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Sem escola e sem casa, as crianças do Haiti vivem no limbo

por Simom Romero /The New York Times, Publicado em 10 de Março de 2010   
O terramoto no Haiti destruiu mais de três mil escolas. Milhares de crianças permanecem nas ruas sem ocupação
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Depois do sismo que vitimou cerca de 200 mil pessoas, começam os balanços no Haiti. Milhares de escolas da capital haitiana e arredores podem ficar fechadas durante meses ou nem sequer chegarem a reabrir, segundo dizem responsáveis educativos do país e da ONU. Isso deixará inúmeras crianças a vaguear, ociosas, nos campos de realojados ou a desempenharem trabalhos menores, lutando pela sobrevivência.

Já antes do tremor de terra de 12 de Janeiro, só cerca de metade das crianças haitianas em idade escolar ia à escola, um símbolo gritante da pobreza do país.

A UNICEF, cujas estimativas se baseiam em contactos com responsáveis governamentais, diz que mais de três mil edifícios escolares da zona do terramoto foram destruídos ou danificados. Morreram centenas de professores e milhares de alunos, e os responsáveis duvidam da segurança oferecida pelos restantes edifícios escolares, após as violentas replicas das últimas semanas. O objectivo dos responsáveis educativos - de reabrirem a maior parte das escolas até ao dia 1 de Abril - parece cada vez mais inatingível.

"Temos seis engenheiros do ministério da Educação a examinarem mais de dez mil escolas para ver se são seguras", afirma Charles Tardieu, antigo ministro da Educação que luta para que as escolas reabram em tendas de campanha. "Temos de nos capacitar de que muitas escolas nunca vão poder voltar a ser usadas e de que precisamos de outras maneiras de revitalizar o sistema", afirma.

Com poucas alternativas, milhares de crianças trabalham nas ruas de Port-au-Prince em vez de irem à escola. Isso da escola "era antes do terramoto", explica, Marckin Sainvalier, de 10 anos, que ajuda a avó a lavar roupa perto do mar de entulho em que a Rue Bonne-Foi, no bairro comercial do centro, se tornou. "Desde então aconteceu muita coisa", refere, explicando que a mãe o tinha deixado a cargo da avó nos dias caóticos que se seguiram ao tremor de terra. Noutra rua do centro comercial da cidade, Dieuvenson Semervil, de 12 anos, esgravata à procura de cadeados numa loja de ferragens que se tinha desmoronado. Antes do tremor de terra, disse Dieuvenson, sonhava tornar-se mecânico. Perto de onde ele remexe o entulho vê-se um corpo em decomposição.

Junto às ruínas do parcialmente destruído Lycée Alexandre Pétion, uma das escolas públicas da cidade, Samanta Louis, de 11 anos, varre o passeio, um trabalho que, conta, a ajuda a sustentar os nove irmãos e os pais, moradores no campo de tendas do Champs de Mars. Antigo aluno desse liceu, Jean Pierre Lestin, de 15 anos, retira tijolos de uma parede desmoronada para os vender. "Um dia gostava de ser engenheiro", afirma.

As crianças que vivem nos campos de realojados enfrentam dificuldades mais graves do que as que trabalham nas ruas. Os técnicos de saúde que aí trabalham falam de um número crescente de vítimas de violação, entre elas raparigas com apenas 12 anos. Alison Thompson, enfermeira australiana e realizadora de documentários, que trabalha como voluntária numa clínica de campanha nos terrenos do clube de Pétionville, conta que tratou de uma rapariga de 14 anos que foi violada pouco tempo depois do terramoto no campo.

"Toda a estrutura das vidas dessas crianças ficou de pernas para o ar e agora têm de se confrontar com predadores que vivem perto delas", diz Thompson.

