Sporting
"Café a 25 escudos se o Sporting ganhar a Liga Europa"
por Rui Pedro Silva, Publicado em 09 de Março de 2010
O famoso Restaurante Brasil em Coimbra continua vivo e a sofrer pelo Sporting. E ainda há promessas
Peguemos numa máquina do tempo ainda por inventar e recuemos dez anos. Estamos a 9 de Março de 2000. O medo do apocalipse já lá vai e em Portugal uma equipa começa a ameaçar a hegemonia do FC Porto, que parece ir a caminho do sexto título consecutivo. Essa equipa é o Sporting, que já não se sagra campeão desde 1982. Por todo o país, os sportinguistas começam a aparecer na esperança de festejar um título, muitos deles pela primeira vez. As histórias de grandes sportinguistas surgem na comunicação social e uma delas ganha mais força que todas as outras: a de um restaurante em Coimbra que não aumenta o preço do café desde o último campeonato.
Na altura, vivíamos ainda no reino do escudo e, se na maioria dos sítios o café se bebia a 100 escudos, o Restaurante Brasil vendia-o a 25. Porquê? Maria de Jesus da Silva, a proprietária do estabelecimento, repete ao i uma explicação que chegou a dar vezes e vezes sem conta no passado: "O Sporting já não era campeão há algum tempo e uns amigos benfiquistas do meu marido [Manuel de Jesus] provocaram-no para ele não aumentar o preço do café enquanto o Sporting não voltasse a ser campeão."
Maria de Jesus manteve a promessa inquebrável mesmo depois da morte do marido, num acidente de viação em 1995. Na sombra do café a 25 escudos, o café ganhou notoriedade e passou a ser um ponto de paragem obrigatório de muitos sportinguistas, apesar de o estabelecimento ser frequentado principalmente por benfiquistas. "Sempre foi um hábito. Gostam de cá vir e nem se importam que seja tudo verde à volta. Na altura, o pior nem era isso. Quando se começou a saber em todo o lado que o café era mais barato, começou a aparecer gente muito oportunista, que chegava a vir cá beber três cafés durante a manhã. Nunca me importei com o prejuízo que a promessa provocou, mas não foi com esse intuito que foi feita. Acabámos por arranjar a solução de adiar a abertura do estabelecimento para as dez horas."
A noite de 14 de Maio, quando o Sporting foi finalmente campeão, mantém-se como uma das melhores recordações de Maria de Jesus. A presença das várias televisões, o estabelecimento completamente cheio, o trânsito cortado e, acima de tudo, o título do Sporting contribuíram para que fosse uma noite inesquecível. Os festejos davam margem para tudo, inclusive para um cliente que decidiu pagar um café com uma nota de dez contos, desabafando: "Por todos os cafés, por todos os cafés." A subida do preço para os 100 escudos não tinha data marcada mas, perto da meia-noite, o presidente do Sporting da altura, José Roquette, cumpriu a promessa e passou por Coimbra para beber o último café ao preço antigo e o primeiro a 100 escudos: "O Sousa Cintra e o Santana Lopes também já tinham dito que vinham quando o clube fosse campeão, mas não estava nada à espera. Foi tudo uma surpresa."
PAREDES QUE CONTAM HISTÓRIAS Quem entra no estabelecimento é incapaz de não reparar no sportinguismo que se vive. Fotografias, cachecóis, recortes de jornal, um galo de Barcelos à Sporting, garrafas de vinho, o monopólio do Sporting, posters do ano em que a equipa foi campeã entre muitas outras coisas. E se Maria de Jesus tende a ser mais controlada e tímida quando lhe perguntam alguma coisa, transfigura-se completamente quando olha para as paredes e começa a contar as histórias que representam. É o exemplo perfeito de que as imagens valem mais do que mil palavras. "O galo de Barcelos foi oferecido por um casal com um filho de sete anos. Vieram cá duas vezes ao sábado, mas estávamos sempre fechados. Contaram-me que o filho só chorava porque queria conhecer o café. Aquele [aponta para a parede] leão veio com uns amigos bancários do José Roquette... Houve uma altura que recebíamos muitas ofertas, de todo o país. Aliás, até no Canadá e em França saíram reportagens sobre o café. Uns amigos da América até trouxeram uma fotografia que tinham tirado à televisão no momento em que estavam em directo aqui do restaurante.
