Girl Power. Um dia o palco vai abaixo
Publicado em 08 de Março de 2010
No dia da Mulher, cinco histórias de rock interpretado por elas
Quem disse que as mulheres não sabem tocar guitarra ou bateria tão bem como os homens? A pergunta inquietava Allinson Wolfe, autora de uma fanzine histórica que viria a mudar o paradigma do rock americano dos anos 90. Nasciam as Riot Grrrl, um movimento cujas bandas se inspiravam em nomes como Patti Smith ou Deborah Harry. Em Portugal, a corrente teve pouca expressão. Todavia, num universo musical tão reduzido - e povoado quase exclusivamente por homens -, há bons exemplos para deter o olhar (e os ouvidos). No dia da mulher, esqueça os protótipos da Britney Spears ou Mylus Cyrus: eis as verdadeiras mulheres do rock.
Xana Nunca fez concessões à indústria musical nem acredita em operações de marketing. "No palco sim, tudo é êxtase e energia. Existe comunicação e uma relação quase visceral, de responsabilidade partilhada. Mas a ideia de estrela corta a essa relação simbiótica." Talvez por isso, a vocalista dos Rádio Macau nunca tenha desejado uma carreira. "Só comecei a ter aulas de canto quando editámos 'O Elevador da Glória', em 1988." De Algueirão, onde cresceu, as memórias são de "uma maria rapaz" que não se identificava com as raparigas da sua idade: "Preferia um bom jogo de futebol às brincadeiras de princesas." Ao longo da sua carreira, Xana editou dez discos com os Rádio Macau e dois a solo. Actualmente está a terminar o doutoramento em filosofia, mas não descarta uma terceira aventura a solo.
Suspiria Franklyn Em Portugal, poucos conhecem o universo artístico de Suspiria Franklyn, uma das embaixadoras do movimento Riot em Portugal. Fundou as Everground, composta exclusivamente por mulheres, e atingiu um patamar ao alcance de poucos: depois de se mudar para Berlim, assinou contrato com uma editora americana e tornou-se música profissional. O disco de Les Baton Rouge foi produzido pelo mítico Tim Kerr, cujo trabalho na área do punk-rock é amplamente conhecido. Em palco, Suspiria veste a pele de uma artista punk, a lembrar os concertos electrizantes das Breeders ou L7. "Não sou eu, é outra pessoa qualquer. Entro noutro patamar emocional, e depois volto à terra."
Raquel Ralha Quem vê os Wraygunn ao vivo, dificilmente não repara no duo que faz as vozes de apoio a Paulo Furtado. Raquel Ralha era professora de inglês quando foi convidada para integrar os Belle Chase Hotel. Com o lançamento de "Fossanova" - e a extensa digressão que se seguiu - ficou num dilema: "Tive de optar e obviamente escolhi a música, que prometia muito mais aventura e satisfação pessoal." Estar em palco, descreve, "é um momento de catarse. Antes de entrar fico tensa q.b., mas é o momento 'leão na jaula' imprescindível para me sentir uma mulher-bala a ser disparada de um canhão." Momento inesquecível? "As invasões de palco e a minha primeira aventura no maravilhoso mundo do crowd-surf." Actualmente, Raquel prepara o novo disco dos Wraygunn: "Ainda não há data, mas quando estiver na calha..ui, saiam da frente."
Ana Leorne Começou a tocar guitarra aos 11 anos, fez parte e um coro de gospel, mas foi no rock que formou a sua primeira banda, os Ropes, com quem lançou um EP. Quando prepara um concerto, Ana Leorne não costuma pedir nada de especial à produção, "apenas um cabo de microfone comprido". The Clits, a banda a que dá voz, assim o exige: "Começou por ser uma performance de palco, preciso de muita liberdade de movimentos, gosto de andar pelo meio do público."
Joana Longobardi O piano foi o primeiro amor, mas no baixo é que conseguiu atingir um nível profissional: ao início com as Voddoo Dolls, uma banda de coimbra composta apenas por mulheres, e mais tarde com os Mão Morta, com quem toca há quase dez anos. "Sempre me interessei muito pela música. Apesar de ter começado pela clássica, foi com as Voddoo Dolls que senti verdadeiramente identidade com a coisa mais roqueira, havia muita garra e energia, era muito divertido", recorda. Nos Mão Morta, deixa-se levar pela montanha-russa emocional de Adolfo Luxúria Canibal. "Há momentos em que gosto de tocar coisas a abrir, mas depois sinto necessidade de voltar aos ambientes mais dark e lentos."
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