Caso das escutas

Procuradores discutem escutas de Sócrates

Publicado em 01 de Março de 2010   
Conselho Superior do Ministério Público analisa amanhã questões jurídicas do "Face Oculta". Pinto Monteiro quer ouvir os vogais
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A partir de amanhã o PGR não estará tão sozinho. Pinto Monteiro saberá, pelo menos, quem está do seu lado e quem está contra ele dentro do Ministério Público. O caso Face Oculta, as escutas contendo conversas de José Sócrates, as certidões do processo de Aveiro para investigar um eventual atentado contra o Estado de Direito, os despachos do procurador-geral da República que determinaram o respectivo arquivamento, as sucessivas fugas de informação e violações do segredo de justiça, a posição do sindicato do Ministério Público e, finalmente, a criação de uma comissão parlamentar de inquérito ao caso da interferência do governo sobre a PT no negócio de compra da TVI. No fundo, todo o processo vai ser discutido amanhã na reunião que juntará os mais altos representantes da acusação pública.

O procurador-geral da República convocou a reunião extraordinária do Conselho Superior do Ministério Público que vai debater o processo mais mediático dos últimos tempos. Fernando Pinto Monteiro quer ouvir os 18 conselheiros sobre o processo que tem enchido as páginas dos jornais e pelo qual já pedem a sua cabeça. Esta reunião extraordinária tem um único ponto na agenda: a discussão de questões jurídicas que interessam ao MP. Na mesa vai estar o processo Face Oculta em todas as suas dimensões. E não são poucas.

As opiniões dos conselheiros Entre os membros do CSMP encontram-se o procurador distrital de Coimbra, que enviou para o PGR as certidões com as escutas a Sócrates. Será uma boa ocasião para Alberto Braga Temido expor a sua opinião sobre o crime de atentado contra o Estado de Direito. É discutível se o procurador distrital de Coimbra poderia ter arquivado o processo que recebeu de Aveiro. Sendo o Ministério Público um corpo hierárquico, Braga Temido não deveria ser obrigado a remeter ao PGR as certidões contendo as escutas dos telefonemas entre Armando Vara e José Sócrates. Porém, como a lei foi alterada, a instrução de qualquer inquérito a actuações do primeiro-ministro cabe ao presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Uma das múltiplas questões jurídicas que continuam em aberto.

Entretanto, é preciso lembrar que entre os 19 membros do Conselho Superior se encontram sete representantes da Assembleia da República e do ministro da Justiça. Ou seja, sete representantes políticos, que serão ouvidos mas também ouvirão tudo o que for dito.

PGR sob fogo Pinto Monteiro tem estado debaixo de fogo cerrado desde que decidiu encerrar os inquéritos que visavam investigar o eventual crime de atentado contra o Estado de Direito cometido por José Sócrates e pelos seus próximos. Depois das primeiras fugas cirúrgicas, um dos seus despachos de arquivamento tem sido transcrito ipsis verbis por vários jornais. E as próprias escutas também têm sido reveladas com uma cadência que raia a perversão.

No passado fim de semana, o semanário "Sol" insinuava mesmo que saíra do gabinete de Pinto Monteiro a fuga que terá feito com que os suspeitos soubessem que estavam sob escuta, o que os terá levado a trocarem telefones e terem cuidado com o que diziam. E mesmo, segundo aquele jornal, a simularem conversas diferentes das que teriam se não estivessem sob escuta. Vários jornais e alguns políticos têm pedido a cabeça do procurador-geral, o líder do Ministério Público. Pinto Monteiro pode perdê-la. Mas, depois de amanhã, não estará tão sozinho.


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