As descrições continuam e duas histórias parecem ter uma importância especial. "Houve um senhor de Lisboa que me mandou 50 quilos de café depois do título. Não sei quem é e se alguma vez veio cá ao café, nunca se identificou. Já o meu fornecedor nunca me ofereceu nada", desabafa antes de continuar com a segunda história: "Aquela fotografia foi enviada por um café de Moura, no Alentejo. Em homenagem ao nosso restaurante, decidiram pôr o preço do café a 25 escudos durante um dia."
Ainda assim, o espaço onde estão a maioria das fotografias está entre o balcão e a cozinha. Mesmo no centro, na fotografia maior, Maria de Jesus está de pé entre Vítor Damas e Augusto Inácio. "Já estava tão doente e não parecia nada", diz comovida sobre Damas. "E o Inácio também esteve para vir cá. Telefonou a reservar mesa sem dizer o nome, mas o meu filho Zé percebeu que era ele. Infelizmente não chegou a aparecer porque havia muitos jornalistas cá à porta."
E é aqui que Maria de Jesus da Silva volta a desabafar. "Vou ser sincera. Houve uma altura que já não conseguia ver jornalistas à frente. Mas não é o caso agora", ri-se. A descrição das fotografias continua. "Deixe-me ver... estes dois rapazes fizeram uma festa enorme na noite do título. Comeram, beberam, saltaram, cantaram, festejaram. Só se esqueceram de uma coisa. Pagar! Ficaram a dever uns 40 contos. Ah, e estes são dois polícias de Lamego. A primeira vez que vieram cá foi depois daquela derrota com o Benfica [0-1 com o golo de Sabry que adiou a festa leonina por uma semana]. Um deles chora sempre que cá vem. Não sei o que lhe dá, mas começa sempre a chorar", conta antes de soltar mais um desabafo: "Arranjei muitas amizades com a promessa. Valeu a pena o prejuízo."
O PRESENTE E O FUTURO Agora a história é outra. A euforia de outros anos já lá vai e o Sporting vive afastado do título nacional desde 2002. O café está a 60 cêntimos e não há previsões de haver outra promessa igual. "No ano passado, naquela final com o Benfica, na Taça da Liga, ainda disse que baixava o preço outra vez durante uma semana, mas o meu filho quase me matava", ri-se.
A altura não está para andar a arranjar prejuízos, mas há algo que parece inalterável: o sportinguismo da família: os filhos, Zé e Patrícia, e os netos. O mais velho, o Mateus, faz três anos em Setembro, e ainda consegue ser demovido pelo genro, que é benfiquista. "Ao pai diz que é benfiquista, mas aqui no café é do Sporting. Pouco depois da revelação, o pequeno Mateus aparece no restaurante e o i decide pô-lo à prova: "És do Benfica ou do Sporting?" "Spótingue", diz, sem precisar de tempo para pensar na resposta, apontando depois para a camisola verde trazia, como se estivesse a pôr em causa a inteligência da pergunta, dando a entender que a resposta era óbvia.
"Ele é incrível", começa Maria de Jesus. "Quando vem do infantário só pensa na bola. Reconhece os jogadores e os treinadores todos nos jornais e vai folheando os jornais desportivos. Passa a vida a jogar futebol e tem bolas dos clubes todos." O resto da conversa continua ao som dos remates do Mateus, que entretanto tem uma bola do FC Porto e faz de uma porta a baliza. Pelo meio, uns gritos de golo e festejos a condizer, que, segundo a avó, exigem sempre um abraço.
A época do Sporting volta à baila, com Maria de Jesus a confessar que ainda não foi ver um jogo. "É difícil. Principalmente agora que há netos [além de Mateus, há um outro com 19 meses]. E tenho pena. Gostava do Paulo Bento, acho que o problema não era só dele. Enfim, vamos lá ver como é que vai correr", afirma, antes de ceder a uma nova promessa: "Olhe, ponho o café a 25 escudos durante uma semana se o Sporting ganhar a Liga Europa. E os senhores voltam cá quando isso acontecer." Está prometido.
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: "Café a 25 escudos se o Sporting ganhar a Liga Europa"
Actividade em ionline