Salários em queda nos Estados Unidos

por Paul Krugman, Publicado em 18 de Maio de 2009   
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Alguns cortes nos salários, como os dos trabalhadores da Chrysler, são o preço da ajuda federal. Outros, como o acordo experimental de cortes salariais no The Times, são o resultado de negociações entre os empregadores e os empregados sindicalizados. Outros ainda são o brutal reflexo da fraqueza do mercado laboral. Os trabalhadores não se atrevem a protestar contra a baixa nos salários porque pensam que poderiam não encontrar outro emprego.

Sejam quais forem as especificidades de cada caso, salários em queda são sintoma de uma economia doente. E mais, são um sintoma que pode tornar a economia ainda mais doente.

Comecemos pelo princípio: as histórias sobre salários em queda estão a proliferar, mas qual é o real alcance do fenómeno? A resposta é: muito profundo.

É certo que muitos trabalhadores ainda têm aumentos de salário. Mas é tal o número de cortes salariais que, segundo o Instituto de Estatística Laboral, o custo médio da contratação de trabalhadores no sector privado aumentou apenas 0,02% no primeiro trimestre deste ano, o mais pequeno aumento de que há memória. Como o mercado de emprego ainda está a piorar, não seria de todo surpreendente que os salários globais começassem a cair ainda mais lá para o fim do ano.

Mas porque é que isso é mau? Afinal, muitos trabalhadores estão a aceitar reduções salariais para salvarem os empregos. Que mal há nisso?

A resposta está num dos muitos paradoxos que infestam a nossa actual economia. Estamos a sofrer o paradoxo da poupança: Poupar é uma virtude, mas quando todos tentam, ao mesmo tempo, aumentar muito o nível de poupança, o resultado é uma economia exangue. Estamos a sofrer o paradoxo da desalavancagem: reduzir a dívida e endireitar os balancetes é bom, mas quando todos tentam, ao mesmo tempo, vender activos e pagar dívidas, o resultado é uma crise financeira.

E em breve poderemos estar perante o paradoxo dos salários: os trabalhadores de uma empresa podem ajudar a salvar os seus postos de trabalho ao aceitarem salários mais baixos, mas quando a generalidade dos empregadores corta salários ao mesmo tempo, o resultado é um aumento do desemprego.

Eis como funciona o paradoxo: suponhamos que os trabalhadores da XYZ aceitam um corte no salário. Isso permite que a gestão da XYZ baixe os preços, tornando os seus produtos mais competitivos. As vendas crescem e mais trabalhadores podem conservar os seus empregos. Daí que se possa pensar, à primeira vista, que a redução nos salários faz aumentar o emprego. E é verdade, ao nível do empregador individual.

Mas se toda a gente sofrer um corte salarial, ninguém obtém uma vantagem competitiva. Logo, os salários mais baixos não trazem benefícios à economia.

Entretanto, a queda dos salários pode fazer piorar os problemas económicos noutras frentes.

Mais especificamente, a queda dos salários e, consequentemente, a queda dos rendimentos, agravam o problema do excesso de dívida: as prestações mensais da hipoteca não acompanham a descida no cheque de ordenado. Os Estados Unidos chegaram a esta crise com um endividamento das famílias, enquanto percentagem do rendimento, ao nível mais alto desde a década de 1930. As famílias tentam fazer face a essa dívida poupando mais do que nunca na última década. Mas, com os salários a descerem, é como se tentassem acertar num alvo em movimento. O crescente peso da dívida vai pressionar os consumidores a reduzirem o nível de despesas, o que manterá a economia fragilizada.

As coisas só podem piorar se as expectativas das empresas e dos consumidores forem de quedas salariais ainda mais pronunciadas no futuro. John Maynard Keynes enunciou o problema muito claramente há mais de 70 anos: "O efeito da expectativa de uma futura redução salarial de, digamos, 2% no próximo ano, será aproximadamente equivalente ao efeito de um aumento de 2% no montante de juros a pagar no mesmo período." Um aumento da taxa de juro efectiva é a última coisa de que esta economia precisa.

A preocupação com a queda dos salários não é só uma teoria. O Japão, onde os salários do sector privado caíram, em média, mais de 1% anualmente entre 1997 e 2003, é um exemplo objectivo de como a deflação salarial pode contribuir para a estagnação económica.

Então o que pode concluir-se dos crescentes indícios de queda salarial nos Estados Unidos? Sobretudo, e principalmente, que estabilizar a economia não é suficiente; precisamos de uma verdadeira retoma.

Tem-se falado muito ultimamente de pequenos rebentos de recuperação e por aí fora, e há de facto indícios de que a queda livre da economia, que começou no Outono passado, pode estar a desacelerar. O Instituto de Investigação Económica dos Estados Unidos pode até dar a recessão por terminada antes do fim deste ano.

Mas a taxa de desemprego está, quase de certeza, ainda em alta. E todos os sinais apontam para a existência de um mercado laboral terrível durante muitos meses, senão anos, o que é uma receita para a continuação das quedas salariais que, por seu turno, manterão a economia fraca.

Para sairmos deste círculo vicioso, precisamos, essencialmente, de mais: mais estímulo, medidas mais decisivas por parte dos bancos, mais criação de emprego.

Louvor a quem é devido: o Presidente Barack Obama e os seus conselheiros económicos parecem ter deflectido a economia para longe do precipício. Mas o risco de que os Estados Unidos se tornem um Japão - com anos e anos de deflação e estagnação - parece ser agora maior.


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