Massacre na Nigéria pela posse de terras e gado
por Vanessa Pires, Publicado em 09 de Março de 2010
Imprensa internacional fala em mais de 500 mortos em conflitos étnico-religiosos. Embaixada garante que não são mais de 200
Em apenas um dia, a imprensa noticia mais quatro centenas de vítimas nos confrontos étnico- -religiosos na Nigéria. Apesar de ainda não haver números oficiais avançados pelas autoridades de Lagos, no Sudoeste do país, as agências no local falam em mais de 500 mortos. São sobretudo mulheres e crianças de três aldeias cristãs localizadas perto de Jos, capital do estado de Plateau, mortas à catanada por criadores de gado muçulmanos da etnia Hausa-Fulani.
Os jornalistas no local contam que os corpos das vítimas estão espalhados ao longo de quatro quilómetros de uma estrada perto das aldeias. "Pelas 3h00 de domingo, homens armados com pistolas, metralhadoras e machados invadiram casas e mataram quem apanharam pela frente, incendiando as casas de seguida. Os carros não escaparam ao fogo", relata a BBC. O pesadelo durou horas e terá sido uma resposta aos ataques ocorridos em Janeiro, na mesma região, que resultaram na morte de cerca de 300 pessoas.
Manuel Filipe Canaveira, docente do departamento de Estudos Políticos da Universidade Nova de Lisboa, explica ao i que a falta de segurança interna na Nigéria e o facto de o estado de Plateau, onde os ataques foram mais violentos, ter forças de segurança reduzidas criam uma espécie de cocktail-molotov na região. "Sendo a Nigéria um dos países mais ricos em recursos naturais, é natural que as disputas por terras férteis e pela posse de gado aconteçam, numa altura em que as alterações climáticas são responsáveis pela desertificação em várias zonas de África", explica o docente.
Números divergem Contactada pelo i, a Embaixada da Nigéria em Portugal aponta para 200 vítimas no conflito. "Não são tantos quanto se apontam nos relatos das agências", garante fonte diplomática, avançando que todas as vítimas são nigerianas. "Estes ataques não são uma novidade na região; têm vindo a acontecer há pelo menos cinco anos", adianta a mesma fonte. E nem o recolher obrigatório, entre as 18h00 e as 6h00, imposto pelo governo, evitou um novo massacre.
Zot foi a aldeia que mais sofreu com o conflito, registando dezenas de mortos e casas incendiadas. "Os tiros foram disparados apenas para atrair as pessoas para fora de casa, onde foram esquartejadas com catanas", descreveu um morador à Reuters.
O presidente interino, Good-luck Jonathan, já decretou o estado de alerta máximo na zona central do país e mobilizou as forças de segurança de Plateau e estados vizinhos. "Apesar de ser ainda muito cedo para saber quem é responsável pela violência, queremos dizer aos nigerianos que os serviços de segurança controlam a situação", afirmou o porta-voz do presidente interino em comunicado. "Conseguimos fazer 95 detenções, mas mais de 500 pessoas foram mortas nesse abominável acto", admitiu o conselheiro do governo estadual, Dan Manjang.
Dada a dimensão do massacre, o governo do Estado nigeriano de Plateau está a preparar um funeral colectivo para as centenas de vítimas do conflito.
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