Saldos online: na moda sem sair do sofá

Publicado em 03 de Março de 2010   
Novo ou em 2ª mão? Na internet o comércio de roupa é negócio certo: quem vende enche os bolsos, quem compra não os esvazia
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António Aguilar é o típico jogador de râguebi: mede 1,96m, calça o 46 e raramente consegue encontrar roupa à sua medida nas lojas convencionais. Há 10 anos, quando foi jogar para França, conheceu um neozelandês com o mesmo problema. A solução? Comprar no eBay, o conhecido site de leilões com lojas virtuais espalhadas pelo mundo inteiro.

Recuemos no tempo. Quem não se lembra dos serões passados em família a tirar medidas para encomendar roupa na "La Redoute"? Hoje, a revista francesa adaptou-se à era digital. Mas a concorrência também cresceu, sobretudo desde o aparecimento do eBay. As vantagens de comprar online são óbvias: lojas abertas 24 horas por dia, variedade de modelos e cores e, na maior parte dos casos, a preços mais baixos.

Casos como o de António são, por isso, cada vez mais frequentes em Portugal. Um crescimento que se explica, em parte, pela generalização de sites como eBay ou Amazon e pelo reforço da segurança nas transacções. Mas para o jogador de râguebi as razões são outras: "Quando entrava numa loja portuguesa, acabava sempre a discutir com o gerente. Em Portugal ainda existe a ideia de que as pessoas são baixas, por isso as encomendas de tamanho XL são mínimas."

O problema resolveu-se quando António passou a investir no comércio digital. Hoje, as lojas tradicionais servem-lhe apenas para tirar medidas: "Às vezes vou experimentar roupa ou calçado só para saber se me serve. Depois mando vir pelo eBay". Por mês, gasta uma média de 150€ em compras no gigante americano. E investe principalmente em roupas de marca: "Dolce Gabana, Hugo Boss a preços bastante abaixo do mercado. Normalmente a metade", garante.

Vestido de noiva

Ténis, botas, vestidos, mas também relógios, produtos de cosmética e decoração. Todas as semanas, Marisa Costa, 30 anos, recebe uma encomenda vinda de um qualquer país europeu. É assim desde 2007, altura em que descobriu as vantagens de comprar no eBay. Para reduzir as taxas, esta professora de artes encomenda exclusivamente produtos da União Europeia. "Já tive uma experiência negativa: um relógio da Nike, €80 mais barato, que foi aberto na alfândega". Resultado: ficou ao preço da loja. "Serviu para aprender."

Uma das formas utilizadas pelos vendedores para contornar as taxas é escrever "gift" no embrulho, evitando que o produto não seja aberto. A técnica já resultou com Maria Antónia Carreira, que descobriu no eBay aquilo que não encontrava em mais lado nenhum. Nos Açores, onde vivia, "a oferta sempre foi limitada". Embora seja uma "adepta dos produtos nacionais", esta escriturária de 49 anos não teve outra solução senão passar comprar roupa no site de leilões. "Compro muitos vestidos de cerimónia, é um produto com grande oferta no eBay." Não poder experimentar também não é um problema. "Basta tirar bem as medidas e ver as fotografias com atenção."

Maria Antónia tornou-se uma "compradora compulsiva" do mercado electrónico: hoje vive em Lisboa mas é raro o dia em que entra numa loja. "Compro quase tudo online; roupas, sapatos, malas, adereços, tudo." O contacto diário com o comércio digital permitiu-lhe, por outro lado, dedicar-se a um novo negócio: compra e venda de vestidos de noiva. "Nas lojas pode chegar aos mil ou 1200 euros. No eBay, o mesmo vestido custa 200 ou 300 euros". A diferença é tal que mesmo com as taxas aplicadas na alfândega compensa. "Só se paga a partir dos €25. Quando são embalagens pequenas, a guarda nem os abre", garante. "Um vestido de noiva, por exemplo, vem num envelope A4, em vácuo. A primeira vez que vi nem acreditei."

Fazer negócio no blogue

Antes de entrar numa loja para comprar um artigo, Susana Pires, 26 anos, procura-o sempre na internet. Sobretudo vestuário de bebé: "80 por cento da roupa do meu filho é comprada online. E costumo arranjar a preços mais baratos." Além de comprar, Susana vende num blogue todo o tipo de vestuário infantil. "Torna-se um ciclo: a roupa de criança rapidamente deixa de servir e muitas mamãs acabam por fotografar e vender as peças em blogues."

Não é bem o caso de Sandra Campos, publicitária, que começou por vender roupa na net no dia em que quis ganhar espaço no guarda-vestidos. "Só coisas novas ou muito bem estimadas". Transmitir confiança é essencial para quem vende artigos tão pessoais no mercado global. Apesar de tudo, vender online é uma tarefa dura, de acompanhamento diário. Sandra até teve sorte de principiante: "A primeira vez que coloquei um artigo à venda ganhei logo €100." Mas nem tudo é negócio: na semana passada decidiu inaugurar, no blogue, a colecção de Primavera. Todas as peças que sobraram foram oferecidas às vítimas da Madeira. "Fui aos correios e enchi 13 caixas com roupa."



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