Visto de fora

A invasão das superbactérias

por Nicholas Kristof, Publicado em 11 de Março de 2010   
Estão a surgir bactérias impossíveis de tratar e que matam. Os médicos receitam mais antibióticos do que deviam, mas os principais culpados são os antibióticos que comemos nos alimentos
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Até há três meses, Thomas Dukes era um executivo saudável e vigoroso. E eis que, num espaço de dias, em Dezembro, enquanto planeava umas compras de Natal, a bactéria E. coli invadiu-lhe o organismo e destruiu-o.

Este episódio deve lembrar-nos, agora que estamos a examinar o nosso sistema de saúde, de que precisamos de olhar para além das companhias de seguros. É essencial que a moderna indústria agro-alimentar seja refreada no uso desmedido e louco de antibióticos, a ponto de os tornar ineficazes para o homem.

Os medicamentos antibacterianos foram revolucionários quando apareceram nos EUA em 1936, eliminando praticamente doenças como a tuberculose e tornando as cirurgias e os partos muito mais seguros. Mas chegámos a uma situação em que há um número cada vez maior de superbactérias que sobrevivem aos antibióticos. Uma das mais conhecidas - MRSA, uma espécie de infecção estafilocóquica - mata por ano cerca de 18 mil americanos, um número superior ao dos que morrem com sida.

Thomas Dukes, 52 anos, apanhou um tipo de bactéria, uma E. coli produtora de ESBL. Embora seja possível ele ter tocado numa superfície contaminada, o mais provável é que tenha comido carne contaminada, diz Brad Spellberg, especialista de doenças infecto-contagiosas e autor de "Rising Plague", um livro sobre a resistência aos antibióticos.

Os vegetarianos são também vulneráveis à resistência antibiótica produzida em explorações de suínos. Os micróbios fazem um intercâmbio de genes, pelo que a resistência antibiótica surgida nos porcos pode passar para micróbios que infectam o homem em hospitais, vestiários e balneários, escolas e lares. A utilização rotineira de antibióticos nas explorações pecuárias é considerada uma das principais razões para o aparecimento das superbactérias. Mas tanto o Congresso como a administração Obama têm-se recusado a combater o vício em antibióticos do sector agrícola, ao que parece por causa do poder do lóbi agro-alimentar.

A E. coli produtora permaneceu no cólon de Dukes não provocando danos de maior. Mas depois ele teve uma inflamação que lhe perfurou o cólon e a bactéria fugiu. Dukes começou a ter dores de estômago e o médico, receitou-lhe Cipro, um antibiótico forte que já tinha funcionado contra a infecção. Dessa vez, a dor tornou-se mais forte. Na tarde seguinte, estava na mesa de operações para retirar 20 cm de cólon.

As análises atribuíram a infecção em parte à E. coli produtora de ESBL. Os médicos inseriram um tubo para administração intravenosa de um antibiótico, numa tentativa de lhe salvarem a vida.

Por muito assustadora que seja a E. coli, estão a aparecer superbactérias ainda mais potentes, como as acinetobacter. "Estamos a assistir a infecções causadas por acinetobacter e por bactérias especiais chamadas Klebsiella (KPC), resistentes a todos os antibióticos", afirma Spellberg. "São infecções impossíveis de tratar. É a primeira vez desde 1936, o ano em que as sulfamidas chegaram ao mercado nos EUA, que temos este problema."

A Sociedade de Doenças Infecciosas da América, uma organização de médicos e cientistas dos EUA, tem vindo a dar o alarme. A associação teme que possamos regressar a um mundo em que estaremos sem defesas contra doenças bacteriológicas.

Na opinião de muitos, são os próprios médicos que receitam antibióticos a mais, mas também que grande parte do problema reside nas explorações da indústria pecuária. São administradas pequenas doses de antibióticos a suínos, bovinos e aves, para os fazerem crescer mais depressa.

Um estudo realizado pela Union of Concerned Scientists constatou que, nos EUA, 70% dos antibióticos são utilizados em gado saudável e outros 14% para tratar gado doente. Só cerca de 16% são utilizados para tratar pessoas e animais de estimação.

Ao fim de várias semanas de tratamento antibiótico intravenoso, Thomas Dukes está a recuperar em casa. Tem de usar um saco de colostomia, mas espera que seja possível fazerem-lhe uma intervenção correctora e voltar a trabalhar no próximo mês. Seja como for, está ciente de que a E. coli produtora de ESBL continua instalada no seu intestino. "Desde que fique confinada ao meu cólon, dou-me por satisfeito", diz. "Mas se conseguir escapar-se outra vez, esperam-me mais sarilhos."

Martin Blaser, chefe do departamento de Medicina do Centro Médico Langone da Universidade de Nova Iorque e antigo presidente da Sociedade de Doenças Infecciosas da América, reconhece que a utilização de antibióticos na pecuária produz carne mais barata. Mas diz que o preço a pagar pode ser uma gigantesca destruição da saúde das pessoas.

"Podemos vir a ter pandemias francamente mortíferas", afirma. "Estamos a semear uma tempestade de grandes proporções."

Exclusivo i/The New York Times


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