O governo reconheceu a urgência de reabrir escolas para proporcionar algum enquadramento a todos quantos procuram retomar as suas vidas. Mas os seus esforços nesse sentido têm falhado. Os responsáveis declararam a reabertura, no início de Fevereiro, das escolas das zonas não afectadas pelo tremor de terra. Algumas crianças voltaram aos bancos da sala de aulas, mas muitas não o fizeram, dizem os peritos educativos.

Na capital, os símbolos do desmoronamento do sistema educativo estão por todo o lado. Ainda há gente a tentar recuperar metais, revolvendo os destroços do colégio Canapé-Vert onde morreram no dia do terramoto cerca de 300 alunos que estudavam para se tornarem professores.

Os grupos de ajuda internacional no terreno dizem que o Haiti difere dos outros países pobres recentemente atingidos por catástrofes naturais, como o Paquistão e o Bangladeche, porque o tremor de terra eviscerou o sistema educativo da capital de um país fortemente centralizado. Em Nova Orleães, nos EUA, mais de metade dos estabelecimentos do ensino público permaneceram fechados durante um ano depois do furacão Katrina de 2005, diz Marcelo Cabral, especialista educativo junto do Banco de Desenvolvimento Interamericano.

O sistema educativo do Haiti já era disfuncional antes do tremor de terra. Só cerca de 20% dos estabelecimentos de ensino eram públicos, sendo os restantes demasiado caros para os pobres. Mesmo nas escolas públicas, as famílias tinham de fazer sacrifícios para pagarem uniformes, livros e o restante material escolar. Enquanto outros países da América Latina e das Caraíbas gastam cerca de 5% do PIB em educação, o Haiti gastava apenas 2%, segundo o Banco de Desenvolvimento Interamericano.

"A qualidade do ensino foi sempre muito baixa e cerca de um terço dos professores tinha no máximo nove anos de escolaridade", disse Cabral numa entrevista dada localmente, após uma reunião com responsáveis haitianos cujo objectivo era o de delinear um plano para a reabertura das escolas. Cabral avançou ainda que o Banco de Desenvolvimento Interamericano calcula que o Haiti precise de dois mil milhões de dólares durante os próximos cinco anos para reconstruir a sua rede educativa.

As crianças são aproximadamente 45% da população do Haiti e estão a inundar os campos de refugiados. No final do mês passado, centenas de crianças trabalhavam nas latrinas de um campo montado no complexo do gabinete do primeiro-ministro. "Não tenho nada que fazer", disse Belle-Fleur Merline, de 11 anos, que vive no campo com o pai e dois irmãos.

Françoise, de 17 anos, conta placidamente que esperava ser enfermeira antes de o tremor de terra ter destruído a casa da família, forçando os habitantes a mudarem-se para um campo junto às ruínas do palácio presidencial. A mãe, vendedora ambulante, tinha usado as suas parcas poupanças para pagar as propinas de Françoise na escola Frères Monfort.

Agora, Françoise e uma dúzia dos seus familiares partilham uma barraca com uma única divisão. "Agora trabalho com a minha mãe todos os dias, para podermos comer", diz, apontando para os sacos de carvão que vendem em frente do seu tugúrio. Não tem ideia quando poderá voltar à escola.

Alguns responsáveis educativos e membros das redes de assistência não esperam que o governo actue e decidiram reabrir escolas em alguns campos. Alzire Rocourt, reitora de uma escola privada antes do tremor de terra, abriu uma escola no mês passado , nos terrenos do clube Pétionville, em tendas doadas pelo exército israelita. Ensina leitura, aritmética e geografia. Durante os intervalos, os alunos jogam voleibol no exterior, sobre a terra batida e cantam, com vigor, canções do folclore crioulo.

"Apran yonak lot" ("aprender em conjunto"), cantam as crianças, de olhar radiante. "Rinmen yonak lot", assim acaba a canção. "Significa 'Amar o próximo'", diz Rocourt.

Ela também sorri, até se lembrar do muito que ainda há por fazer. Das mais de 25 000 crianças que vivem no campo de Pétionville, só 260 frequentam a escola dela.

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The New York Times



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