Governo reúne-se amanhã com KGA para definir plano de promoção do país
por Alexandre Soares e Adriano Nobre, Publicado em 24 de Fevereiro de 2010
Mudar a imagem e convencer os investidores a apostar em Portugal
O problema de Portugal tem a forma de um porco. Em inglês: PIIGS, a sigla criada para designar o conjunto de países financeiramente mais problemáticos da União Europeia, ou seja, Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. A imagem não favorece o país e o governo tem a convicção de que o rótulo é injusto. "Um problema de percepção externa", diz-se em São Bento, enquanto se acenam as folhas de Excel que sustentam o discurso do défice "em linha com a OCDE", ou da dívida externa muito inferior a países como Itália ou Grécia.
Diagnosticado o problema, o governo ensaia uma solução: alterar radicalmente a imagem portuguesa nas principais praças e mercados financeiros. O gabinete do primeiro-ministro confirmou ao i a existência de contactos para procurar um parceiro internacional na área da comunicação e a iniciativa já está em marcha. Amanhã poderá ter um impulso decisivo, quando o Ministério da Economia se reunir com responsáveis da multinacional de comunicação financeira, empresarial e public affairs Kreab Gavin Anderson (KGA). Em cima da mesa está a definição do projecto que pretende convencer os investidores internacionais de que Portugal é um bom mercado para aplicar o seu dinheiro.
A ideia é simples: não se pode inventar um país, mas pode criar-se uma narrativa que transforme a sua imagem. Se tudo correr bem à empresa de comunicação - e se se confirmar o acordo da KGA com o governo português -, esse será o seu trabalho nos próximos meses.
O fantasma grego Nas últimas semanas, o ministro das Finanças negou, o governador do Banco de Portugal desmentiu, o primeiro-ministro recusou e até o Presidente da República afastou a hipótese. Mas tem sido inevitável: a cada nova apreciação de uma agência de rating, a imagem de Portugal cola-se à da Grécia. Evitar essa percepção dos investidores deverá ser o objectivo mais imediato da KGA.
Mas o "desfasamento" que o governo diz existir entre a realidade do país e a percepção externa não se limita aos números da economia: há algumas semanas, o jornal inglês "The Guardian" indicava Manuel Pinho como o ministro da Economia, sete meses depois da sua demissão. O caso é paradigmático. Filipe Garcia, economista da Informação de Mercados Financeiros (IMF) considera que "mais do que os nomes, desconhecem-se as políticas, é preciso mitigar algumas dificuldades de comunicação. O país é de facto melhor do que a imagem que se tem dele" nos mercados internacionais, admite.
António Cunha Vaz, da agência de comunicação Cunha Vaz & Associados, e Carlos Coelho, da empresa de gestão de marcas Ivity Corp, consideram "ingénua" a ideia de que estas percepções podem ser mudadas agora. "Este trabalho não se faz de forma reactiva", avança Cunha Vaz. Por isso a ideia do projecto é que seja "um processo em curso" durante vários anos, explica uma fonte ao i.
A receita já foi aplicada pela KGA noutros processos. Desde credibilizar países como a Argentina, suavizar a imagem de alguns emirados junto de parceiros ocidentais, ou facilitar a entrada de empresas multinacionais em determinados mercados. E poucas diferenças existem entre um cliente empresa e um cliente Estado: serão agendadas visitas às principais praças financeiras, marcadas reuniões com bancos e contactos com investidores e agências de rating. Um autêntico road-show em nome de Portugal. A palavra- -chave é "confiança" e o trabalho será feito "de Pequim a Washington".
Os responsáveis da KGA recusam comentar a reunião com o governo, mas as informações recolhidas pelo i indicam que a renovação da imagem portuguesa será coordenada pela empresa nos bastidores. A dar a cara pelo país surgirão os quadros do Estado. Provavelmente técnicos dos ministérios da Economia e das Finanças ou do Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público (IGCP) - acompanhados por políticos que dêem lastro à mensagem. A entrevista de Sócrates ao "The New York Times" - em que o primeiro-ministro garantia que "não precisamos de Bruxelas" -, ou a entrevista de Teixeira dos Santos à CNN são disso exemplo.
Bill Witherell, economista-chefe e gestor de activos da Americana Cumberland, defende que "os investidores querem ver provas convincentes de que o governo sabe as medidas que precisam de ser aplicadas, que está empenhado em aplicá-las e que existe apoio político para o fazer". O especialista americano alerta que "declarações de intenções são importantes, mas a memória das acções passadas também é crítica". "É essencial que Portugal melhore a competitividade internacional das suas empresas para evitar um longo período de crescimento lento e desemprego elevado."
Ora, se o governo tem a convicção de que esse trabalho está a ser feito, falta agora passar a mensagem para os investidores internacionais. A partir de amanhã, o ministério da Economia e a KGA poderão ter um primeiro esboço de como o fazer.
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