Música

"A disciplina não é importante. Sou totalmente animalesco"

por Sofia Sá da Bandeira, Publicado em 11 de Março de 2010   
Bernardo Sassetti explica à actriz Sofia Sá da Bandeira como se inspirou para fazer o novo álbum, "Motion"
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Encontramo-nos na rua. Chove. Não pára de chover. Tomamos um café em casa. As frases fluem numa busca de caminhos sem fim. As mãos marcam as palavras, generosas, abertas. Falamos de "Motion", o seu novo disco, falamos de música, de imagem, de percursos, falamos de tempos, de tempo para ter tempo, e perdemo--nos no tempo. Lá fora, ainda a chuva. As chávenas já estão vazias. Pergunta-me se quero mais, se quero outro café, e eu digo que sim, claro. Apetece ficar.

Depois de "Nocturno", em trio, veio "Índigo", a piano solo, depois "Ascent" e "Unreal", feito com um grande grupo de percussão. Agora, com "Motion", voltas ao trio com o Carlos Barretto e o Alexandre Frazão. O que sentes ao voltar a tocar com o trio?

Sinto água e fusão. É como se tudo fosse água. Como se mergulhássemos em busca de caminhos. As estruturas deixam de ser quadradas. Comunicam, fluem, ganham suavidade.

Uma fusão do próprio trio?

Absolutamente. Tudo se transforma num elemento único. Quando sentimos que um dos músicos está no limiar de se perder, quando há um erro, procuramos transfigurá-lo. Encontramos outros caminhos. É uma sensação espantosa. Existe ligação e uma generosidade imensa. Um pouco como com os actores. Os que sabem estar e ser. Os que ajudam o outro em cena.

Nos últimos anos tens composto muito para cinema. Como se processa o trabalho de comunicação com os realizadores?

Nem sempre existiu uma compreensão ideal entre a música que concebi e a ideia do realizador. Os realizadores raramente falam de música. Dão carta-branca, mas a maior parte das vezes não a assumem e quando se chega ao fim, no momento da montagem do filme, a música começa a levar cortes que são fatais para a coerência da construção musical. E do filme, no meu entender.

Já sentiste que um realizador te pediu que compusesses música para tapar buracos?

Muitas vezes. Claro que era sempre uma coisa disfarçada, um bocado escondida, em que me apercebia de alguns problemas gravíssimos que se estavam a passar ao nível da montagem.

Já realizaste cerca de 16 projectos de música para cinema. Em quantos ficaste contente?

Provavelmente em dois ou três. Tive muitas vezes a sensação de que, se houvesse mais tempo, o realizador poderia vir a compreender o que eu quis dizer com determinada música. O problema é que não há tempo. E não se pode pôr música a martelo num filme.

É frustrante.

Cada filme representa meses de trabalho, em que, muitas vezes, chegava ao fim com a sensação de ter investido demasiado tempo para tão poucos frutos. Não estou a atribuir responsabilidades a ninguém. É um problema com o qual teria de lidar se quisesse continuar a compor para cinema, mas, para ser honesto, não estou para isso. Não tenho paciência. Sinto que por agora chega. Talvez um dia retome.

"Motion" vai ser a tua estreia como realizador, pois durante o concerto passam curtas- -metragens que foste imaginando enquanto escrevias a música. O que te atrai na realização?

A ligação da música com a imagem. A construção de imagens à volta da música e de música à volta das imagens. E das histórias. Gosto de histórias em aberto.

Compor para os teus filmes é muito diferente de compor para outros realizadores?

Completamente. Porque quando imagino uma cena posso concebê-la imediatamente com música. Normalmente, um realizador parte para um filme sem ter grande noção de como a música se poderá vir a encaixar. Eu parto com essa noção.

Este trabalho reflecte um olhar diferente?

Sim. É o princípio de uma outra forma de olhar. De olhar para os outros, para um certo tipo de rotina, e por outro lado para este estado eufórico em que se vive, para toda esta loucura de acontecimentos diários. "Motion" é uma representação da nossa vida em slow motion. Conta uma história que começa às 7 e 10 da manhã e que vai sendo um despertar, uma sucessão de situações sentidas ao longo de um dia que acaba de madrugada e no silêncio.

O silêncio é importante na música?

Permite renascer para novas ideias. O silêncio faz parte da música. Nunca se força. Se é forçado, transforma-se num artifício musical. E isso é fatal. Mata. Sim, pode mesmo matar.

E para ti é importante?

É tudo. É o maior luxo de todos.

Lidas mal com a ideia de música exclusivamente escrita. Qual a importância do improviso?

É máxima. Pelo momento. Pela procura de caminhos. Por não haver um objectivo final para um tema. Por não existir um fim. As minhas composições são inacabadas. São mais um mote para o desenvolvimento de uma ideia. Nunca se fecham na escrita. Vivem do momento da interpretação. Gosto de criar os textos no momento. Talvez por isso me fascine tanto o improviso no teatro. Gosto da entrega, da procura, da generosidade, do risco.

Em palco sentes a energia que vem do público?

Sempre. Percebes logo quando essa energia é viva ou morta. É claro que a energia também pode ser morta do lado de quem está no palco. Mas quando acontece, quando há vontade de fazer música de um lado e de a escutar do outro, o tempo passa e não se dá por ele. Senti essa energia no concerto a três pianos com o Pedro Burmester e o Mário Laginha. Senti-a, uma outra vez, no Lux Jazz sessions, apesar de estar com uma amigdalite, pronto para ser internado no hospital. Estávamos a tocar rodeados de pessoas por todos os lados. Era uma pequena ilha no meio do Lux. As pessoas estavam a meio metro de nós, as coisas misturavam-se, tinha-se a sensação de se partilhar tudo.

