Livros
Aravind Adiga: O Tigre Branco volta a atacar
por Diana Garrido, Publicado em 10 de Março de 2010
Falámos com o escritor indiano, vencedor do Booker em 2008, que no final do ano passado publicou "Entre os Assassinatos"
"Sempre quis ser escritor, mas era difícil ganhar dinheiro enquanto aprendia a escrever. Por isso arranjei trabalho como jornalista de economia, durante uns anos. E qualquer trabalho que nos ensine economia e as bases políticas da sociedade, só pode ajudar na escrita."
Aravind Adiga é o autor de "O Tigre Branco", livro que venceu o Man Booker Prize em 2008 e de "Entre os Assassinatos", editado no final do ano passado. O prémio "foi uma surpresa na altura e ainda hoje continua a ser", já que "existem tantos escritores que o mereciam e nunca receberam".
Ambos retratam a sociedade indiana, dividida há milhares de anos pelo sistema de castas, "mais presente nas zonas rurais do que nos centros urbanos". São histórias de desigualdade, de falta de oportunidades, de preconceito e violência que Adiga descreve ao pormenor. Quem nasce numa casta baixa dificilmente ascende a uma posição de relevo social e raramente tem a oportunidade de sequer lutar por uma vida melhor. Em "O Tigre Branco", a história de um homem, filho de um condutor de riquexó, que sonha sair da casa de chá onde trabalha, para se tornar um homem rico e poderoso, a luta por uma vida melhor, é pautada por humilhações e violência. Balram, o Tigre Branco, e personagem principal, é confrontado com toda a espécie de obstáculos, acabando por tornar-se um assassino, quase por força das circunstâncias. Em "Entre os Assassinatos", Aravind Adiga volta a abordar a mesma questão, numa luta interminável por uma vida melhor, desta vez através de 12 pequenos contos, onde as personagens se vão cruzando. O local, uma aldeia chamada Kittur, "é um lugar inventado, baseado em aldeias reais do sul da Índia".
Perante tantas desigualdades, e apesar de Adiga garantir que "a Índia é um estado democrático e liberal", é também um país "que continua muito dividido por linhas de casta e religião", onde "existe um grande grupo maoísta revolucionário [Revolução Naxal], a actuar um pouco por todo o país."
Adiga nasceu em Chennai e cresceu em Mangalore, no sul da Índia, no seio de uma família de casta alta, tendo estudado entre Oxford, no Reino Unido e Nova Iorque. No entanto, a sua escrita reflecte o lado mais pobre e desfavorecido da sociedade indiana: "O maior desafio de qualquer escritor é escrever sobre alguém completamente diferente de si. Se se acreditar que isto não é possível, não vale a pena escrever. O meu trabalho como repórter na revista "Time", na Índia, ajudou-me a escrever as histórias, assim como as muitas pessoas que conheci contribuíram para os personagens fictícios que criei."
O despertar para a realidade indiana, principalmente da zona onde passou a adolescência, deu-se com o regresso à cidade natal, dez anos depois de ter saído. "Quando se cresce num sítio, pensa-se que se conhece esse local, mas a verdade é que apenas se conhece uma pequena parte dele. Ao regressar já adulto e como repórter, percebi que havia muito mais comunidades e realidades do que eu conhecia. A verdade é que mal conhecia Mangalore."
No último livro, existem personagens com sobrenomes portugueses, como Lobo ou D'Souza, já que "muitos sul indianos católicos têm nomes de origem portuguesa". "Os portugueses chegaram à Índia no século XV e a sua influência é muito profunda. Hoje, porém, já não temos qualquer ligação com Portugal."
Em 2011, Aravind Adiga editará um novo livro "Last Man in the Tower", uma história que tem como cenário Mumbai (onde vive o escritor) e que envolve uma luta entre uma imobiliária - "um dos assuntos mais dramáticos e preocupantes da Índia" - e um velho homem num edifício.
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Aravind Adiga: O Tigre Branco volta a atacar
Actividade em ionline