Cinema

Del'Ignnocenti: da charcutaria para o cinema de animação

Publicado em 03 de Março de 2010   
O italiano Lorenzo Del'Ignnocenti vive em Lisboa há sete anos e acaba de realizar a curta de animação "Desassossego". Fomos ver os cenários do filme, em exposição no Museu da Marioneta
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Ivan trabalha numa charcutaria. Leva uma vida rotineira, perfeitamente ajustada à sua personalidade metódica e organizada. Mas o desejo de fugir ao negócio familiar consome-lhe a paciência para os clientes. Quer mudar de vida e dedicar-se a uma paixão antiga: os móveis. Este é o ponto de partida de "Desassossego", a curta de animação produzida por Lorenzo Del'Ignnocenti. Inspirado no passado recente deste artista italiano (de 1997 a 2001 trabalhou numa loja semelhante em Florença) que vive em Portugal há seis anos, o filme estreia daqui a uma semana na Monstra, Festival de Animação de Lisboa. Antes disso, o i sugere uma viagem aos bastidores desta produção, cujos cenários estão expostos no Museu da Marioneta, em Lisboa.

Vida na doença A história quase que poderia considerar-se autobiográfica. "O próprio espaço é inspirado na loja italiana onde trabalhei, em Florença", diz o autor do filme. Tudo começou há seis anos, numa cama. "Estava cheio de dores nas costas, mal me mexia." Resolveu matar o tédio, agarrou num lápis e começou a desenhar. Em poucas horas nasciam as 11 personagens. Ele é que estava longe de imaginar que ganhariam vida, anos depois, num filme de animação.

Lorenzo veio para Lisboa em 2001, depois de se despedir da charcutaria. Na altura, a história de Ivan repousava numa das gavetas de casa, a ganhar pó ao lado de outros projectos. "Sempre gostei de tudo o que está relacionado com artes, seja escrever histórias seja fazer animação. Essa é a grande vantagem deste tipo de animação: fazes um bocadinho de escultura, pintura, desenho."

Imigrante Em Portugal, Lorenzo trabalhou em animação, fez publicidade, desenhou cenários para teatro e programas de televisão, foi aluno e professor de animação stop motion. Até que decidiu concorrer ao ICA para financiar "Desassossego". "Tive uma ajuda muito importante de uma argumentista, que tratou de adaptar a história para cinema, com excelentes ideias." A rodagem do filme acabou por ser a parte mais simples do processo. Não demorou muito mais de quatro meses, mas o trabalho de produção obrigou a equipa de 20 pessoas a dedicar quase dois anos ao projecto. "Uns a trabalhar na construção de cenários, outros nos adereços."

É um trabalho de paciência, detalhe e grande minúcia. Na exposição, se por momentos nos abstrairmos da escala, os objectos facilmente ganham dimensão real. Só não acontece com os bonecos. "Foi uma decisão, tudo o resto foi uma reprodução de objectos reais", explica Lorenzo. É o caso da loja onde o protagonista, Ivan, trabalha: na montra há presuntos em miniatura, refeições prontas servidas em travessas com um centímetro, garrafas de vinho, azeite ou cervejas. É tudo feito à mão. "Até as azeitonas", garante Lorenzo. "A rapariga que as fez chegou ao fim do dia cheia de bolhas nos dedos." Das centenas de objectos reproduzidos, apenas a lambreta de Ivan, enviada de Itália pelo pai de Lorenzo, foi comprada. "Fizemos-lhe um banco de pele", brinca.

Além dos esboços com manuscritos do autor, na exposição percebe-se como é feito um filme de animação. Neste caso são 20 minutos de filme, criados a partir de milhares de fotografias. Daí o animador trabalhar sozinho: basta que alguém dê um empurrão ao cenário para ter de se filmar tudo de novo."


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