Comissão de ética

Zeinal Bava. "Se voltasse atrás fazia exactamente a mesma coisa"

Publicado em 11 de Março de 2010   
Bava aproveitou presença na comissão parlamentar de Ética para lançar agenda da Portugal Telecom
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"Acha que houve um plano para que a Portugal Telecom não comprasse a TVI?" À pergunta do deputado do PS, ontem, na comissão parlamentar de Ética, o líder da PT, Zeinal Bava, optou por não responder. Mas deixou no ar que a resposta seria sim.

Foi um Zeinal mais interessado no negócio da PT "e não em caça às bruxas", e com um discurso virado para clientes, trabalhadores e accionistas, aquele que os deputados questionaram ontem. "Se voltasse atrás faria exactamente a mesma coisa", assegurou desde logo o CEO da PT sobre o imbróglio em que se transformou o caso TVI. Negou o envolvimento do governo na operação e assumiu que foi ele quem trouxe Rui Pedro Soares para as conversações com a Prisa, nas quais, sublinhou, Paulo Penedos "não esteve envolvido".

19 de Junho de 2009. Foi neste dia, segundo o CEO da PT, que a entrada da operadora portuguesa na Media Capital ganhou contornos sérios. Quem sabia? O próprio e Rui Pedro Soares. Porquê "logo um administrador com conotações ao PS?", questionaram os deputados. Resposta: "Era o que estava à mão. Não gosto de ter reuniões sozinho", respondeu Bava. Logo neste dia "foi esboçado um entendimento e definidos os traços gerais da operação". O jogo abriu-se a Henrique Granadeiro dois dias depois, a 21 de Junho. "O Henrique chamou a atenção que o enquadramento político era complicado. Não me preocupei. A política não é o que nos move e não devemos ter isso em conta quando fazemos negócios", explicou Bava.

"Uma fuga de informação resultou na notícia do jornal i no dia 23 de Junho e, com todos os eventos subsequentes, na quinta-feira decidimos [Bava e Granadeiro] não agendar" o tema para discussão com os restantes administradores da PT. "A mediatização chegou a tal ponto que achámos que não havia condições para avançar com o negócio", explicou Zeinal Bava. Aquando desta decisão, confidenciou mesmo, "o negócio estava muito adiantado e podia ter sido fechado muito depressa". Teria havido negócio, não fosse a notícia? "Muito provavelmente sim", assegurou. "A coisa certa a fazer, para a PT, era comprar".

Um outro ponto focado por Zeinal Bava foi o envolvimento da PT num plano de controlo da comunicação social: "Nunca tivemos qualquer intenção em relação a qualquer outro órgão de comunicação social [excepção feita à Media Capital]. E referiu que "a PT nunca discriminou qualquer órgão de comunicão ou televisão através da publicidade que faz".

Indemnizados Segundo Zeinal Bava, tanto Rui Pedro Soares como Fernando Soares Carneiro, os dois gestores que se demitiram da administração da PT, receberam compensações da empresa por terem abandonado os cargos. Questionado sobre valores, porém, o CEO da operadora optou por não os revelar. "Receberam compensações definidas pelas regras internas da empresa que estabelecem as mesmas. Os valores são definidos pelas comissões de Auditoria, de Avaliação e de Vencimentos", apontou aos deputados. Sobre Soares Carneiro, Bava ainda revelou - e agora a propósito da polémica dos investimentos do fundo de pensões da PT na Ongoing - que a "comissão de auditoria já analisou o tema e concluiu que não houve qualquer erro, só uma alteração de procedimentos face às práticas instituídas", apontou.

Sobre as demissões dos antigos administradores, o CEO da PT diz que aquelas foram "decisões voluntárias" de pessoas que "têm o direito de se defender. Estar na administração da PT retirava-lhes flexibilidade para se defenderem".

Moniz Durante as três horas que durou a sua audição, Zeinal Bava por enalteceu o negócio que seria a entrada da PT na TVI. José Eduardo Moniz, hoje na Ongoing, seria uma das principais razões para o sucesso do mesmo, diz Bava.

A PT e a TVI juntas "fariam mais e melhor e dariam mais ambição ao projecto de conteúdos do que apenas dez milhões de habitantes em Portugal", referiu, lembrando a forte presença da PT no Brasil e em Angola. A Moniz, assegura, não apresentou qualquer contrato. Mas reuniu-se com ele para apresentar o negócio e dizer que contava com a sua continuidade na Media Capital. "Queria aproveitar o know-how de José Eduardo Moniz para o Meo", salientou. "Não me preocupei sequer em agendar uma reunião com ele [Moniz] num beco escuro e às escondidas", lembrou o máximo responsável da PT. Neste ponto, Bava aproveitou e abriu a agenda da PT para criticar violentamente a Autoridade da Concorrência. "Manuel Sebastião [líder da Autoridade da Concorrência] devia vir a uma comissão qualquer", disse mesmo, garantindo que "não fosse o colete de forças que a PT enfrenta no acesso aos conteúdos", o Meo ultrapassaria a TV Cabo já em 2011.

Paupério Vs. Fernandes O CEO da Sonaecom, Ângelo Paupério, negou ontem as afirmações de José Manuel Fernandes na comissão de Ética, quando o ex-director do "Público" referiu que a OPA da Sonae sobre a PT estaria dependente da sua saída. O líder da Sonaecom diz que não. "Na minha actividade de gestor nenhum membro do governo ou de outra entidade colocou essa condição", afirmou na comissão de Ética. Sobre o desagrado de Sócrates com uma fotografia publicada naquele diário, Paupério desvalorizou: foi apenas "um desabafo".


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