Entrevista
Rui Machete: "Mensagens de Passos Coelho e Aguiar-Branco não são claras"
por Maria João Avillez, Publicado em 06 de Março de 2010
É um senador da República. E além disso, homem de bom conselho. Avisado, ponderado, sereno. Tem uma historia no PSD e um passado que quase se confunde com o próprio partido. E honra lhe seja feita, o PSD continua hoje a contar com Rui Machete. Coisa rara. Foi vice-primeiro-ministro de Mário Soares no Bloco Central, liderou a comissão política do seu partido, presidiu aos seus destinos nos idos de 80. Nessa altura a política interpelava-o tanto que Machete estaria até "disponível para mais": continuar na liderança por exemplo. Mas veio Cavaco... de quem nunca gostou mas cuja candidatura aqui defendeu veementemente. E depois, na viagem que lhe propus pelo PSD em vésperas de Congresso e da enésima campanha para a sua liderança, Machete não abusou das considerações e não abundou em leituras. É presidente da Mesa do Congresso, não lhe compete exibir estados de alma. Prestes a fazer 70 anos, vai despedir-se em breve da Fundação Luso-Americana a que presidiu durante 20 anos. Mas não volta para casa: advogará como até aqui e continuará a dar aulas na Universidade Católica.
O PSD vive hoje o seu pior momento?
Não sei se é o pior, sei que vive um momento muito difícil.
De que tamanho é esse "difícil"?
Difícil desde logo porque a situação política nacional é muito complicada, o PSD tem de saber enfrentá-la e eu não sei se o sabe fazer. Mas a maior dificuldade reside na sua própria mudança, o partido mudou muito. Conheci o PSD liderado por um Francisco Sá Carneiro, que era o seu elemento marcante e depois havia os que o acompanharam e os que lutaram contra ele dentro do próprio partido. Seguiu-se uma época diferente que se caracterizou sobretudo pela liderança de Cavaco Silva.
E a diferença vinha de onde?
Quem tinha feito o partido, quem o tinha implantado, quem tinha lutado por ele, já não estava nos postos de comando: o PSD crescera, ganhara outra amplitude. Mas muito depressa começaram a aparecer as consequências da falta dessa gente, dessa ausência dos "da primeira hora". Uns afastaram-se, outros foram afastados.
Por Cavaco?
Penso que houve um conjunto amplo de pessoas que estiveram com Sá Carneiro, que tinham a "marca da casa", que pertenciam à casa e foram afastados por Cavaco, ou melhor, pelos cavaquistas, prefiro dizer assim, é mais rigoroso. Por outro lado, o partido alargou-se muito porque passou a ser um partido de poder. Com Sá Carneiro, não o era, passou a sê--lo depois, com Cavaco...
Não percebo se diz isso com sentido pejorativo.
Não, não, estou apenas a constatar e a descrever. Evidentemente algumas daquelas qualidades que tinham estado ao serviço do partido - sacrifício, vocação de servir, desinteresse - desapareceram para serem substituídas por características mais ligadas a interesses pessoais. Isso parece-me evidente.
O que fez baixar o grau da qualidade humana no PSD?
As pessoas que se tornaram politicamente activas no 25 Abril não eram, na grande maioria, especialmente do PSD ou do CDS. Era gente que vinha de uma posição crítica ou muito crítica em relação à situação anterior e que achava que naquele momento não se justificava estarem dedicadas exclusivamente à sua actividade profissional: era preciso pensar no país e lutar por ele. Como ocorreu sobretudo no clímax da luta política em que se empenharam completamente. Era o melhor que havia em Portugal e quase toda essa gente estava alistada politicamente: nos partidos, no Parlamento, nos governos, em vários palcos... Lembro-me por exemplo no Parlamento, na Assembleia Constituinte, na primeira legislatura, tínhamos três ou quatro macroeconomistas de primeira qualidade, constitucionalistas, penalistas, grande advogados. A partir daí as legislaturas caracterizaram-se sempre por uma descida contínua. O melhor foi a Assembleia Constituinte, a seguir foi a primeira legislatura, depois a segunda... Todos esses professores universitários, médicos, advogados, engenheiros, intelectuais foram-se afastando, voltaram às suas vidas e aos interesses mais ligados às respectivas profissões, seguindo-se sempre uma certa degradação da qualidade.
Está a dizer que depois desse êxodo só entrou gente de segunda no PSD?
Não. Foi havendo sempre algumas excepções. Mas a qualidade baixou, sem dúvida. Passou a haver um profissionalismo político que é importante, mas acho que o PSD não elevou a qualidade dos seus deputados nem da sua elite. Claro que há sempre excepções, recentemente tive o prazer de me aperceber que Paulo Mota Pinto, além das suas qualidades científicas, ganhou qualidades políticas e isso é bom. Infelizmente não chega haver sete, oito, dez, são precisos 200!
