Chamada anónima leva polícia ao violador de Telheiras
Publicado em 08 de Março de 2010
ADN seria insuficiente. Judiciária apreendeu roupas e faca na casa do suspeito
As denúncias foram o grande trunfo da Polícia Judiciária (PJ) para localizar e apanhar o suspeito de violação mais procurado em Lisboa, detido preventivamente desde sábado. Os testemunhos das vítimas ajudaram a construir o retrato- -robô que desencadeou inúmeras chamadas anónimas. Uma delas, certeira, serviu para identificar o engenheiro de 30 anos que confessou ter violado dezenas de mulheres e que ficou conhecido como o violador de Telheiras.
A PJ tinha, à partida, tudo para chegar até ao suspeito - vestígios biológicos e uma impressão digital recolhidos nos locais do crime. E, mesmo assim, esteve de mãos atadas. Para identificar o perfil genético, os investigadores teriam de ter acesso a uma base de dados de ADN, que está a dar os primeiros passos em Portugal. E, para comparar as impressões digitais, o suspeito teria de ter cadastro criminal, o que também não acontece.
A alternativa foi, portanto, conduzir uma investigação criminal recorrendo aos meios tradicionais. Dezenas e dezenas de denúncias serviram como ponto de partida para a Judiciária cruzar os dados até conseguir dar o grande impulso à investigação. Mesmo após a detenção do suspeito, as informações anónimas continuaram a chegar à PJ - imagens, relatos e outras pistas que tanto vieram de Lisboa, como de Vila Franca de Xira e de Alhandra.
Alvos dispersos A informação recolhida permitiu traçar o seu perfil. O engenheiro indiciado por oito crimes de abuso sexual, que mora em Queluz (Sintra), na maioria das vezes usou o carro para se deslocar até aos locais onde atacou as raparigas, quase sempre às terças-feiras.
Uma vez no local, deixava o automóvel e passava a vigiar a vítima e a zona a pé. Fixava um alvo mas, por vezes, dispersava. Se, entretanto, surgisse uma outra rapariga que despertasse mais a sua atenção, desistia dos objectivos traçados anteriormente e passava a focar a sua vigilância no novo alvo.
Conter o seu impulso sexual foi algo que nunca conseguiu fazer, segundo confessou aos investigadores da PJ. Actuava rápido, nas escadas dos prédios, e grande parte das vezes não demorava mais de um minuto para consumar o acto. Quase nunca deixava as vítimas sem antes roubar alguns dos objectos pessoais como telemóveis ou aparelhos de música.
Faca nas mãos da PJ Ainda na sexta-feira, os investigadores fizeram uma busca à sua casa de Queluz. Apreenderam peças de roupa e uma faca de cozinha que o suspeito terá usado para intimidar as vítimas. Os objectos confiscados no seu apartamento, contudo, serão ainda sujeitos a perícias e só depois de serem conhecidos os resultados é que poderão ser usados como meios de prova.
Os vestígios biológicos e a impressão digital recolhidos nos locais dos crimes, que na fase inicial da investigação pouco ajudaram, serão valiosos durante o julgamento. As amostras analisadas pelo laboratório da Polícia Científica poderão ser finalmente comparadas com as do suspeito, permitindo fundamentar ainda mais as provas contra o suspeito, que actuava de cara destapada.
Telheiras, em Lisboa, Linda-a-Velha e Alfragide, em Oeiras, foram alguns dos locais, onde o suspeito atacou as vítimas. Apesar de estar indiciado apenas por oito casos de abuso sexual, o engenheiro, que trabalhava numa empresa de telecomunicações em Lisboa, confessou ter violado cerca de 40 mulheres.
A Polícia Judiciária espera agora que, com a sua detenção, surjam mais vítimas a denunciar outros casos. O número definitivo de mulheres - a maioria menores - que poderão ter sido violadas pelo suspeito é ainda desconhecido.
Com Paulo Jorge Neves
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