FC Porto-Braga
Ruben Micael vs. Luís Aguiar. O negócio dos 3 milhões
por Filipe Duarte Santos, Publicado em 20 de Fevereiro de 2010
O FC Porto pagou para ir buscar o seu reforço de Inverno. O Braga vendeu-o e depois pediu-o emprestado. O rendimento não tem preço
Já lhe chamaram caso de polícia, por não ser convocado para a selecção nacional, e agora que o Mundial está aí à porta e Carlos Queiroz não tem tempo para as suas experiências, às tantas Ruben Micael corre o risco de não ir à África do Sul. Contudo, o seu jogo já deixou de passar despercebido, no Nacional da Madeira, para estar à vista de todos, no FC Porto, na Liga, na Champions - será que Arséne Wenger já sabe quem é o rapaz manhoso que bate faltas antes de o árbitro meter o apito na boca?
O reforço de Inverno aterrou no Dragão e o rendimento foi imediato. Tornou-se indiscutível no onze, os especialistas culparam-no pela subida de rendimento da equipa e até fez Jesualdo Ferreira esquecer-se um pouco de Raul Meireles, aquele que no início da temporada tinha definido como o "melhor médio de transições" que aí anda. Pois Rubén Micael não se mostrou muito incomodado com a concorrência, elogiou Fernando, um daqueles trincos que passam os jogos a fazer o trabalho sujo para os outros andarem mais à vontade, e depois limitou-se a criar jogadas de perigo e assistências, a assumir a bola, os conflitos, a dar ganas a uma equipa que afinal precisava de uma injecção de moral, ou de um verdadeiro jogador "à Porto" no meio-campo. E ele aí está, vindo do nada, ou do Caminho das Preces, a sua rua em Câmara de Lobos.
O sonho de jogar na selecção com o outro madeirense que anda nas bocas do mundo, Cristiano Ronaldo, até pode vir a ser adiado, mas já se percebeu que mais tarde ou mais cedo vai concretizar-se. O preço aponta logo para a qualidade; o FC Porto pagou ao Nacional 3 milhões de euros por 60 por cento do passe. O Sporting foi apanhado na curva, o Benfica também cheirou o negócio e no estrangeiro eram vários os clubes interessados, mas a opção estava bem definida. "Quero ir para o FC Porto porque é o melhor clube português, tem mais organização e joga sempre na Liga dos Campeões." Está feito. E assim Pinto da Costa garantiu um todo-o-terreno à antiga, como o próprio Ruben, que em 1999 comprou aquele belo Volkswagen Golf e agora, mesmo a ficar a rico, não vê razão especial para gastar dinheiro num bólide novo. À maneira antiga. "Se o senhor Antero [Henrique] não cumprir com o que prometeu, vou ter de trazer o meu carrinho [da Madeira]. Seguro é que não vou comprar qualquer carro, nem que me arranjem um de mil euros para eu andar", disse numa entrevista ao jornal "O Jogo". O investimento vai ser outro: oferecer casa nova ao pai (pedreiro) e à mãe (bordadeira), que passaram dificuldades para criar os sete filhos que puseram no mundo.
Ruben Micael até não lhes deu muito trabalho. Da rua para o Estreito, depois para o União da Madeira e para o Nacional, fez a sua carreira sempre na ilha, apesar de em em miúdo ter ido ao Estádio da Luz tentar a entrada no Benfica. "Houve um senhor que me disse que nunca seria jogador de futebol", contou ao "DN", referindo-se a Nené. Voltou à Madeira, mas com 23 anos está de novo no Continente sem que alguém possa dizer que chegou tarde - o rapaz que cresceu a querer ser como Zidane, o desconhecido que marcou sete golos (!) na presente edição da Liga Europa, com o Nacional de Manuel Machado, tem a carreira toda à sua frente. E o FC Porto agradece.
O MICAEL DE BRAGA O que o FC Porto pode não agradecer é o que Luís Aguiar anda a fazer por Braga - marcar golos decisivos, como aquele que deu a vitória contra o Marítimo. Luís Aguiar é o Micael do Sporting de Braga. Também joga a médio ofensivo e também chegou no mercado de Inverno depois de no final da época passada o mesmo Braga o ter vendido por 3 milhões ao Dínamo de Moscovo. Ou seja, a diferença é que é um reforço emprestado, quase de borla, negócio de loja dos trezentos, sem que ninguém tivesse dado conta do que aconteceu - o modesto Braga reforçou-se com um jogador que até estava a ser falado para o Sporting, isto é, mexeu-se como um clube grande, ou como um candidato ao título.
Os 3 milhões de euros que este internacional uruguaio de 24 anos rendeu há sete meses nasceram de uma grande época acompanhado por Jorge Jesus, mas o Aguiar que andou pela Europa, por exemplo, a marcar golos ao Portsmouth - já não era um jogador qualquer. Curiosamente, foi até o FC Porto que o trouxe para a Europa e tentou valorizá-lo em cedências ao Estrela da Amadora e à Académica, até que alguém decidiu vendê- -lo para Braga. Resta saber com que consequências, porque o futebol está cheio destes enganos. "Aqui sinto-me bem, sinto-me em casa", disse recentemente, como se não houvesse outro clube onde pudesse jogar em Portugal. Braga ficou--lhe na memória, pela cidade e pelo treinador que lá encontrou. "Jorge Jesus foi o melhor que eu tive", disse, quando estava na Rússia. Talvez ainda não tivesse percebido o que podia fazer com Domingos Paciência.
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Ruben Micael vs. Luís Aguiar. O negócio dos 3 milhões
Actividade em ionline