Hospital de Cascais retira 740 partos e 9 milhões ao Amadora-Sintra
por Rute Araújo , Publicado em 01 de Março de 2010
Nova unidade apenas recebe população de Sintra na área materno-infantil, uma das poucas que não estava sobrelotada
Num hospital sobrelotado como o Amadora-Sintra, a abertura de uma nova unidade no concelho vizinho de Cascais podia ser uma boa notícia. Em vez disso, representará um rombo de nove milhões no orçamento. O novo hospital inaugurada há uma semana, em Alcabideche, vai absorver utentes de oito freguesias de Sintra, mas apenas nas três áreas em que não havia qualquer dificuldade de resposta: ginecologia, obstetrícia e pediatria.
"Perdemos uma fatia populacional importante, o que terá um impacto significativo, mas onde é menos necessário, porque temos capacidade para responder com qualidade a essa procura que vai agora ser desviada", refere o presidente do conselho de administração do Amadora-Sintra, Artur Vaz, sublinhando que estes serviços são "a parte boa" de qualquer hospital.
O administrador adianta que em 2009 houve 4020 crianças nascidas no Amadora-Sintra. Deste total, 750 vão ser desviadas para o novo hospital de Cascais. "Vamos ficar com 3250 partos por ano. O problema é que perdemos escala, mas não o suficiente para reduzir as equipas que estão de urgência. Portanto, cada parto ficará mais caro. Aumenta o custo de produção", explica.
Além dos partos, o Amadora-Sintra perderá para Cascais entre 14 e 15 mil urgências de obstetrícia, ginecologia e pediatria, e dois mil doentes internados. Ao fim de um ano, serão cerca de nove milhões de euros a menos. "Acreditamos que estes nove milhões não são todos para concretizar este ano porque, por um lado, temos dois meses de funcionamento e, por outro, a passagem vai ser gradual", refere Artur Vaz. Mas já terão efeitos em 2011.
Questionado sobre a razão para esta decisão, também o director clínico do Hospital de Cascais não sabe responder. João Varandas refere que o número de partos acordados e a decisão de integrar oito freguesias de Sintra "fazem parte do contrato assinado com o Estado" há vários anos. "Não sei o que esteve na base desta decisão, porque a actual administração só está em função há cerca de ano e meio, não foi a que negociou o contrato. O que sei é que faz parte do contrato e é o contrato que temos que cumprir", explica o médico. A unidade ficará ainda com parte das grávidas que eram atendidas até agora no São Francisco Xavier.
O antigo hospital de Cascais fazia por ano cerca de mil partos, abaixo dos mínimos de segurança de 1500 definidos pelos peritos. No relatório da comissão técnica de 2006, que levou ao encerramento de maternidades, Cascais era um dos blocos de partos a fechar. No entanto, o então ministro Correia de Campos decidiu mantê-lo aberto até à conclusão do novo hospital.
As estimativas da administração de Cascais - gerida em Parceria Público Privada pela HPP Saúde - é duplicar estes mil partos, chegando aos 1900/2000 por ano. Isto apesar de João Varandas admitir que "30% da população residente em Cascais não se trata em Cascais e prefere receber assistência em Lisboa". Uma tendência que a administração quer contrariar com as actuais condições de excepção oferecidas pelo novo edifício em Alcabideche. João Varandas refere ainda que a capacidade não ficará esgotada e as dez salas da unidade conseguem assegurar 2500 a 2600 nascimentos ao ano.
No dia da inauguração do hospital de Cascais, o presidente da Câmara Municipal de Sintra, Fernando Seara, comentou a decisão afirmando: "É evidente que o novo hospital é uma parceria público privada e, sendo assim, objectivamente teve que ir buscar mecanismos de financiamento." E criticou a forma encontrada para o fazer. "Como não havia número de partos suficiente no hospital de Cascais, foram buscar três valências do Amadora-Sintra", disse, citado pela Lusa.
"Uma grávida que parta uma perna vai para o Amadora-Sintra, mas para a consulta e avaliação do feto vai ao hospital de Cascais", exemplificou ainda o presidente da autarquia Fernando Seara.
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