Especialista BD
Charles Schulz: o resto é ruído
por Cristóvão Gomes, Publicado em 05 de Março de 2010
NO PRINCÍPIO era o ruído. Fosse nos feitos heróicos dos personagens fosse nas gargalhadas geradas por qualquer acontecimento improvável, era o barulho da acção que dominava a BD. Com os Peanuts apareceu o silêncio. Charles M. Schulz (1922-2000), pegou na sua vida e inspirou-se; um cão como o seu, um miúdo como ele, pais como os dele, amigos como os que tinha. Durante 50 anos reduziu o cenário aos traços imprescindíveis e escreveu sobre o quotidiano de um grupo de miúdos e as tensões entre eles. Acima de tudo, claro, estava Charlie Brown. Enquanto os outros promoviam os vencedores, Schulz apresentava um vencido. Mas havia também Snoopy, o cão dado a reflexões metafísicas sobre o sentido da vida e o destino do mundo. Que acabava sempre por adiar as suas conclusões quando se via confrontado com um prato de comida. Ou Lucy, que cedia com demasiada frequência à tentação do abuso de poder. Em cada tira havia um texto não escrito que remetia para uma reflexão mais profunda que a habitual na BD.
No fundo foi o desencanto que promoveu o encanto dos Peanuts. Foi esse desencanto que levou a obra a sítios antes vedados à BD. As crises neuróticas de Snoopy foram objecto de análise na universidade, Umberto Eco escreveu sobre eles no "New York Review of Books" e Robert L. Short dedicou dois livros à relação entre os Penauts e os Evangelhos. Em 1999, fragilizado pela doença, Schulz decidiu que o fim da tira aconteceria no dia 13 de Fevereiro de 2000. Morreu no dia anterior.
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