Benfica

Vata: "Havia vento e marquei com o peito. A sério, é como lhe digo"

por Rui Miguel Tovar, Publicado em 25 de Fevereiro de 2010   
Antecipamos o futuro (Benfica-Marselha da Liga Europa) com um regresso ao passado (Benfica-Marselha da Taça dos Campeões). Foi há 20 anos. E será daqui a 20 dias
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À minha frente, está tudo a dormir. Já passa da uma da manhã e as janelas ou têm os estores corridos ou há uma imensa escuridão dentro das casas, onde a Lua não consegue penetrar pela proximidade dos edifícios. É um silêncio absoluto no bairro. Basta um telefonema para tudo mudar. No outro lado do mundo, a voz de Vata desperta qualquer um. Pudera, na Austrália já é hora de almoço. Há 20 anos foi mais ou menos a mesma coisa. Os defesas do Marselha adormeceram e Vata despertou 120 mil pessoas para dar uma mãozinha ao Benfica rumo à final da Taça dos Campeões. Mas calma lá que o avançado angolano, agora com 48 anos, diz que não, que não foi com a mão, e sim com o peito. Eis o mote para uma conversa animada com 12 horas de diferença, entre um quase a dormir e outro quase a almoçar, mas ambos a falar do próximo Benfica-Marselha, agora para os oitavos-de-final da Liga Europa, nos dias 11 e 18 de Março. No dia 19, é o aniversário de Vata - haverá melhor prenda para ele que uma qualificação do Benfica?

Vata, boa noite. Saudações em português.

Obrigado, obrigado. É bom voltar a ouvir e falar português. Não me diga que vai falar do Benfica-Marselha? Isso já foi há 20 anos.

Não, não. É uma entrevista de carreira. Fala-se de tudo, a começar pelo início: Varzim 1984-85.

Ah, está bem. Tenho saudades, imensas, desses tempos. É bom recordar. Cheguei à Póvoa do Varzim via Angola, através do Progresso Sambizanga. Tinha 23 anos. Na época de estreia na 1.a divisão, joguei ao lado de famosos como Bobó [antes FC Porto e depois Boavista] e Bandeirinha [depois FC Porto]. Adaptei--me bem e até marquei sete golos, mas nenhum deles serviu para ganhar um jogo [1-1 com Farense, 1-1 com Portimonense, 1-2 em Penafiel, 1-3 no Restelo, 1-1 com Vizela, 1-4 em Braga e 1-5 na Luz]. Nem um jogo, imaginas? Pois é, e pensar que mais tarde fui o melhor marcador da liga portuguesa.

Sim, é verdade, mas já lá vamos, não é só para falar do título de melhor marcador.

Agora apanhaste-me, mas tens razão. Na época seguinte, jogámos na 2.a divisão e subimos à 1.a, atrás do Rio Ave e à frente do Vizela. Aí já entraram umas caras novas que iriam dar que falar, como o Rui Barros [depois FC Porto, Juventus, Mónaco e Marselha] e o meu compatriota Lufemba. Demos muitas tardes de alegria aos adeptos do Varzim e eles mereciam-nas. O seu apoio era incondicional.

Em 1986-87, de regresso à 1.a divisão, não me diga que finalmente marcou num jogo em que ganhou?

Bingo, e logo na primeira jornada, para acabar de vez com a malapata. Foi num Varzim-Elvas, 1-0. Marquei no primeiro quarto de hora, o nosso treinador era o Henrique Calisto, que agora está no Vietname. Quatro jornadas depois, Varzim-Rio Ave com 1-0, golo meu. Depois, 2-1 ao Belenenses, com golos africanos: Lufemba, eu e o Mapuata [R. D. Congo]. Sei que acabámos a época em 7.o lugar. Eu com oito golos, o Lufemba com sete e o Rui Barros com seis.

E daí para o Benfica?

Não, antes ainda estive outra época no Varzim, em 1987-88. Aí, marquei 11 golos. Depois, sim, o Benfica.

E foi entrar, ver e vencer?

Bem, esse Benfica era uma equipa gloriosa e uma família memorável. Dávamo-nos todos bem, muito bem mesmo. Havia 22 jogadores capazes de estar no onze e todos podiam resolver. A prova disso é que 16 jogadores marcaram golos para o campeonato.

E o Vata foi o rei?

É verdade. E muitas vezes, saía do banco de suplentes. Já se sabia qual era a primeira aposta do Toni em qualquer caso: de derrota, empate ou mesmo vitória. Eu entrava sempre. Foi assim desde a primeira jornada [2-2 em Espinho, com Vata a substituir Ademir e a marcar logo aos 52 minutos]. Às vezes, era eu o titular, com o Magnusson, o Lima, o Ricky ou o Ademir no banco.

É assim que explica os seus 16 golos num campeonato com 38 jornadas?

Sim, a rotatividade fazia parte do nosso dia-a-dia, mas sem stresse de ninguém. E fui o melhor marcador quase no minuto 90. Antes da última jornada, eu, o Amâncio do Penafiel e o Jorge Silva do Marítimo tínhamos 14 golos. Eu marquei ao Boavista aos 4', o Amâncio também marcou, no Restelo, aos 18' e igualou-me. Mas eu meti outro, aos 66', e ficou 16, 15, 14. O Jorge Silva fez o seu de penálti ao V. Guimarães e acabou tudo com 16, 15, 15.

Na época seguinte, menos tempo de utilização com Eriksson, a conquista de uma Supertaça portuguesa e aquela aventura que culminou com a última final europeia do Benfica.

E chegámos onde tu querias, ao jogo do Marselha.

Elementar.

Já disse naquela altura e volto a repetir. Aquilo foi com o peito, mas as pessoas não acreditam em mim. E quem é que lá estava? Eu e só eu. É como lhe digo.

Lá isso é verdade, mas as imagens televisivas são evidentes. No dia seguinte, todos os jornais portugueses concordaram nesse ponto.

O lance foi muito rápido, o Valdo marcou o canto, o Magnusson cabeceou ao primeiro poste e eu toquei a bola para dentro da baliza.

Mas então como explica a histeria dos jogadores do Marselha. Se fosse um golo regular, eles não iriam sufocar o árbitro, não acha?

Isso já não sei, não sei o que eles pensam. Repito-lhe: o lance foi muito rápido e estava tanto vento que é melhor ficarmos por aqui. Estar aqui a culpar o árbitro, este ou aquele, não vale a pena. Olhe, ponha um ponto de interrogação.

Mas e o Mozer gostará dessa desculpa?

Ah, ele ficou furioso. Olhava para ele e dava medo pela maneira como estava indignado, mas não protestou com o árbitro nem implicou com o público nos últimos minutos, quando começámos a queimar tempo nos cantos, nos lançamentos laterais e nos pontapés de baliza. Afinal o Benfica era parte da sua vida, a Luz também, por isso... Mas eu adorava o Mozer. Sempre fomos amigos. E ele no ano seguinte até foi a uma outra final europeia [Marselha-Estrela Vermelha]. Portanto...

Na final é que não houve cá facilidades.

Sim, o Milan era uma equipa compacta, mas jogámos à italiana e causámos-lhe problemas. Entrei a 15 minutos do fim mas não havia maneira de furar aquele bloqueio defensivo com o Baresi, o Costacurta, o Maldini, o Tassotti. Eu tentei, o Magnusson, o César Brito, o Paneira, o Valdo, o Pacheco também e nada.



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