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"Nunca vi. É incrível. É enorme." Como Papin se vergou na Luz

Publicado em 10 de Março de 2010   
Há 20 anos o melhor avançado da história do Marselha passava o tempo a gozar com Mozer. Arrependeu-se
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Papin jogou ao lado de Platini e Cantona na selecção francesa, foi o melhor jogador da Europa em 1991, terminou o campeonato francês cinco vezes como melhor marcador, jogou e perdeu uma final da Taça dos Campeões (Estrela Vermelha, 1991), foi eleito o melhor futebolista da história do Marselha, perdeu uma meia-final da Champions contra o Benfica, em 1990, mas não saiu do clube francês sem ganhar respeito ao velho Estádio da Luz. "Mozer, nunca vi uma coisa destas. Tudo isto é incrível. Tiveste sempre razão, o Benfica é enorme."

Nem parece conversa de francês, muito menos de um que pensava ter visto tudo e ainda andou pelo AC Milan (perdeu outra final da Taça dos Campeões, contra o seu Marselha), Bayern Munique e Bordéus. Mas foi o que o goleador disse, garante Carlos Mozer no livro "Pela Mística Dentro", do jornalista José Marinho. A história começa em França. Ao lado de Chris Waddle e Deschamps, Papin é uma das estrelas de um balneário onde chega Mozer, o internacional brasileiro oriundo do Benfica. "Vais ver o que é um estádio cheio e um ambiente terrível", diz-lhe o avançado, referindo-se ao Vélodrome, a mítica casa que na altura nem sequer tinha capacidade para os 60 mil espectadores de hoje. Mozer, claro, admirou-se. "Este cara precisa de jogar no Maracanã ou no Estádio da Luz cheios", pensou. Os clássicos que viveu no Brasil metiam gente sem parar (o recorde do Maraca é 173 850 pagantes) e em Portugal, início dos anos 90, a Luz era a Catedral das 120 mil pessoas.

Em 1990, no final da primeira época em França, Mozer é surpreendido pelo destino da Taça dos Campeões e percebe que vai reencontrar o Benfica na tal meia-final. Na primeira mão, no Vélodrome, os franceses ganham 2-1 (golos de Waddle e Papin; Lima). Chega o segundo jogo e Papin continua de língua afiada. "Você vai estar em condições de jogar contra o Benfica?", perguntou o goleador (134 golos só ali no clube encostado ao Mediterrâneo). Mozer diz que se sentiu beliscado no profissionalismo e respondeu em jeito de ameaça. "Quer mesmo ver o que é um estádio cheio, com 120 mil a gritar para o mesmo lado?"

Chegou finalmente a noite europeia na Luz. O estádio estava cheio mas Bernard Tapie não admite perder - disse que se isso acontecesse podiam chamar-lhe Bernardette. Mozer também não esqueceu essa sobranceria, assim como não lhe escapa o momento da entrada em campo e um último comentário de Papin, quando este sugere que o brasileiro é que tremia de medo. Contudo, os jogadores saíram do balneário mas nenhum subia ao relvado. "Vi os meus companheiros completamente assustados e todos do lado de dentro, não querendo entrar. Eusébio tinha sido chamado ao relvado para receber uma homenagem e foi aí que o estádio quase vinha abaixo. Voltaram atrás e perguntaram o que era aquilo. É o Inferno da Luz", disse.

Mozer acabou por ser o primeiro jogador do Marselha a entrar em campo. Mais tarde, de novo no balneário, voltou a encarar Papin e perguntou-lhe se já percebia o que estava em causa. "Nunca vi uma coisa destas..." Vata esticou o peito até à ponta da mão, o golo decisivo passou e 20 anos depois Papin ainda tem aquele jogo atravessado. "Desta vez espero que seja diferente", comentou, referindo-se aos oitavos-de-final da Liga Europa que amanhã começam entre Benfica e Marselha, na Luz - o novo estádio é mais pequeno e tem capacidade para 65 mil espectadores. Será que impressiona Papin?


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