António Sala: "Corto o bigode se o Benfica for campeão europeu"

por Diana Garrido, Publicado em 06 de Março de 2010   
António Sala deixou a rádio ao fim de quase cinco décadas. Aos 61 anos está longe de ficar parado e até já escreve musicais
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Chegou ao Teatro Tivoli ofegante e com cinco minutos de atraso. Depois de um pronto pedido de desculpas, confessou que ali, nos tempos em que o Tivoli ainda funcionava como cinema, assistiu 15 vezes ao filme "Música no Coração", na companhia da então namorada, a mesma mulher com quem está casado há 39 anos.

António Sala comportou-se como um verdadeiro cavalheiro e não houve porta nem passagem que não fosse dada, em primeiro lugar, à jornalista. Durante a meia hora de sessão fotográfica o radialista sentou-se, levantou-se, pôs as mãos nos bolsos, tirou as mãos dos bolsos, baixou a cabeça, olhou em frente, entrou e saiu de salas, abotoou o casaco, sorriu e aguentou estoicamente os disparos da máquina sem um queixume. Gosta de Mozart, Bach e Beatles. Não sabe dançar nem cozinhar, toca piano todos os dias e foi o único radialista em Portugal a fazer um programa em directo de um submarino, a 300 metros de profundidade. Sábado passado, e depois de 49 anos de profissão, António Sala conduziu o seu último programa de rádio. De lágrimas disfarçadas, garantiu ter virado a página.

Porquê a decisão de sair da rádio?

A Rádio Renascença está a reestruturar--se e deu a oportunidade, para quem quisesse, de negociar a saída. Eu fiz as minhas contas, não foram contas de dinheiro, mas de tempo, de pensar que estava na altura de pôr um ponto final e virar a página. As funções executivas que eu tinha ocupavam-me muito tempo e faziam de mim um funcionário permanente. Tinha dias que saía da rádio às 22h, 23h, meia-noite, e pensei que a este ritmo não iria ter tempo para fazer tudo o que desejo fazer. Por outro lado gosto de ser eu a decidir as minhas saídas das coisas, a pôr um ponto final em alta.

Mas sentiu que queriam que saísse?

Não, de maneira nenhuma. Penso até que foram apanhados de surpresa. Estariam à espera de muita gente, menos de mim. Mas entenderam e respeitaram. Convidaram-me para ficar a presidir o Clube Renascença e estou muito entusiasmado. Fico com um vínculo à casa - meramente afectivo, não recebo nada.

Nunca mais vamos ouvi-lo na rádio?

Como convidado, como entrevistado... Fazer rádio, no sentido de estar do lado de cá, a fazer rádio, não. Pus mesmo um ponto final.

Foi uma decisão difícil?

Muito. Muito emotiva. Ponderei muito. Foi uma decisão solitária e mais difícil do que esperava, confesso. Mas por outro lado não queria arrastar-me. Tenho sido interpelado na rua por muitas pessoas, todas com comentários muito bons. Houve uma senhora que me disse "vamos ter muitas saudades suas", e isto serviu--me de estímulo para a minha decisão. Prefiro que as pessoas achem que foi prematuro a que digam, como ouço em relação a pessoas que trabalham em vários meios, "ainda?". Prefiro sair numa altura em que as pessoas digam "já" a sair quando disserem "ainda".

Tinha 17 anos quando se estreou nos Emissores Associados de Lisboa. Soube imediatamente que era isso que queria fazer na vida?

Foi mágico, mas não era o que eu queria fazer. Eu queria era ser actor (risos). Comecei na rádio como actor de teatro radiofónico, nas radionovelas. Era uma forma de chegar ao esplendor do palco. Claro que nunca cheguei, porque não tenho talento nenhum. Era um péssimo actor, um canastrão, e percebi que não era por ali. Na altura, uma grande senhora da rádio, a Maria Leonor, ouviu uns testes meus e disse-me que eu tinha jeito para locutor. E decidi ir por aí, com o incentivo da minha mãe.

Esteve 39 anos na RR e 18 com o programa "Despertar", líder de audiências na década de 80 e 90. Como foram esses tempos?

