PRIMEIRO PLANO

Os bancos centrais e os banqueiros

por Ricardo Reis, Publicado em 20 de Fevereiro de 2010   
Em vez de ler "Constâncio, o competente", só li na imprensa e ouvi da boca dos que o nomearam "Constâncio, o português". Isto não é bom
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A política monetária é um dos temas mais técnicos na política económica. Nas discussões sérias sobre o tema há pouco lugar para "políticas de esquerda" ou "convicções no mercado"; predominam antes o rigor matemático, o conhecimento dos mercados financeiros e o pragmatismo a que obriga o confronto permanente com os dados. Isto reflecte-se também nos banqueiros, que na sua maioria têm hoje um doutoramento e investigação científica na área, embora isto deixe frustrados os políticos e os comentadores, que não conseguem sequer penetrar na discussão.

Apesar disso, existem alguns pontos fundamentais que um aspirante a banqueiro central tem de dominar e transmitir de forma clara a todos. Três deles são cruciais para os desafios que o BCE enfrenta hoje. Primeiro, a inflação é determinada pela política monetária. Imprimir mais dinheiro ou baixar as taxas de juro aumenta a inflação. O banco central pode (e deve) ter outros objectivos para além da inflação, mas não pode perder de vista que, a longo prazo, a inflação é sua responsabilidade exclusiva.

Segundo, as grandes acelerações da inflação têm fonte nos problemas fiscais. Quando os governos acumulam tantas dívidas que perdem a confiança dos credores e se vêm desesperados para pagar os salários da função pública, viram-se para o banco central. Se for preciso, põem os banqueiros na prisão ou invadem o banco central, mas conseguem sempre que se imprima o dinheiro que falta. O resultado é a hiperinflação.

Terceiro, se as pessoas esperam que a inflação vá acelerar no futuro, isso causa inflação já hoje. As famílias vêm-se livres do dinheiro que vai em breve perder valor e as empresas sobem os preços à conta da inflação futura. As duas coisas levam a que o nível dos preços suba hoje. Foi assim na Alemanha dos anos 30; é assim hoje no Zimbabué.

Um banqueiro que domina estes três pontos tem de estar assustado. Cada vez que se fala da possibilidade de o BCE ajudar a Grécia, aumentam as expectativas de inflação futura. Isso põe pressão na subida da inflação hoje, e a curto prazo isto vê--se na queda do valor do euro. Por fim, o BCE sabe que, se a inflação dispara, é nele que vão cair todas as culpas.

Vítor Constâncio percebe profundamente isto? E como pensa lidar com o problema? Pelo pouco que conheço de Constâncio, só tenho razões para estar optimista. Mas não posso ter a certeza, porque na discussão da sua nomeação, em vez da capacidade técnica discutiu-se antes a sua nacionalidade. Em vez de descobrir se tenho "Constâncio, o competente", só li na imprensa e da boca dos que o nomearam "Constâncio, o português". Falou-se de menos do seu mérito e de mais do "triunfo da diplomacia portuguesa". É este o calcanhar de Aquiles de todas as instituições europeias, e nem os tecnocratas do BCE lhe escapam.

Professor de Economia, Universidade de Columbia

rr.ionline@gmail.com Escreve ao sábado


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