Teatro
Três cabeças e uma obsessão juntos no D. Maria
Publicado em 10 de Março de 2010
Marco Martins encena "Num dia igual aos outros": um drama psicológico com Gonçalo Waddington e Nuno Lopes . Estreia-se amanhã.
Chegará o momento da entrevista em que Marco Martins vai dizer: "Neste tipo de projectos só faz sentido pegar em pessoas de quem gosto, que vivem no meu universo e que admiro." A estima há-de repetir-se. "É preciso uma confiança muito grande para fazer uma peça que exige tanta entrega."
"Num dia igual aos outros", o drama psicológico para maiores de 16 que se estreia amanhã no Teatro D. Maria II, marca o reencontro de Marco Martins, Nuno Lopes e Gonçalo Waddington. É quase uma história de amor o que une o encenador e os dois actores: é a segunda vez - entre as três que Marco Martins trabalhou para teatro - que os três trabalham juntos. "É uma história de amor a três", brinca Gonçalo Waddington. E é também uma história de obsessão partilhada pelos universos da família, abandono e ausência. "Porque há sempre alguém ausente. Toda a gente tem um drama familiar mal resolvido", justifica o realizador premiado por "Alice".
A ideia de encenar a peça escrita pelo dramaturgo americano John Kolvenback não partiu de uma cabeça só - partiu de três cabeças, com a mesma obsessão. A atracção por dramas familiares nasce de outro gosto comum - o cinema americano dos anos 70. Traduziram em conjunto o texto, trabalharam ritmos, trocaram emails com o autor da peça.
Marco Martins, Nuno Lopes e Gonçalo Waddington são tão unha com carne nas suas preferências que até chegaram a pensar que os dois actores poderiam ir trocando de personagem durante a exibição da peça. A ideia seria anunciada no cartaz: hoje, Nuno Lopes é Jack e Gonçalo Waddington é Robert, amanhã Waddington é Jack e Lopes transforma-se em Robert. Teria sido assim, não fosse o acaso de Nuno Lopes ter partido o pé. "O Jack nunca poderia ser desempenhado por um coxo."
Entre os três, não são necessários convites, nem namoros ou salamaleques. A personagem interpretada por Nuno Lopes, em" Alice", já representava no ecrã um excerto do texto de Kolvenbach. "Fiquei imediatamente apaixonado. Falei com o Marco e disse-lhe: temos mesmo de fazer isto", conta o actor. Marco Martins estava fascinado desde o dia em que assistira à estreia da peça em Londres, em 2002. Não foi só o tema - de que gosta tanto -, nem as personagens, que o deslumbraram. Mas também o desafio que constituia "fazer uma peça em que o tempo da acção é o tempo real", em que o passado se revela no presente.
Oito anos depois, Nuno Lopes é Robert no D. Maria II: o irmão mais novo e emocional, que inventa ditados e passou 15 anos a educar-se sozinho, a falar para as paredes. Gonçalo Waddington é Jack, o irmão mais velho, que regressa distante e controlado, à procura da redenção. Quinze anos depois da separação, os dois irmãos reencontram-se para desvendar o passado negro e o desaparecimento misterioso do pai, num dia simplesmente igual aos outros. "Ele desapareceu, não deixou instruções", revela Jack."Eu inventei tudo, cada palavra era uma mentira." Entre a descoberta das culpas e da ausência de afectos há violência para maiores de 16 e uma luta de irmãos tão fidedigna que só poderia ser mesmo fruto de duas tardes de ensaios com um actor que faz trabalho de duplo: Sérgio Grilo. Suados, no final do ensaio, os actores brincam: "Se a peça sair de cena mais cedo, já sabemos porquê."
Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa (Sala Estúdio). De 11 de Março a 18 de Abril. Preço: 12€
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