Visto de Fora

Desafio final da reforma financeira

por Paul Krugman, Publicado em 05 de Março de 2010   
Não aceitar uma má reforma e denunciar as pessoas responsáveis pelo facto é melhor que pactuar com uma reforma cosmética que só serve para mascarar a incapacidade de agir
Opções
a- / a+
Sofremos a segunda pior crise financeira que o mundo já conheceu e mal começámos a recuperar dela: nos EUA, 29 milhões de pessoas não conseguem arranjar emprego ou não encontram trabalho a tempo inteiro. Contudo, o impulso para fazer uma reforma séria da banca está perdido. A dúvida agora está em saber se teremos uma lei deslavada ou se não vamos ter lei nenhuma. E custa-me dizê-lo, mas a segunda opção começa a parecer-me preferível.

O problema reside - e não causa muita surpresa - no Senado e sobretudo, embora não inteiramente, nos republicanos. A Câmara dos Representantes já aprovou uma lei de reforma bastante forte, mais ou menos na linha proposta pela administração Obama, e o Senado poderia provavelmente voltar a fazer o mesmo se funcionasse segundo o princípio da maioria simples. Mas não funciona. E quando a isso se soma uma oposição republicana quase universal e a hesitação de alguns democratas, as perspectivas não são animadoras.

Muitos opositores da versão da reforma bancária proposta pela Câmara dos Representantes apresentam-se como defensores de uma posição de princípio. Os republicanos do Congresso, disponibilizando uma proposta alternativa, declaram que acabariam com os excessos da banca por meio da introdução da "disciplina do mercado" - ou seja, em essência, prometem não socorrer a banca no futuro. Mas isso é uma fantasia. Logo, para começar, é sabido que os governos, sempre que as coisas dão para o torto, acabam por socorrer as principais instituições financeiras. Em termos mais gerais, confiar na magia do mercado como forma de garantir a segurança dos bancos tem sido sempre uma receita para a desgraça. Até Adam Smith o sabia. Ele pode ter sido o pai da economia de mercado, mas defendeu sempre que a regulamentação do sector bancário era tão importante como a de códigos de incêndios nas edificações urbanas e apelou à proibição da concessão de empréstimos de alto risco e juros altos, a versão do subprime do século xviii. Essa lição foi confirmada e reconfirmada sucessivamente, do pânico de 1873 à actual situação islandesa.

Suspeito que até os republicanos, no seu íntimo, compreendem a necessidade de uma verdadeira reforma do sistema. No entanto, a estratégia que seguem, de se oporem a tudo o que a administração Obama propõe, aliada à atracção dos dólares do sector financeiro, tem anulado quaisquer outras considerações.

Dito isto, existe a possibilidade, ainda que ténue, de alguns republicanos serem persuadidos a assinar uma versão muito enfraquecida da reforma - em particular uma que elimina uma pedra basilar das propostas da administração Obama: a criação de um organismo forte e independente para protecção dos consumidores. Deverão os democratas aceitar uma reforma tão frouxa? Acho que não.

Há alturas em que mesmo uma reforma muito imperfeita é melhor que nada; a da saúde é disso um caso emblemático. Porém, no que toca à reforma financeira, tudo é diferente. Uma reforma imperfeita da saúde pode ser revista à luz da experiência. Já uma reforma financeira fraca não teria hipóteses de ser testada senão na próxima grande crise. Será melhor, pois, marcar uma posição e fazer incidir a luz dos projectores nos inimigos da reforma. E com certeza que devemos dar todo o realce à disputa sobre a criação de um organismo de protecção financeira do consumidor.

Não há dúvida de que os consumidores precisam de muito mais e melhor protecção. O falecido Edward Gramlich - funcionário da Reserva Federal que tentou, em vão, fazer que Alan Greenspan tomasse medidas contra os empréstimos predatórios - resumiu o assunto brilhantemente em 2007: "Por que razão são os empréstimos que envolvem maior risco propostos aos públicos menos sofisticados? A pergunta já encerra a resposta: os consumidores menos sofisticados são provavelmente levados ao engano de subscrever tais produtos."

Será importante essa protecção ser dada por um organismo independente? Só pode ser; se assim não fosse, os grupos de pressão não estariam a fazer uma campanha tão encarniçada contra a criação de tal organismo.

E não é difícil ver porquê. Há quem defenda que a tarefa de proteger os consumidores deve ser da responsabilidade da Reserva Federal ou - ao abrigo de um compromisso que nesta altura parece pouco provável - por uma unidade tutelada pelo Departamento do Tesouro. Não devemos esquecer, porém, que não há muito tempo Greenspan era presidente da Reserva Federal e John Snow secretário do Tesouro. Está tudo dito. A única maneira de os consumidores ficarem protegidos durante a vigência de futuras administrações anti-regulamentação - e não tenhamos ilusões de que, dado o poder do lóbi financeiro, as haverá -, é haver um organismo cuja única razão de existir seja policiar os abusos da banca.

Economista Nobel 2008

Exclusivo i/The New York Times


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close