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No futebol, quando as duplas deixam de falar é bom sinal

por FIlipe Duarte Santos, Publicado em 09 de Março de 2010   
Cardozo e Saviola decidem os jogos. E Jorge Jesus agradece: não precisa de meter a colher
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Quando Jordão marcou 31 golos em 29 jogos no campeonato de 1979/80, o avançado do Sporting recebeu a Bola de Prata e agradeceu a Manuel Fernandes: ofereceu-lhe a camisola. "Disse-me que eu merecia, que não o teria conseguido sem mim e sem as minhas assistências." Hoje essa camisola está no museu do Sporting mas não podia estar sozinha. Também ali Jordão e Manuel Fernandes jogam em dupla.

Diz-se que o futebol vive de sociedades, sejam de defesas-centrais, de laterais, de médios-centros, mas principalmente de avançados. Eusébio e Torres, João Pinto e Jardel, mais recentemente; Nené e Filipovic, Gomes e Madjer, para continuar a falar de clubes grandes; ou Nuno Gomes e Artur (Boavista) e Maciel e Derlei (União de Leiria), para lembrar os mais pequenos. Este fim-de-semana, a dupla do campeonato voltou a ser Cardozo e Saviola: os dois marcaram ao Paços de Ferreira e já somam 29 golos, fazem festa a cada 119 minutos e estão ao nível do que de melhor se faz nos grandes campeonatos europeus - Cristiano Ronaldo e Higuain, do Real Madrid agora regressado ao topo da Liga Espanhola, são os que apresentam melhor rendimento nos grandes campeonatos.

As duplas são como os casais. Conhecem-se e depois fingem que o outro não existe. Aqui o cinismo é prova de qualidade no amor. "Ao princípio eu diria que há uma fase de estudo. Foram assim os nossos primeiros dois ou três anos, depois eu e o Jordão começámos a jogar de olhos fechados e decidimos muita coisa, até independentemente dos treinadores." Manuel Fernandes esteve nove épocas ao lado de Jordão e a coisa tornou-se séria. Os dois valeram 442 golos no Sporting. Depois de Alvalade, em 1987/88 ainda foram juntos para o Vitória de Setúbal. "Quando um cruzava, o outro sabia onde caía a bola; quando um ia para um lado, o outro sabia qual era o espaço que lhe estava reservado. Além disso, o Jordão tornou-se a minha maior amizade no futebol. E olhe que fiz muitas!"

No início da época, quando chegou a Lisboa, Saviola tinha história de amizade e de golos marcados com Aimar. Os dois jogaram juntos no River Plate e partilharam dois campeonatos. Aos 16 anos, Saviola estreou-se a marcar e com 17 foi considerado o melhor jogador da América do Sul. Ajudado com as assistência de Aimar, fez 44 golos em 86 golos, ganhou estatuto de selecção e embalagem para um Mundial sub-20 no qual foi o melhor marcador. Depois transferiu-se para o Barcelona, de Van Gaal, fez uma primeira grande época mas a partir daí caiu de rendimento. Em Sevilha vingou-se com uma Taça UEFA, mais tarde transferiu-se para o Real Madrid, mas teria de chegar ao Benfica para fazer a melhor época desde que está na Europa. Ao lado de Cardozo.

CASO Será traição? Que lhe dá o paraguaio? Tacuara (cana alta) faz sombra, protege--o, abre espaços, faz o trabalho duro para o Coelho andar à solta. Os dois marcaram ao Paços de Ferreira e à 22.a jornada representam 18 + 11 golos numa equipa que marcou 59 vezes na Liga. Não podiam ser futebolistas mais diferentes mas a sociedade é a mais perfeita que aí anda. Lá está, Eusébio e Torres, João Pinto e Jardel... Lá fora, hoje em dia os exemplos fazem-se de Messi e Ibarhimovic ou Rooney e Berbatov. As duplas, em futebol, podem ser uma espécie de Laurel and Hardy da comédia. Segundo Manuel Fernandes, se calhar eram mesmo. "Eu e o Jordão éramos os líderes, sentíamos essa responsabilidade e às vezes lá tínhamos de ser nós a animar o balneário." O Benfica disparou para três pontos de vantagem sobre o Sporting de Braga e não há razão para dramas.


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