Arte

A vida de Joana Vasconcelos em dez obras

por Vanda Marques , Publicado em 01 de Março de 2010   
Imprima este artigo e leve-o quando for ver "Sem Rede" no Museu Colecção Berardo, em Lisboa. Servirá como uma espécie de audioguia, em versão papel. Joana Vasconcelos destaca dez das suas quase 40 obras em exposição a partir de hoje
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01. A Noiva (2001-2005)

Tampões OB, aço inox, fio de algodão, cabos de aço

"A Noiva [um lustre composto de 20 mil tampões] é a princesa e está à entrada do Museu. Vai acompanhar-me sempre. Em termos de design, é fantástica porque representa o luxo. Os lustres são conhecidos em todo o mundo, adornam casas, palácios e restaurantes. Por outro lado, há a simbologia das tradições relacionadas com a mulher, a ideia da pureza e virgindade até ao casamento. Portanto há estes dois aspectos: um mais pessoal e outro ligado ao design, à moda. Continua sempre actual porque essas coisas não vão desaparecer da nossa sociedade de um dia para o outro."

02. Cinderela (2009)

Panelas e tampas em aço inox, cimento

"O sapato feito de panelas portuguesas, os conhecidos tachos do arroz n.º 16, veio do Tróia Design Hotel e contracena com as 'Flores do Meu Desejo' [peça n.º 5]. É uma cópia ampliada do sapato de Marilyn Monroe. A peça representa a dualidade feminina. Por um lado, a tradição e reclusão do lar, por outro a sua condição pública, representada no salto alto. A Marilyn vendida no leilão da Christie's é o par desta. O leilão foi um daqueles momentos na vida em que algo completamente diferente e inesperado acontece. Ver uma peça vendida àqueles preços [573 mil euros] e num local como aquele é fantástico. O que não deixa de nos fazer pensar que a nossa realidade é completamente diferente."

03. Coração Independente Dourado (2004);

Coração Independente vermelho (2005); Coração Independente preto (2006)

"Os meus corações, como o sapato, são peças fantásticas, com forte presença nas colecções internacionais. São peças que falam da nossa tradição ligada à gastronomia, e do facto de o fado ser cantado em restaurantes. A primeira foi feita para o restaurante Eleven, por isso estava implícita a ideia de qualidade e o luxo. Quis logo fazer outras versões: a vermelha e preta. São peças ligadas à joalharia, como é o coração de Viana, e às nossas tradições, como é o caso da filigrana, uma técnica que está em desaparecimento. No fundo, fala do luxo português, que temos de enaltecer."

04. Contaminação (2008-2010)

Tricô e croché em lã feitos à mão, malha industrial, tecidos, adereços, esferovite, poliéster, cabos de aço

"Esta peça é apresentada na sua totalidade pela primeira vez e está realmente a contaminar o espaço. É enorme. Ocupa duas salas. Começou por ser exposta em São Paulo, depois na Gulbenkian em Paris, e mais tarde numa galeria em Espanha. É uma peça tolerante e democrática. Para a fazer usei todo o tipo de técnicas manuais, do patchwork aos bordados. Além disso, juntei-lhe texturas e padrões de todo o mundo. Sempre que viajo trago tecidos que identificam aquela cultura. Por isso é uma peça em que se vê tecidos japoneses, turcos, franceses."

05. Flores do Meu Desejo (1996)

Espanadores, ferro metalizado e pintado, rede tremida metalizada e pintada

"É uma das peças mais antigas. Foi feita no último ano da escola [Ar.Co] para uma exposição na Estufa Fria e marca o início da minha carreira. Tem um discurso à volta da vida caseira, do interior e de um lado mais público e violento. Os espanadores [280] custaram 48 contos, tive de pedir ajuda financeira ao meu pai. Foi com grande convicção que a fiz e é com grande prazer que a volto a ver. Estava na colecção Pedro Cabrita Reis e não era mostrada há mais de dez anos."

06. O Mundo a Seus Pés (2001)

Globos terrestres em plástico, ferro metalizado e pintado, sequenciador, material eléctrico, MDF pintado

"É a peça que contracena com 'A Contaminação', uma das mais políticas. Fala da condição do mundo e da consciencialização de que todos pertencemos ao mesmo planeta. Por isso, temos de cuidar dele. Transmite a noção de que a globalização pode ser positiva. Todas as culturas estão interligadas e temos de as preservar [tal como na obra os globos estão ligados]. É uma peça mais fria, mas com preocupações ambientais."

07. Ponto de Encontro (2000)

Cadeiras em metal cromado, madeira, tecidos, ferro metalizado e pintado

"É uma peça da colecção da Caixa Geral de Depósitos, feita primeiro em Serralves. É o carrossel ao estilo antigo português. Uma estrutura de ferro, como se via nos parques infantis das décadas de 70 e 80, adaptada aos adultos, com cadeiras de escritório. Não são umas cadeiras quaisquer, são de design. É um brinquedo para adultos. [Venceu o prémio Tabaqueira de Arte Pública]"

08. Sofá Aspirina (1997) e Cama Valium (1998)

Blisters com comprimidos Aspirina de 500 mg, madeira e vidro/Blisters com comprimidos Valium 10 e 15 mg, MDF pintado e vidro

"O Sofá Aspirina e Cama Valium são um dueto que fiz no início da minha carreira. As obras foram vendidas para duas colecções diferentes: Antonio Cachola (Valium) e Cabrita Reis (Aspirina). São peças que nunca mais tinham estado juntas. Falam do consumismo e de como, às vezes, as nossas vidas são controladas por factores externos, como fármacos. São peças diferentes, com um discurso mais intenso e solitário. Têm um olhar diferente e mantêm-se actuais."

09. Jardim do Éden (Labirinto) (2010)

Flores em plástico, micromotores síncronos, lâmpadas fluorescentes compactas, discos em acrílico transparente policromado, sistema eléctrico, Lycra, PVC, MDF

"A peça veio de Palma de Maiorca e é aqui que, como 'A Contaminação', tem a sua maior apresentação. Já foi apresentada em Inglaterra, Espanha, Faro e até passou pela EDP. Foi sempre sendo acrescentada, para chegar aqui na sua maior versão. Feita à base de materiais mais pobres, como flores de plástico, tubos de canalização, surge como um jardim colorido, num fundo preto. Recria uma perfeição aparente, em que tudo é mecânico, falso, o oposto a um jardim natural."

10. www.fatimashop, 2002

Piaggio APE50, estatuetas de Nossa Senhora de Fátima fosforescentes, lâmpada ultravioleta, MDF pintado, temporizador/Piaggio APE50 + "Fui às Compras" (mini-DV transcrito para DVD)

"Tenho sempre de falar do Fátima Shop. Até hoje me estou a perguntar: como é que aquele ciclomotor me levou a Fátima? Nunca tive de pôr gasolina e percorri cento e tal quilómetros de Lisboa até lá. Foi uma viagem fantástica que fiz no dia 12 de Maio de 2003. Queria perceber o factor Fátima, perceber o que motivava as pessoas a fazer uma peregrinação. Foi uma viagem engraçada, com muitas peripécias. Ia sendo atropelada por um camião TIR e nunca me esqueci de que os primeiros peregrinos que encontrei eram croatas. É uma peça com uma estrutura menos clássica que as outras, já que é um vídeo que acompanha uma escultura, ou vice-versa, ou seja, uma instalação."

A exposição "Sem Rede", de Joana Vasconcelos, estará patente no Museu Colecção Berardo, em Lisboa, até 18 de Maio. A entrada é gratuita


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