Ciência

Amor em spray. A poção dos afectos pode estar para breve

Publicado em 27 de Fevereiro de 2010   
Cientistas vêem cada vez mais potencial na hormona usada para acelerar os partos, a oxitocina. Um dia será possível manipular afectos
Opções
a- / a+
Um comprimido para os pais serem mais carinhosos com os filhos. Um spray capaz de acalmar as discussões conjugais. A cura para o autismo. Estas são algumas possibilidades da hormona que as mães produzem naturalmente durante o parto. No futuro, a oxitocina poderá tornar--se o fermento de um sentimento tão complexo como o amor.

"Um comprimido do amor ainda está longe de ser desenvolvido, mas em determinadas condições é possível", diz ao i Simone Shamay-Tsoory. A investigadora da Universidade de Haifa, Israel, é autora de um trabalho recente sobre o potencial da inalação da versão sintética da oxitocina, que hoje se usa para provocar o parto ou facilitar a amamentação.

No organismo, esta hormona é uma das explicações para as contracções uterinas ou para a estimulação das células que envolvem os alvéolos mamários e promovem a lactação. No final de 2009, Shamay-Tsoory publicou um trabalho em que demonstrava que a oxitocina - conhecida por "hormona do amor" depois de demonstrado que em modelos animais promovia os laços parentais - também é responsável por outros sentimentos. "Descobrimos que a administração intranasal de oxitocina aumenta os níveis de inveja e Schadenfreude (o sentimento alemão que traduz a alegria com o mal alheio)", explica.

Também Beate Ditzen, da Universidade de Zurique, acredita que a oxitocina é um bom caminho para uma poção do amor. Um estudo publicado em Abril de 2009 mostrou que a inalação era capaz de amenizar uma discussão conjugal. Os casais que tomaram oxitocina antes de começar a discutir, de um universo de 47 casais heterossexuais, tiveram mais atitudes positivas e registaram níveis mais baixos da hormona do stresse, o cortisol.

A oxitocina estará também ligada à generosidade e ou às memórias mais felizes. Nos caminhos terapêuticos, autismo e fobias sociais são dois alvos já reconhecidos. Um estudo publicado este mês por cientistas franceses verificou que, quando tiravam fotografias, os doentes se concentravam mais vezes nas caras e nos olhos das pessoas em vez de se dispersarem.

Dúvidas existenciais A discussão já chegou à ética. "As crianças precisam de ser amadas para se tornarem indivíduos capazes de terem vidas boas", escreve Matthew Liao, da Faculdade de Filosofia da Universidade de Oxford, num artigo na revista "Bioethics". Garante depois que um comprimido do amor terá tudo para produzir sentimentos autênticos e lança um dilema existencial para o futuro: logo que esteja disponível, e se não for moralmente problemático tomá-lo, não aumentarão os deveres com as crianças? "Estou a pensar num aumento das responsabilidades sociais", explica ao i o investigador, que prevê novas doenças sociais como sentimentos mais supérfluos.

Larry Young, investigador da Universidade Emory, Atlanta, EUA, e um dos investigadores mais conhecidos da química do amor, não vê obstáculos: mesmo que alguém venha a pôr-nos um comprimido do amor na bebida, fará diferença? "O amor é insano", concluía o ano passado num artigo de opinião publicado na "Nature".

Em Portugal, a solução de oxitocina foi autorizada pelo Infarmed em 2007, com o nome comercial Syntocinon. Desde então passou das mãos da Novartis para a farmacêutica Defiante, mas a prescrição continua a limitar-se à maternidade.

Os visionários, se este for mesmo o futuro, estão sedeados em Nova Iorque. A partir de 29,95 dólares (22 euros), a empresa Vero Labs vende um frasco de uma solução à base de oxitocina para promover a confiança. "Sem perceber como, as pessoas à sua volta vão ter um sentimento forte de segurança. Não conseguem explicá--lo, mas saberá que o Liquid Trust está a fazer a sua magia", anunciam. Basta aplicar na roupa, ou como água de colónia.


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close