Opinião
Austeridade sem fim?
por João Rodrigues, Publicado em 18 de Maio de 2009
Investimentos adiados, salários reduzidos e dificuldades no acesso ao crédito só podem ser resolvidos pelos poderes públicos
Antes de a crise eclodir, até o Fundo Monetário Internacional já havia alertado para o fenómeno da perda de peso dos salários no rendimento nacional da generalidade dos países. Juntem a isto o aumento das desigualdades salariais e temos um contexto propício para que o consumo deixe de acompanhar a produção. Este é um dos elementos da crise. Os salários são um custo para as empresas? São. Os salários são fonte de procura? Também. Uma contradição que só pode ser superada politicamente. Não foi.
A liberalização comercial e financeira aumentou a pressão sobre muitos assalariados, cada vez mais vulneráveis às ameaças de deslocalização de empresas ou às desmedidas exigências de rendibilidade dos accionistas. Os salários passaram a ser cada vez mais vistos como custo a conter. Os perigos da situação foram disfarçados através do endividamento das famílias e da especulação financeira. Porém, aquilo que disfarçou foi o mesmo que ajudou a alimentar a crise da globalização.
A contracção da procura é agora geral e o que parece racional para cada agente económico gera um resultado global cada vez mais irracional: adiamento de investimentos porque o futuro é incerto, reduções de salários porque a ameaça de desemprego parece iminente e dificuldades no acesso ao crédito porque a desconfiança é generalizada.
Neste contexto, só os poderes públicos nos podem valer. Investimento público, emprego público, apoio social e acesso ao crédito são os diques que evitam o colapso geral. Não espere o leitor que economistas liberais puros aceitem a impureza da realidade. Em artigo recente, João César das Neves saúda a contracção dos salários em curso nos sectores expostos à concorrência internacional e ataca o sector público, ou seja, saúda o que aprofunda a crise e ataca o que ainda nos pode ajudar a sair da crise.
Em Portugal, como por todo o lado, as exportações colapsam e as importações também. As nossas exportações dependem da procura de outros e vice- -versa. A deflação salarial encolhe o mercado interno europeu e prejudica todos os países. Hoje, temos de pensar sobre os nossos problemas no quadro europeu.
Na União Europeia, a falta de resposta coordenada dos poderes públicos, a ausência de um orçamento federal digno desse nome, uma política monetária complacente e a falta de coragem para nacionalizar e sanear o sistema financeiro só deixam as saídas privadas descritas e defendidas por João César da Neves. Saídas para o precipício da depressão.
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
Escreve à segunda-feira
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