Reportagem - Viagens na Minha Terra
Destino: Fla-Flu. Rio para não chorar. Por mais
por Pedro Candeias, Publicado em 20 de Fevereiro de 2010
Na Cidade Maravilhosa joga-se o clássico do Brasil. Calor, chope, pastéis e bolinhos. E cariocas de peito feito e garganta afinada
- Isto bem trabalhado era ir ao Maracanã ver o Flamengo-Fluminense, pá.
- Olha que não é nada mal pensado.
- Vou falar com os gajos do Fluminense que estão aqui hospedados e ver se dá para arranjar bilhetes para a malta.
Sobre o dérbi carioca, o poeta Nélson Falcão Rodrigues dissera um dia: "O Fla-Flu surgiu 40 minutos antes do nada." Do nada também nasceu a ideia de ir ao Maracanã ver o dérbi dos dérbis do Brasil. Primeiro diálogo interior: medir os prós e os contras: o cansaço e a ressaca (ou o cansaço de uma ressaca) e os tostões trocados no fundo do bolso versus um jogo de futebol místico. E não há segundo diálogo porque em menos de um chope (a cervejinha brasileira) a decisão fica tomada ao jeito bem português - a vida são dois dias e o Carnaval são três. E três são também os portugas que se metem ao caminho com três "ingressos" - os termos e expressões cariocas a partir de agora seguem entre aspas - na mão.
O Hotel Intercontinental fica em São Conrado, entre duas das maiores favelas do Rio (Rocinha e Vidigal), e a 20 quilómetros do Maracanã. Ir de perua, as carrinhas comunitárias que passam por vários pontos da cidade e cuja passagem custa "dois real" [80 cêntimos], está fora de questão, porque a Cidade Maravilhosa está em ebulição. A opção razoável é alugar um táxi. "Fica tranquilo, mané", diz Bruno, o "motorista de táxi" que combina um preço (100 reais, 40 euros), uma hora (15 minutos depois do jogo) e um local (ao largo de uma bomba de gasolina) para a viagem de ida e volta. E acordou receber só no final do trabalho. "Eu até sou Flamengo! E vocês? São quê?" Aqui, no Brasil, dois dos portugas são do Flamengo; o outro é do Fluminense - no Rio é igual: os adeptos do Flamengo são o dobro (ou mais) dos do Fluminense. Bruno roda a chave do Opel climatizado e artilhado com uma televisão no retrovisor (aqui vale tudo). A viagem segue ao som da voz do carioca que foi militar, que tem 27 anos e uma filha de oito e que conta histórias do banco de trás com "gringos e gringas safadas".
Chegamos ao destino com tempo ainda para três chopes e meia dúzia de pastelinhos de frango num boteco longe do Maracanã - é "proibido beber cervejinha" num perímetro de 100 metros. Estão 36o C e o carioca, que anda sempre com as costas direitas e o peito feito de orgulho, tira as camisolas (quase todas do Fla) e mostra o resultado de horas na academia. Começam os cânticos. "Tu és time de tradição, raça, amor e paixão. Oh meu Mengo." É a deixa para o estádio.
É A LOUCURA Joga-se a Taça do Guanabara, o primeiro de três campeonatos do Cariocão. Dito desta forma não parece grande coisa, Mas é. Porque o Flamengo se sagrou hexacampeão brasileiro. E porque um Fla-Flu é sempre um Fla-Flu. O Rio não esquece. E nós também não. A entrada faz-se tranquilamente, mesmo em cima da hora, pela bancada central onde não há cadeiras vazias. As escadas de pedra, a ferver, servem para sentar. E este verbo será dos mais ouvidos do jogo. "Vamo à sentar, pôrra! Vamo à sentar!" Quem não vê, grita ou lança o que tem à mão para obrigar "o viadinho" a sentar-se. É o bullying à brasileira. "Faz parte, cara! Isto é futebol!", dizem. No "gramado" joga-se à bola em dois ritmos (devagar e parado) mas o adepto não se queixa e é de coração na mão grita pelo time: é nas bancadas que está o clássico.
No início não se ouve o pio à Urubuzada (claque do Flamengo); é a Torcida Tricolor que impressiona na bancada sul. "Sooouuu tricoloooor, vim ver o Flu, meu grande amor. Graças a deus sou tricoloooor." Os braços, no ar, balançam à esquerda e à direita e a torcida ondula como se o vento a empurrasse nos dois sentidos. Ao intervalo, o Fluminense ganha por 3-1 e a Torcida Verde por 10-0. A Urubuzada começa a reagir na segunda parte. "Vamo virar Mengo!" - e os adeptos acompanham a plenos pulmões. Não é magia. É a electricidade estática que eriça os pêlos. O Mengão reduz, chega à igualdade, vê o árbitro expulsar um, e tudo isso acontece enquanto se bebe uma cola em tragos generosos. O Maracanã explode, frenético, quente e suado. É impossível ficar fora da festa. Quando se dá por isso as T-shirt saem fora, os braços ganham flexibilidade e a língua materna ganha sotaque carioca - neste ponto, já dá para ver quem é de quem neste trio de portugas. E o Mengo virou mesmo. Chega ao 5-3, com hat trick de Adriano (ex-Inter de Milão). Até o terceiro elemento de Lisboa se rende no final do jogo. Depois, o reencontro com o Bruno, no sítio apalavrado, e com uma ou duas histórias para contar. Nada que o impressione. Nem aquela do miniarrastão à saída, na avenida, e que deixou pelo menos um carioca sem o "celular" que trazia ao ouvido. É o Rio de Janeiro. De rir e chorar. Por mais.
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