Lisboa

Cortejos fúnebres com acesso condicionado em Alfama

por Sónia Cerdeira, Publicado em 10 de Março de 2010   
Emel "não vê como abrir excepções" para estes casos em áreas de trânsito condicionado
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"Vielas de Alfama/Ruas de Lisboa antiga/Não há fado que não diga/Coisas do vosso passado." O fado da cantora Mariza não fala na experiência recente do bairro. Incluindo o condicionamento de trânsito das vielas de Alfama, que já provocou casos caricatos. Este aconteceu em Fevereiro. Um cortejo fúnebre queria passar para a Igreja de São João da Praça, mas, devido ao condicionamento de trânsito naquela zona histórica, teve de esperar. "Não queriam deixar passar a carreta; só depois de mais de uma hora é que lá deixaram", conta José Augusto, da Leitaria São João da Praça, mesmo em frente à igreja.

O condicionamento ao trânsito nos bairros históricos - Bairro Alto, Alfama, Santa Catarina/Bica e Castelo - começou no Verão de 2003, conduzido pela Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa (EMEL). Mas foi no Verão passado que surgiu um folheto a anunciar o cartão recarregável "Viva Viagens Bairros Históricos", que só permite o acesso a visitantes mediante uma caução de 25 euros - transformados em tempo de parqueamento.

Contactada pelo i, a EMEL afirmou "não ter registo de qualquer funeral". Porém, ao ser questionada sobre a possibilidade de abrir excepções para os familiares dos mortos que queiram velar o corpo ou seguir em cortejo fúnebre, a empresa rejeita o argumento humano. "O acesso está condicionado e não vemos como fazer excepção para esses casos", disse ao i Diogo Homem, do marketing e comunicação da EMEL.

O presidente da Junta de Freguesia da Sé, Filipe de Almeida Pontes, afirmou ao i que já pôs paróquia e EMEL em contacto. "Há cinco meses que há uma casa mortuária nova nas traseiras da Igreja da Sé e antevi logo problemas. Falei com a EMEL para perceber o que se podia fazer nos casos dos cortejos fúnebres, se podiam pôr o pino para baixo nesse tempo, mas disseram-me que não era possível porque o sistema teria de ser desligado e isso afectaria todo o sistema."

Para entrar em Alfama, moradores e comerciantes têm de pagar 12 euros anuais à EMEL, enquanto os fornecedores que façam cargas e descargas têm de pagar um cartão de 25 euros - uma situação que motivou reuniões entre a EMEL e a Associação de Comerciantes no mês passado. Segundo informações da EMEL, as cargas e descargas deverão passar a ter direito ao mesmo estatuto que moradores e comerciantes. Porém, nem todos ficam abrangidos pelo acordo.

É o caso de Manuel Ferreira, 59 anos e morador em Alfama desde sempre. Para a filha o visitar aos fins-de-semana terá de comprar um cartão. "Prefiro descer a Avenida e ir ter com ela lá abaixo", diz. Anabela Teixeira, dona de uma pequena papelaria na zona de São João da Praça, tinha um acordo com a Emel: todos os anos enviava um fax para que autorizassem a entrada do carro - em nome do marido. Porém, este ano a resposta foi diferente: teria de passar a pagar os 25 euros do cartão de visitante porque, apesar de a loja estar em seu nome, o carro não está. Para Anabela isso nem é a maior dor de cabeça: "Desde que o trânsito está condicionado vendo metade dos jornais." A queixa é comum a todos os comerciantes, que até já improvisaram cartazes a dizer "A EMEL está a matar Alfama".


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