Visto de Fora

A regionalização e o poder

por Francesco Alberoni, Publicado em 09 de Março de 2010   
A emergência de dirigentes carismáticos é sempre fruto de movimentos emocionais. As grandes mudanças nunca são fruto de decisões racionais
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Giuseppe De Rita defende que a regionalização favorece a emergência de dirigentes políticos locais em conflito com dirigentes nacionais. É verdade, mas é apenas um sinal de que o sistema político-estatal é rígido e está envelhecido. Assim, podemos contar com alterações consideráveis daqui a uns anos. Mas as grandes mudanças nunca surgem com acordos, reformas, ou decisões racionais; são provocadas por movimentos colectivos que amadurecem de maneira invisível e explodem inesperadamente. Apenas esses movimentos podem gerar novas formações políticas, apenas eles provocam a emergência de novos dirigentes carismáticos. A ciência política oficial torce o nariz a estas minhas afirmações, por ser elaborada por estudiosos demasiado racionais para reconhecer que a história é moldada por conturbações emotivas. Mas os factos não deixam margem para dúvida.

Vamos excluir o século passado, no qual as mudanças foram provocadas por movimentos como o nacionalismo, o comunismo, o fascismo, o nazismo, o maoismo, o gaulismo, o Solidarnosc, o islamismo, o komeinismo, etc. Vamos limitar-nos a Itália. Também aqui as últimas mudanças políticas de grande alcance foram impulsionadas por movimentos. O primeiro período dos movimentos, o chamado 68, passou-se entre 1968 e 1977. Dele nasceram o poderoso sindicato unitário, a Tríplice, o Manifesto, vários pequenos partidos para os quais a luta continua, os grupos terroristas Prima Linea e Brigadas Vermelhas e o grande crescimento do PCI, com a liderança carismática de Enrico Berlinguer. O segundo período, entre 1989 e 1994, marcou a afirmação da Liga do Norte, sob a liderança de Umberto Bossi, da operação Mãos Limpas liderada por Antonio Di Pietro e, por fim, do Forza Itália, com a liderança de Silvio Berlusconi.

Estes três movimentos geraram outros tantos partidos que ainda existem e são chefiados pelo mesmo dirigente carismático da altura. Desde então não surgiram outros movimentos e os novos partidos da cena política - tanto o PD como o PDL - nasceram de acordos.

Como estamos em campanha eleitoral em Itália, não quero dar exemplos nem nomes. Contudo, se falar como sociólogo em termos gerais, posso dizer que os novos movimentos surgem sempre onde menos se espera e levam sempre ao poder alguém em quem nunca ninguém pensou. O movimento gera mudanças exactamente por não seguir o modo de pensar e as regras válidas no momento. Assim, muitos daqueles que foram acumulando um determinado capital político com a certeza de o aplicar num futuro próximo podem ter grandes desilusões.

Sociólogo e escritor


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