São 10h30 da manhã. Bill Plympton, 64 anos, atende-nos o telefone do seu escritório em Nova Iorque, onde funciona a Plymptoons. Está acordado desde as 6h00 - como é seu hábito - e responde às nossas perguntas sem nunca largar o lápis e o papel. "Preciso de entregar vários desenhos para uma nova publicidade em que estou a trabalhar", justifica. É uma imagem que ilustra bem a vida deste realizador independente: foi considerado um génio do cinema de animação, teve hollywood a seus pés e recusou. Nomeado para os Óscares por duas vezes, Plympton chega na próxima semana a Portugal para ensinar como se vive desta arte sem depender de ninguém. O encontro é dia 16 de Março na Monstra, Festival de Cinema de Animação de Lisboa, que arranca hoje no São Jorge, em Lisboa.
Em Oregon, na costa Oeste dos EUA, chove praticamente todo o ano. Uma chatice para a maioria dos miúdos, que pouco mais terão a fazer do que passar horas a fio em frente à televisão. Mas nem todos se resignam à caixa mágica. "Tive de arranjar um entretenimento. E desenhar era a minha forma de brincar, sempre me estimulou muito a imaginação", conta. O caso de Bill Plympton não é excepção naquelas bandas: foi também ali - e graças ao clima, acrescente-se - que começaram nomes como Matt Groening ("The Simpsons"), Brad Bird ("Ratatui") ou Seth MacFarlane ("Family Guy").
Ao contrário destes, e embora seja visto como um artista de culto, Plympton não se pode considerar um realizador de massas. Apesar disso, os primeiros contactos com o desenho profissional foram com uma das empresas mais poderosas da indústria. "Cheguei a enviar esboços do Duffy e Mickey para a Disney, na esperança de arranjar trabalho. Foram muito amáveis, mas como ainda estava na escola secundária acharam que era muito novo para integrar a equipa. Foi a última vez que falámos."
Ilustrador e realizador Quando, aos 24 anos, decidiu mudar-se para Nova Iorque - de onde não voltou a sair -, Plympton dificilmente acreditava numa carreira independente e bem-sucedida. Começou por ser ilustrador para revistas como a "Playboy", "Vanity Fair", "Rolling Stone", sem nunca ter conseguido impôr-se: "Gostava de fazer ilustrações humorísticas, numa altura em que este tipo de trabalho não era muito popular. Os americanos preferiam coisas mais vanguardistas e muito experientais." Daí que a ideia de trabalhar à margem dos grandes estúdios tenha ganho ainda mais força. "Foi uma forma de evitar que me dissessem como devo fazer as coisas."
A ilustração acabou por ser a porta de entrada para o cinema de animação. Foi graças ao editor de uma revista de saúde com quem colaborou que surgiu a oportunidade de se estrear na tela. "Boomtown" (1985), o seu primeiro filme exibido - até então tinha apenas feitos projectos inacabados -, não lhe rendeu um único cêntimo. "Mas aprendi, muito", interrompe. "Foi a minha escola de cinema. Depois disso percebi que era possível fazer todo o trabalho por mim, sem depender de ninguém", recorda. O segredo? "Bem, o segredo vou revelá-lo na minha masterclass da Monstra. Mas posso avançar uma das condições essenciais para ser bem sucedido: adorar desenhar."
A resposta até pode soar óbvia, mas se pensarmos que cada uma das suas longas-metragens o obriga a fazer mais de 30 mil desenhos à mão, talvez aí se perceba o que significa a paixão pelo desenho. "Preciso de dois anos para cada um desses filmes", garante. Entre cada uma das produções, o realizador dedica-se a a fazer curtas-metragens, trabalhos para publicidade e videoclips, e desdobra-se em viagens pelo mundo inteiro para dar conferências sobre o cinema de animação. É um trabalho quase solitário, em termos criativos, embora conte com a ajuda de três funcionários da empresa que fundou, a Plymptoons.
Não a Hollywood Ao longo da sua carreira, Plympton realizou seis longas-metragens, quase 40 curtas e foi nomeado duas vezes para o Óscar de melhor curta de animação. A primeira, em 1987, com "Your Face", quase lhe mudou a vida. Chamavam-lhe "génio" e toda a gente queria trabalhar com ele. "Passei a ter um agente que promoveu vários de encontros em Hollywood", recorda. Pura perda de tempo: "Gosto muito de Hollywood e tenho pena de não ter estado na cerimónia deste ano. Mas quero sobretudo fazer os meus filmes." Para a semana aterra em Portugal pela terceira vez e promete revelar o segredo do seu sucesso. Será ele um realizador obstinado?
Veja aqui excertos de duas curtas de Bill Plympton: "25 Ways To Quit Smoking" e "How To Kiss"




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