Continente não vai em cantigas do Pingo Doce
Publicado em 10 de Março de 2010
Uma guerra de gigantes no negócio da distribuição. Num ano quase 250 milhões de euros gastos em publicidade
O Continente não quer ir nas cantigas do Pingo Doce. Depois da agressividade publicitária com que a cadeia de supermercados da Jerónimo Martins convidou as pessoas a "virem ao Pingo Doce", o Continente abriu 2010 com uma resposta pouco subtil.
Em alguns segundos de publicidade, uma consumidora defende a utilidade dos cartões de desconto - que o Pingo Doce tem criticado - e aconselha os espectadores a não irem em cantigas, quando a nova linha de comunicação do Pingo Doce é marcadamente musical.
Trata-se de mais um capítulo dos confrontos publicitários entre superfícies comerciais, herdeiro da guerra que envolveu Lidl e Continente em 2009. A hostilidade é consequência da evolução do mercado de distribuição, que esbateu as diferenças entre hipermercado, supermercado e discount: "As distinções acabaram. Agora todos disputam o mesmo terreno", explica ao i Luís Mergulhão, CEO da Omnicom Media Group. "Para o consumidor também não há separação clara entre as superfícies. O preço mais barato pode não estar num discount, nem a qualidade num hiper."
No caso da insígnia da Jerónimo Martins, a própria marca tem flutuado entre estratégias e públicos-alvo. "O percurso do Pingo Doce foi feito em ziguezague. Da grande qualidade passou para os grandes descontos e agora para uma oferta de qualidade competitiva", afirma Carlos Coelho, director da Ivity Brand Corp.
Apesar de os receios com a crise terem crescido entre os consumidores, a verdade é que os portugueses com emprego tiveram mais dinheiro nos bolsos em 2009 e as empresas de distribuição quiseram aproveitar o momento para aumentar a quota de mercado.
Pingo Doce e Continente souberam fazê-lo. Segundo a TNS Worldpanel, empresa que acompanha o consumo, no primeiro semestre de 2009 o hipermercado da Sonae tinha uma quota de mercado de 15,2%, enquanto o Pingo Doce estava nos 13,2%, valores que representam um aumento de 2% e de 3,5%, respectivamente, em relação ao período homólogo de 2008.
O crescimento das duas empresas foi acompanhado de um grande investimento em publicidade. Tanto o Pingo Doce como o Modelo/Continente estão no top 10 dos anunciantes de 2009. A preços de tabela, que sofrem por norma descontos, as insígnias da Sonae gastaram 164 milhões de euros em publicidade, constituindo-se como o segundo maior anunciante. Já o Pingo Doce investiu 80 milhões de euros, ocupando a oitava posição.
Parte deste esforço materializou-se no anúncio do Pingo Doce feito pela agência de publicidade brasileira Dura Propaganda, que estreou no final de 2009. A campanha foi recebida com uma chuva de críticas - chegou a ser criado no Facebook o grupo de "Gente que não grama o anúncio do Pingo Doce" -, mas em Janeiro era a publicidade mais recordada pelos portugueses.
Para Carlos Coelho, as guerras de publicidade não seduzem as pessoas. "O consumidor passa ao lado destas crispações e pode até gerar anticorpos", afirma. Luís Mergulhão tem posição diferente: "Este tipo de publicidade não é agressiva. Informa, é competitiva, directa e o consumidor até acha alguma piada."
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