Viagens na minha terra

Destino: Stade de France com placagens e emigras

por Rui Miguel Tovar, Publicado em 06 de Março de 2010   
O i viu de tudo no França-Rep. Irlanda das Seis Nações: uma bola no poste e um francês vestido à Benfica a dizer ao filho "rien, rien, porra"
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Tenho um amigo norte-americano que quando joga futebol de sete com os amigos cá em Lisboa na Faculdade de Farmácia só se diverte verdadeiramente quando a bola ultrapassa a vedação e vai parar à movimentada Avenida das Forças Armadas, onde é sempre a descer até Entrecampos. É o único momento em que ele, desengonçado e sem preparação física, se ri com gosto, alto e bom som.

Nos EUA é assim. Se a bola sair do estádio, é o delírio da massa associativa. Admito que nunca entendi esse meu amigo, para quem o futebol é um desporto menor e uma bola perdida no meio da rua é motivo de interjeições como "oh, that's funny! Now what?" [isto é engraçado! E agora?], acompanhadas por uma pose altamente irresponsável, com os braços inertes, como se estivesse derrotado.

Nunca entendi esse desprezo pelo futebol, repito. Até ao dia em que fui ver o França-Rep. Irlanda das Seis Nações de râguebi. A determinada altura, há um pontapé de ressalto e a bola bate no poste. Não consegui. Foi mais forte que eu. Esbocei um sorriso. Fez-se luz. Quem diria, hein, num jogo de râguebi? E lá desculpei finalmente o meu amigo norte-americano. Quando estamos habituados a um tipo de mundo, tudo o que é diferente nos surpreende. E basta a coisa mais insignificante para a adrenalina ir a mil. Comigo foi a bola no poste. Como é que uma bola oval vai acertar nesse pau finíssimo, que quase não se vê das bancadas? É para rir. Ou talvez não, de acordo com o olhar reprovador dos restantes 86 jornalistas no Stade de France, o recinto desportivo com 80 mil pessoas que tanto recebe jogos de râguebi, como de futebol e até concertos de música e peças de teatro. O estádio está cheio para ver o França-Rep. Irlanda. Pode-se jogar com as mãos mas desta vez não está lá o Henry. Desculpem esta piada futebolística do playoff de qualificação para o Mundial-2010, mas é a jogar para trás que o râguebi avança.

Neste aspecto, e lá voltamos nós ao futebol, só o Barcelona de Guardiola é que se adaptava a este estilo caranguejo, que faz do râguebi um desporto sui generis. Mas há mais aspectos que o tornam espectacular. A começar pelos 30 homens em campo. Que tipos divertidos! E que bestas! A maneira como jogam, como todos se comportam de maneira ordeira, como respeitam as decisões do árbitro e como saem de campo a correr para o balneário, seja no intervalo ou no final do jogo. Aquela cultura entra-nos pelos olhos dentro e acostumamo-nos com uma facilidade impressionante. Às tantas uma placagem daquelas que nos faz estalar os ossos já não nos inquieta, um erro do árbitro não nos indigna e uma jogada com apenas uma troca de bola e sem avançar no terreno não nos deixa indiferentes. Rendo-me: há ritmo e emoção. E é tudo a alta velocidade, sem dramas nem protestos. São 30 calmeirões que passam 80 minutos num cai-levanta constante, a ser placados violentamente, a jogar para trás com o intuito de avançar. Como diria o outro, é muito à frente!

A páginas tantas o resultado é secundário. Estou fascinado com a cultura táctica, os arranques, as fintas, as melées, os empurrões e a gritaria do público quando alguém agarra na bola e começa a correr desenfreadamente pelo campo fora. Bastam dois metros de emoção para o ruído ser ensurdecedor, de uma intensidade tal que a estrutura metálica da bancada de imprensa abana. Quando o volume baixa consideravelmente, ouvem-se as duas bandas a tocar, cada qual atrás dos postes. E, às tantas, quando a França já ganha confortavelmente (ah, afinal sei o resultado: 33-10), uma das bandas dá o mote de tou-rada e o público reage ooooooolléééééééééééé. E mais uma vez. E outra vez. Nem à terceira, os adeptos irlandeses (mais de oito mil entre mulheres e crianças) reagem. São todos cavalheiros. Menos um luso- -francês com um casaco do Benfica a falar torto com o filho: "Rien, rien, porra!" Merece uma placagem, mas o jogo já acabou.


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