Aquilo era uma loucura, mas se quer que lhe diga nem me apercebi disso. Estava muito no olho do furacão, muito no centro de tudo aquilo. Era mais novo e só comecei a ter noção na parte final. De repente olho para trás e assusto-me. Mas ainda bem, porque quando temos a noção das coisas inibimo-nos. Hoje lembro como estava mal preparado para algumas entrevistas que fiz. Recordo a displicência com que fazia as coisas, às vezes sem ter a noção de quem tinha à minha frente. Olho para trás e fico assustado, arrepiado, mas na altura não tinha essa noção. E ainda bem, porque se calhar não tinha feito nada. A idade dá-nos aquela máxima que é pior do que fazer mal, é não fazer. Fiz muita asneira, mas fiz coisas que resultaram, trilhei caminhos novos. Cheguei a fazer o "Despertar" a bordo de um submarino, a 300 metros de profundidade, com convidados e tudo. O Herman José, que na altura estava a começar, também estava lá.

Como era a sua relação com Olga Cardoso? Alguma vez se zangaram?

Nunca nos zangámos. Aquilo era fantástico, era como falar com o melhor amigo ao telefone. Ela no Porto, eu em Lisboa, e era um sincronismo que as pessoas achavam que estávamos lado a lado. Por vezes confundia-as. Dizia: "Vamos recuar até aos anos 40. Glenn Miller, grande orquestra. Olga, dança?" Depois a meio da música abria o microfone e dizia: "Olga não me pise, por amor de Deus." Era muito engraçado. E tínhamos um repórter muito bom, o Carneiro Gomes, que andava na rua e que foi fundamental para o êxito do programa.

Recebia muitas cartas?

Milhares. Ainda tenho umas cem cartas que guardei, daquelas que acho que foram mais marcantes. Respondia a todas. Um dia recebi um postal de uma rapariga, a Maria Vitória, de Santa Comba Dão. Ela tinha um problema grave de saúde, que lhe corroía os membros. Já não tinha braços nem pernas. E escreveu a pedir que os ouvintes do programa lhe enviassem postais das terras deles, porque se sentia muito só. Nessa semana recebeu uma média de 800 a mil postais por dia. Ainda hoje mantenho contacto com ela.

Que pensa da rádio de hoje?

Acho que está um bocado fria, está despida de emoções. Está musicalmente muito boa, mas hoje em dia as pessoas têm os mp3, não lhes falta nada... Acho que a rádio deve ser mais do que isso. Falta-lhe o lado afectivo, de entrevista de vida, o lado humano. A rádio só continua a ser diferente de um gira-discos porque, apesar de tudo, continua a ser muito útil na informação. Mas é só isso, já não surpreende. É previsível. Quer dizer... surpreendam-me, gaita!

E a música, continua a ter um papel importante na sua vida?

Toco piano todos os dias e tinha a mania que cantava [risos]. Agora só canto para mim. Piano continuo a tocar diariamente e a compor, numa perspectiva mais clássica até, mas são coisas mais pessoais. É do que mais gosto. A música é parte integrante da minha vida. Se não tocar todos os dias, falta-me qualquer coisa.

Tem alguns álbuns editados... Arrepende-se de algum?

Algumas coisas, quando ouço... penso "xiii, que horror, que primário". Mas, de uma forma geral, e para a época, porque as coisas que fazemos são o retrato dessa altura, algumas delas acho que estão bem feitas. Há outras que, sou franco, nem como teste... [risos]. Mas é assim mesmo.

Tinha 16 anos quando escreveu "Recordação de Amor", uma música que foi gravada por Cecília Cardoso.

Aquilo era um perfeito disparate. Uma pessoa escrevia sobre coisas que não sentia... Era para parecer mais velho. E eu lia livros, paixões... e então escrevi aquilo. Acho que nem um homem de 50 anos fracassado no amor e de coração despedaçado escrevia coisas daquele género. Era um ridículo lindíssimo. Mas lembro--me do primeiro verso que escrevi. Tinha 11 anos e chamava-se "Sereia". Estava apaixonado por uma professora minha que se chamava Lizete e que era lindíssima.

Para além da música, tem uma outra paixão: os EUA. Quantas vezes lá foi?

34 vezes. A primeira vez fui como jornalista, na comitiva que acompanhava o Presidente Costa Gomes. Era a primeira vez que um Presidente português ia discursar nas Nações Unidas. Tinha cabelo comprido, calças à boca de sino e um orgulhoso antiamericanismo primário, normal para um rapaz da minha idade. Quando lá cheguei percebi que aquilo era um retrato do mundo todo: do bem e do mal, da velhice e da juventude, da oportunidade e da falta dela, de todas as coisas, e isso apaixonou-me. E depois o país é muito bonito, tem grandes desertos, grandes planícies, grandes lagos, o Grand Canyon. E é um país de extremos.

