Sporting
A ponte que separava Villas-Boas de Alvalade inflacionou
por Bruno Roseiro, Publicado em 10 de Março de 2010
É o desejado e o acordo seria fácil. Mas divulgação pública e interesse do FC Porto prometem novos capítulos
A ponte que separava André Villas-Boas e Alvalade estava desenhada e só custava 500 mil euros, o valor da cláusula de rescisão do actual técnico da Académica. Agora corre o risco de, à boa maneira portuguesa, inflacionar sob a forma de multa, caso a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) entenda que o clube devia ter prestado esclarecimentos sobre eventuais contactos com o ex-adjunto de José Mourinho. Mais: a construção sofreu um abalo depois de tudo ter sido tornado público. O clube mudou. Agora, o silêncio é a alma de um negócio chamado Sporting SAD (ou seja, o futebol do clube). E sem essa alma as formas do corpo perdem sentido. Qualquer que venha a ser o rosto do mesmo.
Vamos por partes. Villas-Boas é o treinador mais desejado por José Eduardo Bettencourt para 2010-11? Sim. O Sporting está disponível para pagar a cláusula de rescisão? Sim. Já existiram negociações entre ambas as partes? Sim. Estão avançadas? Bastante. Tudo como o i noticiou ainda em Fevereiro. Mas outros pontos incomodaram os responsáveis leoninos - os montantes avançados por alguns jornais (que não correspondem minimamente à verdade) e o timing das notícias, numa altura em que a equipa está concentrada em garantir o objectivo mínimo na Liga (quarto lugar) e o apuramento para a fase seguinte da Liga Europa. Para encobrir toda a agitação, foi tricotado um novo fato de silêncio colectivo - que chegou à divulgação pública da lista de convocados - para proteger Carlos Carvalhal de qualquer intempérie.
A posição do técnico é a maior preocupação actual da SAD verde-e-branca. Com o tempo, Carvalhal percebeu que as hipóteses de renovar contrato (que termina daqui a três meses) eram escassas, mas manteve-se fiel ao desejo de conseguir o maior número de resultados positivos no meio do turbilhão que ainda teve pelo meio a saída de Sá Pinto. Até quando Bettencourt, no dia do P. Ferreira-Sporting, para a Liga, fez rasgados elogios a Paulo Bento e deixou somente o chavão comum para Carvalhal - "depende dos resultados, que até agora não têm sido bons" -, o treinador não fez qualquer reparo. Mas não se conteve, junto de algumas pessoas próximas, quando ficou a saber, na semana que antecedeu a recepção ao Everton, que existiam contactos com outros técnicos. Por isso, e para dar estabilidade ao próprio plantel, foi decidido pelos responsáveis que não haveria conferência nem antes nem depois do jogo no Restelo. Hoje vai haver, mas apenas por ser uma prova europeia. E as perguntas sobre tudo o que não esteja relacionado com o encontro frente ao Atl. Madrid devem ficar sem resposta.
SPECIAL ONE O Sporting atravessa um período em ascensão, com três vitórias e 10-0 no saldo de golos marcados e sofridos ante Everton, FC Porto e Belenenses. Carvalhal ainda se vai queixando da falta de tempo para preparar convenientemente os jogos na vertente táctica, mas conseguiu dar uma vitalidade física há muito desaparecida. Nem assim os dirigentes que mandam no futebol leonino deixaram de perspectivar o futuro, conscientes de que, para evitar todos os erros da última época, a próxima temporada terá de começar já a ser (bem) preparada. E é aqui que entra André Villas-Boas.
Mais que os resultados alcançados na Académica, que têm sido globalmente positivos, o discípulo de Mourinho, que trabalhou com o Special One no FC Porto, no Chelsea e no Inter, é a aposta de Bettencourt por uma questão de perfil, algo diferente de Paulo Bento mas com traços idênticos para assumir um projecto a médio/longo prazo. O contrato será sempre de dois ou mais anos, recuperando a estabilidade no banco dos lisboetas (o antecessor de Carvalhal esteve nos seniores quatro anos). E se, em Novembro, foram feitos contactos exploratórios com inúmeros técnicos (alguns para se saber apenas o que pediam), agora não está a ser pensada qualquer solução alternativa: o pretendido é Villas-Boas e mais ninguém. Ponto. Tal como Soares Franco, em 2009, tinha pensado, caso fosse candidato à presidência e Paulo Bento quisesse sair. Assim, nomes como Domingos, Paulo Sousa ou Paulo Sérgio não foram sequer equacionados.
Para já, o Sporting resolveu um obstáculo: enquanto em Novembro a Académica podia pedir o que pretendesse para libertar o treinador - fixou-se num valor entre um e um milhão e meio de euros -, agora existe uma cláusula de rescisão: 500 mil euros, valor acessível aos leões. Em termos de ordenado, entre um valor acima do que recebe Carvalhal mas abaixo do que ganhava Bento (ainda assim, muito superior ao que ganha em Coimbra), também não haverá problema. As cláusulas por objectivos conquistados também não constituirão entrave. Quais são então os problemas? A capacidade de oferecer as condições financeiras para montar uma nova espinha-dorsal no plantel (que ainda não estão totalmente garantidas, embora caminhem para o sucesso); o alegado interesse do FC Porto no jovem técnico, confirmando-se que Jesualdo Ferreira chega mesmo ao final de um ciclo de quatro temporadas no Dragão; e a dimensão pública que o namoro conheceu nos últimos dias. Até agora, o único dado que todas as partes confirmam são... os desmentidos. E o ponto final nos comentários sobre o assunto. "Constata-se uma crescente tentativa de desestabilização", defendeu, no site do clube, a estrutura do futebol profissional do Sporting, que tem preferido manter-se em silêncio sem explicações oficiais para tal.
MERCADO Os leões terão mais uma semana e meia vital para as aspirações desportivas - além da eliminatória com o Atl. Madrid, que poderá dar acesso aos quartos-de-final da Liga Europa, há ainda a recepção ao V. Guimarães que, em caso de vitória, dará cinco pontos de avanço na defesa do quarto lugar -, mas, em paralelo, vão projectando a próxima temporada. Com ou sem Carvalhal, que, após os recentes três triunfos consecutivos, parece ter ganho algum capital junto dos associados (um estudo de opinião da Eurosondagem publicado ontem já dava 43% de adeptos leoninos interessados na continuidade do actual treinador).
A aposta no mercado nacional, que teve início com a contratação de João Pereira em Janeiro ao Sp. Braga, é para manter. E, por isso, a possível transferência de Diego Ângelo - jovem central brasileiro da Naval que estava referenciado pelos lisboetas -, para o Genoa (Itália) funcionou como alerta para os responsáveis do clube identificarem os possíveis alvos no Verão e conhecer de forma mais detalhada as respectivas situações. Neste ponto podem encontrar-se valores como João Ribeiro ou Sougou, da Académica, Lima, do Belenenses, ou Lazzaretti, emprestado pelo Atl. Paranaense ao V. Guimarães até ao final da época.
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