Primeiro Plano
Ainda os nacionalismos
por Jaime Nogueira Pinto, Publicado em 02 de Março de 2010
A ideia de que há um nacionalismo bom e outro mau - liberal e de esquerda ou conservador e de direita - é de um maniqueísmo pouco esclarecedor
A questão da nação e do nacionalismo, em Portugal como na Europa continental, sofre com preconceitos e temores ancestrais. Na Europa é o espectro do hitlerismo e do seu nacionalismo do sangue e da terra. Em Portugal, como Salazar foi nacionalista, só a palavra já causa um trejeito de humanista preocupação nos antifascistas mais vigilantes.
Há vários nacionalismos, como, quando convém a outros utilizadores, várias democracias e diferentes comunismos. O "primeiro" nacionalismo, o da Revolução Francesa e da Europa de 1848, era um nacionalismo romântico, liberal, "de esquerda". Os seus inimigos principais eram o Papa e os imperadores - a Igreja bloqueava a construção da Itália e os imperadores da Rússia e da Áustria mais o rei da Prússia sufocavam quase uma dúzia de povos.
Em 1871, os intelectuais da França vencida por Bismarck concluíram que a superioridade dos prussianos vinha das suas instituições monárquicas, hierárquicas, disciplinadas. Que o individualismo francês fora batido - também - pelo organicismo germânico. E daí as reflexões de Renan, de Taine e de Barrès em "Les Déracinés". E mais tarde a confluência para Maurras e a Action Française que farão escola para os tradicionalistas e conservadores da latinidade. É o nacionalismo conservador.
O "terceiro" nacionalismo é o nacionalismo das nações imaginadas, a inventar ou restaurar. É uma ideologia libertadora dos líderes, das vanguardas e dos povos dos impérios ultramarinos europeus quando asiáticos e africanos se lançaram na luta cultural ou armada pelas suas nações. Um nacionalismo que se fazia também na resistência aos impérios.
O nacionalismo dos fascistas - que são mais e menos que nacionalistas - teve a ver com todos estes nacionalismos. Na Alemanha e na Itália, nações antigas com Estados novos, encarnou o espírito de revanche contra Versalhes e contra a hegemonia anglo-saxónica, mas também o romantismo de 48 em conflito e síntese com o realismo dos nacionais conservadores.
Já o último nacionalismo - o do pós-Guerra Fria - nasceu do fim do império comunista soviético. Onde a nação e o Estado estavam juntos - como na Polónia - ou a nação era maior que os estados - a Alemanha -, a transição e a reunificação foram pacíficas. No estado multinacional jugoslavo houve uma erupção tribal de carácter catastrófico para esta primavera das nações.
Partir desta complexidade histórico-ideológica dos nacionalismos para uma análise maniqueísta, salomónica e dualista do tipo nacionalismo bom - o liberal e de esquerda - e mau - o conservador e de direita - além de acrescentar qualificativos igualmente complexos e polémicos, não parece muito esclarecedor.
Professor universitário
Escreve à terça-feira
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