PRIMEIRO PLANO

Amamentação

por Ricardo Reis, Publicado em 27 de Fevereiro de 2010   
Há mitos que se criam e depois são tidos como verdadeira ciência. A questão da amamentação com leite materno é um deles
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A Organização Mundial de Saúde recomenda que todas as mães amamentem até aos dois anos. A comunidade médica abraçou estes resultados, e qualquer mãe que acabe de dar à luz é bombardeada com esta sugestão. Nas maternidades, não amamentar parece ser visto como sinónimo de negligência maternal. Uma vez que algumas mães não conseguem produzir leite (e só cerca de 40% no mundo inteiro amamentam), e tendo em conta o risco real de depressão pós-parto, esta pressão pode ser não só injusta mas também perigosa.

O que é mais surpreendente é a fragilidade das provas científicas a favor da amamentação. Existem estudos que associam o leite materno a menor incidência de infecções, diabetes, QI mais alto, e mesmo menor risco de cancro na mãe. Mas a maior parte dos estudos encontra efeitos pequenos que desaparecem quando repetidos noutros contextos.

Além disso, há um problema fundamental com a maioria dos estudos: as mulheres que escolhem amamentar tenderiam a ter filhos mais saudáveis e espertos de qualquer forma. Por exemplo, as mulheres de famílias com rendimentos elevados podem ficar em casa e amamentar os filhos, mas também podem olhar pela sua saúde e desenvolvimento de muitas outras formas. A mãe solteira com dois empregos não pode dar-se a este luxo. Como as mães com mais anos de estudos e maiores rendimentos escolhem amamentar com mais frequência, é muito difícil separar o efeito da amamentação destas outras características.

Para ultrapassar este obstáculo, alguns estudos usam bebés prematuros e com pouco peso, que ficam no hospital durante os primeiros meses. Nesse contexto, a influência da mãe é menor na escolha da alimentação do bebé e os médicos podem usar leite ou fórmula em crianças semelhantes e registar se quem recebe leite materno se dá melhor. Embora os bebés alimentados com leite materno sejam mais saudáveis, isto só mostra que o leite materno ajuda um grupo especial de crianças. É plausível que um bebé prematuro beneficie de receber nutrição directamente da mãe, como aconteceria se não tivesse nascido antes do tempo. É um grande salto concluir que isto se aplica à maioria dos bebés que nascem com nove meses.

Outro estudo nesta área comparou grupos de dois irmãos, um que amamentou e outro não. Como têm os mesmos pais e ambiente familiar, estas características não explicam as diferenças de desempenho das crianças. Este estudo não detectou qualquer benefício do leite materno.

Para não ser mal interpretado, é importante realçar que o peso das provas ainda está a favor da amamentação, mas os efeitos são mais pequenos e as provas bem mais frágeis do que muitos pensam. Este tema é daqueles em que os dogmas são perigosos para a saúde de crianças e mães e a comunidade médica precisa de estudar mais e ser mais humilde nas suas prescrições.

Professor de Economia, Universidade de Columbia

rr.ionline@gmail.com

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