Para a semana há um congresso. Concordou com a sua convocação?
Não. Na altura, pareceu-me que os que o organizaram ou que tiveram a ideia da sua realização - concretamente o Pedro Santana Lopes - estavam mais preocupados com a vontade de desempenhar um papel de primeira e de voltar à ribalta política do que em discutir ideias... O que seria já de si difícil, num congresso preparado em tão pouco tempo e neste clima...
Mas pôs essas objecções a Santana Lopes?
Não. Não surgiu a oportunidade, ele não me disse que ia convocar um congresso. O que fiz foi respeitar os estatutos... contra ventos e marés. Mas hoje admito que essa minha percepção inicial mudou. Em primeiro lugar porque Santana Lopes até agora não procurou nenhuma espécie de protagonismo e depois porque, havendo três candidatos e um prazo de tempo relativamente apertado, a possibilidade de os ouvir aos três numa discussão pública concentrada num congresso pode afinal trazer vantagens. Reconheço que pode ser uma boa oportunidade.
Mas teria preferido outra ordem das coisas: eleições primeiro, por exemplo, e congresso depois?
[pausa] É que as directas não são uma boa escolha.... E hoje vai ser muito difícil voltar para trás... Na altura era um pouco uma moda, tínhamos tido as directas no PS...
E que eu me lembre apenas Morais Sarmento fez na altura ouvir uma voz dissonante...
... Mas o PS tinha directas, depois o Santana Lopes foi um dos seus grandes defensores, enfim... Teoricamente elas são um bom processo, na prática, não. Há uma imensa dificuldade de proceder a uma ponderação serena das questões porque muito depressa se passa a discutir as pessoas, ainda por cima num clima em que as emoções vêem à superfície da pele! As directas deixam marcas maiores no partido do que um congresso. Num congresso atinge-se um clímax mas depois as coisas cicatrizam mais rapidamente. Com menor dor e menos sequelas.
Pode fazer-me um Photomaton dos três candidatos?
Posso...sem lhe desvendar o meu voto, quem preside à mesa do congresso não pode tomar partido público. Bom, o Pedro Passos Coelho é um homem que vem da JSD, com experiência do partido e da vida política partidária em geral, o que tem importância. Mas lendo o seu livro ("Mudar") não vislumbrei mensagens claras nem muito marcantes. A análise que é feita, embora com inteligência, é demasiado abrangente para indicar uma orientação do que ele quer e defende. O Aguiar-Branco - que moralmente me parece alguém com padrões de exigência elevados e é um homem interessante, educado, e correcto - exibe uma mensagem que também nem é muito clara, nem impressiona. O nosso outro candidato, com uma sólida formação intelectual, tem uma marca diferente e embora eu não aprecie o populismo na política, reconheço que Rangel o manipula bem. Situa-se bastante mais à direita do que era hábito nas lideranças do PSD, não foi por acaso que passou pelo CDS. Possui uma clareza de raciocínio muito apreciável embora eu considere que não foi muito feliz na escolha do momento para entrar na corrida...
E a quarta candidatura? Defende-a, espera por ela, luta por ela?
A hipóteses do Marcelo?
Eu só falava da quarta candidatura, sem nome próprio...
Já é muito tarde, é difícil, não acredito. Voltando aos candidatos, há dois que terão de enfrentar o constrangimento - grande - de não estarem na Assembleia da República. Admitindo a hipótese de ganhar o Passos ou o Rangel, fica o Aguiar-Branco sozinho no Parlamento. É uma coisa difícil, as divisões vão manter-se, haverá uma certa petrificação das posições que tornará tudo mais complexo.
Já reparou que está a dizer que nada disto serve para nada?
Estou a evocar as dificuldades, que se tornarão aliás mais pesadas dada a ilusão de que haverá eleições depressa e que portanto o PSD tem grandes hipóteses de rapidamente assumir o poder.
Não acredita nisso?
Julgo que o Presidente da República fará o possível para as evitar. Representam um risco para o país e terão consequências gravíssimas na nossa credibilidade. Admito que a legislatura não atinja o seu termo mas novas eleições não serão uma questão imediata. E, quem sabe, a deterioração da imagem do primeiro-ministro pode conduzir a que o PS, dentro das suas fileiras, encontre uma solução...
Defende isso como o seu colega António Capucho?
Estou a fazer uma análise, não a dizer o que prefiro.
E que preferiria?
Que houvesse um claro entendimento entre - pelo menos - PS, PSD e CDS. Mais: defendo uma amplíssima coligação que abrangesse até os parceiros sociais dada a relevância do seu papel. Se a minha leitura da situação económica e financeira do país é correcta, ela exige um entendimento generalizado para evitar situações de revolução social que, podendo não ser trágicas, terão seguramente consequências desagradáveis. O estado do país é suficientemente grave para que em determinadas matérias e nalguns pontos se envolva até o PC ...
