O jogging tem os dias contados

por Hermínio Santos, Publicado em 08 de Março de 2010   
A realidade não será dócil se as medidas do PEC forem insuficientes para recuperar o país
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A imagem não podia ser mais apaziguadora: o primeiro-ministro José Sócrates a fazer jogging na marginal de Maputo. Imagens como esta podem repetir-se nos próximos tempos em Trípoli, Argel, Tunes, Nova Iorque e Brasília. Estas são as capitais dos países que o chefe do governo visitará até Maio. Num momento em que a turbulência - nacional, internacional e da natureza - é quase uma banalidade, Sócrates não pára de nos surpreender com a sua descontracção. É um político inabalável.

Mas os horizontes estão carregados e mais cedo ou mais tarde a realidade acabará por se sobrepor às convicções de Sócrates e do governo. A divulgação das medidas contidas no Programa de Estabilidade e Crescimento será um desses momentos, embora o governo se esforce por desdramatizar. Convém ir olhando para os sinais que nos chegam de uma União Europeia que se desdobra em declarações de apoio à Grécia mas depois não disfarça a sua irritação com os gregos, a começar por um dos países-membros mais poderosos: a Alemanha.

Dois políticos alemães de direita defenderam esta semana que a Grécia deveria pôr à venda as suas terras, edifícios históricos e obras de arte para reduzir o défice. Chegaram mesmo a sugerir que os gregos vendessem algumas das suas 3054 ilhas, que se tornariam, provavelmente, em coutadas alemãs. Esta é a mesma Alemanha que decidiu passar a monitorizar a actividade das agências de rating e se irrita com o excesso de britânicos na equipa de Lady Ashton, a alta representante da União Europeia para as relações externas. Haverá União que resista a tanta ânsia de protagonismo alemão?

Certamente que Sócrates e Teixeira dos Santos não pensam vender as Berlengas, a ilha do Pessegueiro ou os Jerónimos ou a Torre de Belém para resolver a questão do défice. Seria visto como uma receita extraordinária e os governos de Sócrates têm horror a essas estratégias... Mas a realidade não será dócil. Quando os portugueses se confrontarem com o aumento da carga fiscal e o governo vier a concluir que, afinal, só isso não chegará, não haverá imagem de jogging que valha.

Os portugueses e o seu primeiro-ministro serão, mais uma vez, postos à prova. Dos portugueses espera-se responsabilidade, lucidez e ideias que combinem arrojo, convicção, justiça, visão e orgulho. Ideias como aquelas que Jorge Marrão e José Maria Brandão de Brito defenderam esta semana. Explicam porque é que os salários devem aumentar mas associam a ideia a um novo caminho empresarial e sindical que acabe de vez com as dicotomias típicas de "nós" (trabalhadores) e "eles" (patrões). É a reinvenção do capitalismo, não do lucro e dos bónus absurdos mas o da justiça social.

A Sócrates pede-se firmeza em vez de obstinação. Realismo em vez de fábulas ou da contratação de agências de lóbi e de imagem, que podem adiar problemas mas não são casas milagreiras. Verdade em vez de propaganda. Solidariedade no lugar da arrogância. Justiça em vez de balbúrdia. É certo que as sagas do Freeport e das escutas - teias cada vez mais complexas onde se misturam interesses policiais, judiciais, económicos e políticos - são verdadeiras armas apontadas a São Bento. Mas o que as sondagens mostram é que os portugueses mantêm Sócrates no top, para o bem e para o mal. Mas não é com imagens de jogging que se manterá no pódio.


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