Nas suas muitas viagens, anda sempre com a câmara ligada...

Sou um realizador frustrado. Sempre que parto numa viagem faço documentários dos lugares, componho música original para cada um deles e às vezes gasto mais dinheiro em estúdio, com a pós-produção do documentário, do que na viagem. Mas um dia destes, ainda não disse isto a ninguém, nem lá em casa, sou capaz de comprar uma boa câmara HD e ir por aí, pelo país, a filmar o tudo e o nada e ver o que dá.

Tem com o seu filho, que o acompanha sempre nas viagens, uma relação muito próxima. O António só conheceu o seu pai em adulto. Como foi esse reencontro?

Foi muito emotivo, muito forte, e fez- -me pensar no tempo perdido, no que poderíamos ter vivido e desfrutado um do outro, o que não aconteceu. Até o ter conhecido era revoltado, tinha alguma amargura, mas depois passou completamente. Olhei para ele e era eu, sem o bigode e mais velho. Ele tinha 50 e eu 20 e tal. Ainda consegui lidar com o meu pai durante 18 anos, antes de ele morrer, mas soube a pouco.

E perguntou porque é que ele se foi embora?

Nunca falávamos muito do passado. O máximo que o meu pai me disse foi "podia ter sido de outra maneira, mas a vida é assim, filho". Nunca mais do que isto. Mas ele tinha um orgulho extraordinário em mim, porque o meu pai, que era polícia, era também músico, sem saber música. Construiu um piano de origem, do princípio ao fim, sem ter formação nenhuma. Acabou por ver retratadas em mim as coisas que ele não conseguiu.

Há 12 anos venceu um tumor na cabeça. Como recebeu a notícia de que estava doente?

Não se recebe. Eu gosto de viver, percebe? Um tipo pensa que... como é que é? A primeira reacção é de grande sofrimento e derrota, mas logo a seguir, passadas duas, três horas, pensei: se isto é uma luta, vamos à luta. Podes ganhar, mas vais ter luta. E acho que isso faz toda a diferença. Sou voluntário no IPO, já era antes do tumor, na área da pediatria, e posso dizer que a força anímica tem muita influência. Não quer dizer que cure, mas ajuda a viver.

Ficou com mazelas físicas?

Perdi a audição do lado direito e é irreversível. Quando tenho jantares com pessoas que não conheço, em mesa redonda, aviso sempre o gajo da direita: "Quando quiser falar comigo, bata-me no braço" [risos]. É que não ouço mesmo nada. Foi difícil habituar-me, principalmente por causa da música, já não sei o que é estereofonia, e para mim, que gosto tanto de música e toco, foi violento. Fiquei também com uns problemas de desequilíbrio na escuridão. Nunca mais se fica o mesmo porque o cérebro não foi feito para ser mexido.

Sempre o conhecemos com bigode. Nunca pensou cortá-lo?

Tenho bigode desde os 24 ou 25 anos. A primeira vez que cortei o bigode, tinha uns 37, cheguei ao espelho e quase me assustei: "Quem é que está cá em casa?" Já faz parte integrante de mim. Entretanto, fiz uma promessa: só corto o bigode no dia em que o Benfica voltar a ser campeão europeu. Portanto corro o risco de morrer com o bigode. Mas disse campeão europeu, não disse nacional, senão cortava já este ano.

Por falar em Benfica... foi vice-presidente do clube entre 1997 e 2000. Como é que isso aconteceu?

É a minha doença benfiquista. É uma coisa irracional. Os clubes e as paixões não se escolhem, é o nosso lado mais irracional e espontâneo. A minha família é portista e sportinguista, e eu sou benfiquista. Também teve a ver com a época. O Benfica tinha o Eusébio, tinha sido campeão europeu duas vezes, ganhava tudo o que havia para ganhar.

Voltaria aos bastidores do futebol?

Não, não voltaria.

Porquê?

Desiludi-me, muito. Muito.

O que é que ainda quer fazer?

Tudo! Quero ter vida e saúde para fazer tudo o que quero. Venho de famílias muito humildes e tive uma infância muito complicada. Acho que tenho muito mais do que aquilo que alguma vez sonhei, profissionalmente, como homem, a nível de família e amigos. Acho que é quase pecaminoso pedir mais alguma coisa.


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