Qual é a pior pergunta que te podem fazer quando se referem à tua música?

Porquê o jazz?

Quando te ultrapassas: na composição ou na interpretação?

Na composição há sempre uma dose de raciocínio, de concepção. Passar para lá de mim próprio, só acontece na interpretação. No de-senvolvimento das ideias, muitas vezes. Nunca em composição.

Antes de um concerto sentes algum tipo de ansiedade?

Não sinto qualquer tipo de nervosismo ao entrar em palco. Em relação ao "Motion", sim, é um concerto especial para mim, por se tratar de música que sempre quis apresentar, por serem as primeiras imagens que realizei. Existe alguma inquietude, pela projecção das imagens. Se falham é preocupante. Tem sido um trabalho muito intenso, tanto a nível musical como a nível técnico.

E os dias seguintes são de inquietação, de vazio, de quietação?

São difíceis. É o que imagino ser uma depressão pós-parto. Surge um vazio monumental vindo dessa intensidade. Sobretudo quando o concerto corre bem.

E quando não corre tão bem?

É um estímulo para o seguinte. Um enorme estímulo. Porque as coisas não acabaram ali.

Compositores que te fazem sair de ti?

Olivier Messiaen. Bach. Dois compositores essencialmente ligados ao divino e a Deus. Apesar de não ser praticante, identifico-me imenso com a procura do divino na música. E Mozart, claro. Gosto de muitos outros compositores.

O virtuosismo na música não te interessa.

Não. Afasta-me da minha forma de sentir a música. Liszt, por exemplo, sendo considerado um dos maiores virtuosos de sempre, não me fascina. Reconheço o génio e o impacto das suas "maratonas pianísticas", mas não me dizem muito.

O que te fascina como ouvinte?

O prazer de procurar boas ideias e de as roubar. Hoje um artista é sempre um aspirador das ideias dos outros. Temos todos a sensação de que quase tudo já foi feito.

Não se pode falar de originalidade musical?

É difícil. Relativamente à música que se faz hoje, é ainda muito cedo. Talvez daqui a uns 30 anos.

Como vês a mediatização, programas como o "Ídolos", em que, de um momento para o outro, as pessoas se sentem grandes músicos, grandes

artistas?

E em que muitos dos concorrentes não fazem ideia do que é música. Não podem fazer. É claro que uma coisa é arte e outra é espectáculo e um programa como o "Ídolos" é espectáculo, mas mesmo assim é perigoso. Pode ter o lado bom dos encontros, de se trabalhar a música com os outros, mas a mediatização, a televisão utilizada desta forma, é perigosíssima. As pessoas estão loucas por um momento de fama, atingem um estrelato que não é real, nem merecido. Existe um universo de construção aparente. A carreira de muita gente com talento pode acabar ali. Nesse aspecto, a televisão tem mostrado muito pouco juízo em todo o mundo. É triste. Triste e assustador.

Na música erudita também existe a obsessão de se chegar ao topo, e quanto mais novo melhor. Em que medida a maturidade pode ser importante?

Basta ver como Mozart amadurece até chegar ao "Requiem". Perguntamo-nos como é possível conceber a extraordinária maturidade daquela missa. É de um co- nhecimento profundo de tudo o que é forma e estrutura, de tudo o que é música.

Escrever música é sempre feito longe do piano?

Sempre. Escrevi muitas bandas- -sonoras enquanto passeava pelas ruas. Imaginava os instrumentos, murmurava para dentro. Isso aconteceu com muitas das composições de " Motion".

A disciplina é importante?

Para mim, nada. Sou totalmente animalesco. Trabalho muito, mas sem disciplina. Penso muitas vezes numa frase que um amigo meu, um contrabaixista londrino, me disse: "Tens que fazer o que tens que fazer." É uma expressão tão vaga quanto precisa. Gosto de ideias que podem ter diferentes interpretações. Como na música que faço.

O que torna uma composição viva?

A interpretação. A música escrita é uma série de acontecimentos e ideias matemáticas ou geométricas que têm que ser naturalmente filtradas pela emoção. Só a partir daí nasce a música. Só se torna uma composição viva quando sentimos que estamos envolvidos por ela, atingidos por ela, quando percebemos que fazemos parte dela.

Já aconteceu teres ficado fascinado por uma composição musical e anos mais tarde não sentires nada?

Sim. Fiquei fascinado com a "Sinfonia Inacabada", de Schubert, que descobri em criança, em casa dos meus pais, num disco de vinil. Não parava de a ouvir. Era a primeira coisa que fazia quando acordava de manhã, antes de ir para a escola. Dez anos mais tarde lembro-me de achar a obra primária. Hoje acho-a absolutamente brilhante.

As infra-estruturas de apoio aos músicos em Portugal melhoraram alguma coisa nos últimos anos? Há alguma razão para se ser optimista?

Não, mudou pouco. Um abuso de novos teatros, mas poucas infra- -estruturas, que podiam bem servir para estimular os novos artistas. Ensaios, encontros, colóquios, etc. A Lx Factory pode ser um princípio interessante, pelo encontro de pessoas de várias áreas, pela troca de ideias, pela criatividade que tudo isso pode gerar.

A música portuguesa continua a não ser a mais privilegiada nas rádios nacionais. Continuamos a ser um país que, infantilmente, admira apenas o que vem de fora, ou o que deu provas lá fora?

Irremediavelmente.


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