Visto de fora

Os casais e a união perfeita. Casamento? Sim, enquanto durar

por Francesco Alberoni, Publicado em 23 de Fevereiro de 2010   
Se a estabilidade do matrimónio depende tanto do amor, não seria melhor estudarmos também outras fórmulas legais ou contratos matrimoniais que permitam soluções mais articuladas?
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Antigamente toda a gente se casava; o matrimónio era a base estável da casa, da família, e assegurava respeitabilidade, ajuda em caso de necessidade, descendência e uma velhice serena. As solteironas eram dignas de compaixão, a mulher que tivesse filhos sem ter marido era marginalizada. Não eram admitidas outras formas de convivência erótica. Por essa razão, o matrimónio era indissolúvel e durava até à morte. Hoje tudo mudou. A sociedade ocupa-se da educação, do trabalho, da segurança, da saúde. Os jovens têm relações amorosas e eróticas na adolescência e nos anos seguintes mudam de parceiros com frequência.

Costumam casar-se quando querem ter filhos, mas os nascimentos não os impedem de se divorciar ou separar ou de ter um novo relacionamento. O matrimónio está a tornar-se sequencial: um cônjuge de cada vez. Nos intervalos, experiências de solteiro ou convivências. De facto, os sociólogos verificam que o casamento e a convivência só duram enquanto os dois parceiros estão bem juntos. Alguns enquanto existe paixão, na maioria dos casos enquanto se amam, se compreendem, enquanto a relação erótica é fonte de prazer mútuo, enquanto são sinceros e fiéis e a relação é serena. Contudo, quando o entendimento amoroso acaba, a relação deteriora-se e, mais cedo ou mais tarde, o casal rompe-a, por vezes de maneira maldosa e venenosa.

Foi por isso que dediquei toda a minha vida a estudar o amor do casal, por ter permanecido a única coisa que une o casal e a família. Tenho noção dos erros grosseiros que cometemos por superficialidade, por ignorância. O amor é muito frágil; basta uma diferença no modo de pensar ou uma sensibilidade erótica diferente; basta querer impor uma preferência que o outro aceita para não nos desagradar; basta que entre os dois se insinue a competição. Porém, também conheço amores ardentes e apaixonados que duram décadas. Qual é o segredo? Talvez tenham por base uma afinidade misteriosa de corpo e alma, mas também tolerância, capacidade de falar um com o outro, de se compreender, de confessar o que lhes agrada ou desagrada com sinceridade, com candura.

Mas nem todos conseguem ter este amor total, que também pode acabar de um momento para o outro. Então, se a estabilidade do matrimónio depende assim tanto do amor, pergunto--me se, sem tocar no casamento tradicional, não seria melhor estudarmos também outras fórmulas legais ou contratos matrimoniais que permitam soluções mais articuladas, adequadas às várias circunstâncias do nosso tempo.

Sociólogo, escritor e jornalista

Escreve à terça-feira


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