Coluna vertical
A sogra pode ajudar?
por José Couto Nogueira, Publicado em 27 de Fevereiro de 2010
Envie as suas perguntas relacionadas com situações práticas que envolvam questões de ética para colunavertical@ionline.pt
Pergunta
Caro José Couto Nogueira,
Tomo a iniciativa de lhe escrever para saber a sua opinião acerca do melindre em que neste momento me encontro.
Achei oportuno e simpático ajudar o meu filho e a minha nora, pouco endinheirados e no princípio de vida, partilhando e dispensando-lhes parcialmente a minha empregada.
Ora apesar do acordo inicial de ambos e também da conveniência do trabalho, especialmente para o meu filho, recebi há dias a informação, sem qualquer justificação, de que a minha nora não pretende nem quer que a minha empregada continue a trabalhar lá em casa.
Apesar de eu nunca ter interferido no que quer que fosse, penso que a minha nora quer manter-me à distância, principalmente da minha possível apreciação negativa das suas competências de gestão doméstica, deixando assim ao meu filho a obrigatoriedade de fazer trabalhos para os quais não está preparado, não tem tempo nem disponibilidade de outro tipo.
A insegurança e a pouca maturidade da minha nora faz assim com que se prejudique a si própria e ao marido, deixando-me ainda a mim este amargo sabor da ingratidão e também a sensação de não os poder ajudar.
Cristina
resposta
Cara Cristina
Nunca foi nora? Lembra-se de como se sentia em relação à sua sogra? O que sentia, com certeza, era que a queria à distância. Mesmo que fosse um amor de pessoa, interessadíssima em ajudar com as coisas da sua casa e sobretudo de ajudar o querido filho dela, já aos cuidados de outra mulher.
Ninguém põe em causa as suas boas intenções nem o seu desejo genuíno de ajudar o jovem casal. Também ninguém duvida que deseje que o seu filho continue com os excelentes padrões de arranjo e solicitude a que estava habituado quando estava ao seu cuidado. Contudo, apesar de tão bem tratado, preferiu ir viver com uma mulher desmazelada, incompetente na gestão doméstica e que rezinga com a empregada. Porque será?
Será, possivelmente, porque o seu filho valoriza mais o amor que tem pela mulher que os confortos que ela lhe possa dar. Quando casou já sabia o que o esperava, e mesmo assim meteu--se nessa aventura inebriante e incerta que é construir um lar com outra pessoa. Claro que ele sentirá saudades dos mimos da mãe, mas a vida é cheia de opções, e essa é uma delas. Não se pode estar com uma mulher jovem e sem experiência doméstica, de uma geração que não valoriza tais predicados, e manter o nível de mordomias que uma mãe à moda antiga gosta de dar. O seu filho anda com as camisas amarrotadas e não janta tão bem, mas pode ter a certeza que está mais satisfeito assim.
Quanto à sua nora, como quer que ela enfrente a sua afeição maternal e a perfeição nos vincos das calças? Ela não está a ser ingrata, apenas vê a sua solicitude vigilante como uma crítica velada - ou nem por isso.
Não é preciso puxar dos princípios da ética; basta recorrer ao básico da estratégia. Se quer que o seu filho e a sua nora sejam felizes, deixe-os gerir a casa à maneira deles. Não lhes facilite a sua empregada, esses olhos grandes e ouvidos atentos à intimidade deles. Não ajude nos pormenores, não lhes satisfaça as necessidades (para lá de uns subsídios para coisas específicas escolhidas por eles, sempre bem-vindos). Apareça só quando for convidada, elogie o que puder e não inspeccione a limpeza dos tachos e das panelas.
Por mais esquisito que lhe pareça, ele vai sobreviver.
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: A sogra pode ajudar?
Actividade em ionline