Só deixava de fora o BE?
É uma quantité négligeable e não me parece que tenham prise sobre a sociedade. E as ideias políticas que têm são totalmente inexequíveis!
Testemunhou a história do PSD, interveio nela ao liderar o partido em 1985, tem provas dadas na sociedade civil. Não pensou em si como candidato?
Não. Já não faz parte dos meus planos de vida, além de que hoje já não me conhecem suficientemente no partido...
E há aí nostalgia? Pena? Realismo?
Realismo, é um facto. Mas, sim, houve uma altura em que estive disponível, em meados dos anos 80, quando liderei a Comissão Política do PSD, quando fui vice-primeiro-ministro. Nesse tempo estava muito predisposto para a política, depois passou.
É ponto importante para si que a futura liderança do PSD se envolva no combate pela reeleição de Cavaco Silva e que faça disso uma bandeira?
No momento actual - e independentemente de considerações e até das relações pessoais entre uns e outros - essa decisão é essencial. Nesta fase do país é extremamente importante que Cavaco Silva seja reeleito, o papel do Presidente é muito importante. Costumo dizer que o Presidente pode ser um bloco central, mais alargado e unipessoal... Portanto o professor Cavaco Silva é claramente a minha escolha, independentemente dos nossos desentendimentos no passado. Sim, acho que o PSD deve manifestar, de uma maneira inequívoca essa vontade de reeleger o Presidente. E o melhor modo de o fazer será no decorrer de um destes congressos.
Voltando ao próximo congresso: que espera dele exactamente? Uma surpresa redentora? Marcelo diz que não vai, Santana Lopes é uma incógnita...
O que sei é que os candidatos vão ter oportunidade, com muito maior nitidez, de expor os seus programas, as linhas que os caracterizam e aquilo que os separa uns dos outros. E quem for mais hábil no uso da palavra, tirará vantagem, o que não significa exactamente que seja o melhor... Não sei se Marcelo Rebelo de Sousa vai ou não, eu gostava que fosse, era interessante ouvi-lo, estou aliás convencido que irá. Pedro Santana Lopes é uma pessoa com grandes capacidades histriónicas, fala bem, não excluo por isso um bom contributo seu. Não tentará candidatar-se, tentará porventura redimir-se. Sim, é uma expressão muito forte, digamos que poderá voltar a encontrar o caminho. Mas o líder ganhador poderá eventualmente ser tentado a fazer algumas depurações políticas.
Teme isso, está à espera disso?
O que digo é que os postos cimeiros terão de ser desocupados... faz parte da natureza das coisas.
Consegue definir o PSD?
Embora tenha tido na sua elite fundadora uma ideologia social-democrata, o PSD nunca teve uma ideologia teórica muito forte, foi sempre guiado, por intuições, emoções, por linhas que, mesmo que muitas vezes não formuladas de forma precisa, encontravam eco em largas manchas da população e do eleitorado. Diz--se que o PSD é um partido muito nacional nas virtudes e nos defeitos e eu concordo!
Uma espécie de Benfica?
Bem, eu podia dizer isso, sem ofensa das minhas opções clubistas, mas isso seria ofender os dirigentes do Sporting... E já basta de divisões hoje no país...
Vai sair da presidência da Fundação Luso-Americana para casa? No final do ano estará reformado em sua casa?
Não. Tenho duas actividades que tenciono manter. A advocacia, de que muito gosto e não apenas para ganhar a vida -- vivo do meu trabalho - mas sobretudo porque me dá um imenso prazer intelectual. E tenciono continuar a dar aulas, actividade que também muito aprecio.
Que retém da sua passagem pela Fundação Luso-Americana?
Quando para cá vim a fundação era o decreto-lei que a instituía... Depois foi muito galvanizador concretizar vários princípios e ideias, beneficiando além disso de capacidade financeira para o fazer. Foi muito interessante em termos da cultura portuguesa, da visibilidade de Portugal nos EUA, do apoio a várias iniciativas, da descoberta de outras, do descortinar das oportunidades... E depois ver isso tudo a concretizar-se.
Já tem sucessora, mas aposto que é demasiado cavalheiro para falar de Maria de Lurdes Rodrigues...
Escolha que coube exclusivamente ao primeiro-ministro...
Mas que parece um prémio.
Tenho dela uma boa impressão. É uma pessoa séria, frontal, corajosa. E no seu desempenho ministerial, defendeu algo extremamente importante, a avaliação dos professores. Porventura não terá sido feliz na forma como o fez. Sim, deve dar--se-lhe o benefício da dúvida.
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