Comissão de Ética
Granadeiro diz que Sócrates não mentiu no parlamento
Publicado em 10 de Março de 2010
Moniz acusa governo de pressionar administradores da TVI para suspender Moura Guedes. "Houve um plano" para controlar os media, defendeu
Todos os deputados pediram clareza e transparência. Mas no fim sobraram mais dúvidas, suspeitas e acusações. O presidente da PT, Henrique Granadeiro, e o ex-director geral da TVI, José Eduardo Moniz, prestaram ontem no parlamento depoimentos de sentidos opostos na comissão de Ética, Sociedade e Cultura, quando questionados sobre a alegada intervenção do governo no negócio entre a PT e a TVI. "É obvio que o primeiro-ministro não podia deixar de saber", defendeu Moniz. "Não tive pressões do governo para comprar", assegurou Granadeiro.
O presidente da PT garantiu, de resto, que nunca falou com José Sócrates sobre a operação antes de o primeiro-ministro ter negado, no parlamento, estar a par das negociações com a TVI. "A única vez que falei com o primeiro-ministro sobre o negócio gorado de compra da TVI, foi no dia 25 de Junho, num jantar publicitado pela comunicação social", sublinhou, deixando assim implícita a convicção de que o primeiro-ministro não mentira, na véspera, aos deputados.
Além de lamentar o registo de toda esta polémica que envolveu a PT, Granadeiro criticou a "caça às bruxas" em que a operadora se viu envolvida. "A questão transformou-se num match point da relação da oposição com o primeiro-ministro: se a bola cai para um lado, o primeiro-ministro mente, se cai para outro, sou eu que minto", acusou, criticando o "pano de fundo moralista e justicialista" de todo este processo.
Apesar destas palavras, o próprio Granadeiro admitiu não ter ficado surpreendido pela interpretação política feita à tentativa de compra de uma participação na TVI. "Apesar do mérito do negócio do ponto de vista estratégico e financeiro, levantei logo reservas sobre a proposta", explicou. E recordou as palavras que endereçou a Zeinal Bava quando soube que o negócio poderia estar iminente: "Ninguém acreditaria, no contexto de eleições e no contexto de conflito que havia entre o primeiro-ministro e a TVI, que o negócio se fizesse e que não fosse um frete ao primeiro-ministro".
Numa audição marcada pela troca de argumentos entre os deputados e Henrique Granadeiro sobre as incongruências relativamente às datas das decisões do negócios, das conversas entre os administradores envolvidos na operação e das subsequentes conversas entre a operadora e o governo, o presidente da PT destacou, no entanto, que esta "é uma página negra da ingerência política numa empresa privada". "Não tive pressões do governo para comprar, mas houve pressões de todos os lados para não comprar", lamentou, recordando que a golden share do Estado na PT "não permitia" ao governo vetar o negócio.
Em sentido contrário, José Eduardo Moniz defendeu ontem que Sócrates não só estaria a par do negócio entre a PT e a TVI, como também teria, de facto, elaborado um "plano" para controlar os media. "Não estou por dentro dos contornos do negócio entre a Prisa, a Media Capital e a PT, mas toda a gente com bom senso percebe que estas coisas não se passam sem que o governo saiba e sem que haja vontade que o negócio se realize", afirmou Moniz. Uma ideia sustentada pela convicção de que o governo tem "influência sobre os accionistas da Media Capital". "O administrador Miguel Gil chegou a falar-me de pressões ao mais alto nível em Espanha. O próprio já achava excessivos as observações ao nosso trabalho", contou Moniz, associando essas pressões à suspensão do noticiário de Moura Guedes.
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