempo escasseia: é que pelo meio ainda há a estreia da dupla no Portugal Fashion. "Resolvemos aceitar este desafio. É outra forma de nos mostramos ao mundo", confirma o designer.
Por enquanto as atenções estão centradas no desfile de hoje. Há 22 manequins - estrangeiras, "de traços invulgares e corpo esguio" - para preparar e cadeiras por distribuir (criteriosamente), afinal, a primeira fila da assistência é sempre a de mais impacto. com M.A.B.
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